
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)
Às vezes eu falo com a vida,
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero conservar
Para tentar ser feliz?
- O Rappa.
Lembro da professora de Literatura no colégio dizer que, quando líamos um texto de novo, sempre iríamos ver detalhes antes não vistos. Escutei essa música e fiz a conexão.
Que tipo de paz disfuncional conservamos para tentarmos ser felizes ou mascarar uma suposta felicidade?
No filme Flores Raras, a poetisa Elizabeth Bishop observa, da sacada do apartamento de sua amada, a arquiteta Lota, amigos jogando futebol normalmente na praia, como se nada tivesse acontecido. Só tinha um problema: era o dia do golpe militar. Ela não entendeu que paz era aquela. Disse mais tarde, em um jantar com políticos:
“Eu gostaria de entender essa alegria insuportável que os brasileiros sentem. Essa urgência constante de celebrar. E então, há a melancolia, o drama, a extravagância, o abandono. Para uma norte-americana como eu, é excessivo. Quando Kennedy morreu, foi tão grande a manifestação de dor. Porteiros, taxistas, faxineiras… Por quê? O que vocês perderam? Mas quando o golpe militar aconteceu e vocês perderam a liberdade, eu estava lá: vocês foram jogar futebol na praia.”
Lembrei desse diálogo. Eu estava indo para uma consulta em uma torre empresarial quando vejo dois funcionários discutindo quem ia ou não para a Copa do Mundo. Enquanto isso, saiu a notícia de que o governo fechava 2023 com déficit histórico de 230 bilhões. E ninguém nas ruas.
Dos tipos de paz que se tem na prateleira da mente, há a paz do comodismo, da cegueira política, da cidadania com lacunas. O brasileiro próprio se derrota. Quando um motoqueiro atravessa o sinal vermelho porque acha que não vai ser pego. Quando um convidado na festa paga extra ao garçom para ser melhor atendido. Quando um funcionário não quer emitir nota fiscal.
Essa anestesia política e moral é um vírus que atinge a muitos e tem potencial de contaminar outros. “O futuro não é mais como era antigamente”, disse o cantor Renato Russo. Antigamente tínhamos revoluções, Balaiadas, Canudos, independência ou morte.
Hoje temos um carnaval anual sem sentido, em meio ao caos, uma alegria anestesiante. Panis et circenses, o eterno pão e circo, é uma paz perigosa, pois mascara a realidade. É melhor ser alegre que ser triste? Sim. Mas positividade também pode ser tóxica.
Renato Russo e Elizabeth Bishop não se encontraram. Mas, se eu pudesse dizer algo a Elizabeth, mostraria esse trecho da música “Perfeição”, que também critica esse desespero por celebrar do brasileiro:
“Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão”
Sim, há celebrações tristes e inúteis no Brasil, que só olhares raros conseguem ver. O resto é míope, não consegue ver de longe o poço de melancolia que nossa realidade problemática nos insere.
Por fim, finalizo este artigo com a última estrofe, que creio nos representar também:
“Venha
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição.”
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