
A discussão sobre a existência de “dois Piauis”, um apresentado pela comunicação oficial do governo e outro encontrado pela população no cotidiano dos municípios e comunidades, ganhou novo capítulo após o debate entre os candidatos ao Governo do Piauí realizado pela Band Piauí.
Durante o confronto, o candidato do Progressistas, Joel Rodrigues, bateu forte na tecla de que existe uma distância entre o Estado retratado pela publicidade oficial do Governo do Estado e aquele que ele afirma encontrar durante suas viagens pelo interior.
Joel afirmou que tem percorrido o Piauí e ouvido diretamente a população. Segundo o candidato, a realidade encontrada nas cidades não corresponderia à imagem apresentada pela comunicação institucional do governo de Rafael Fonteles.
“Parece que o que se fala não é o Estado que a gente vê de perto”, afirmou Joel, ao sustentar que existe uma diferença entre o Piauí apresentado pela publicidade oficial e aquele encontrado nas ruas, nos municípios e nas comunidades.
A declaração repercutiu nos meios políticos e empresariais. Em entrevista exclusiva ao Gazeta Hora1, o empresário e ex-senador da República João Vicente Claudino avaliou que o aumento dos investimentos em publicidade institucional durante períodos eleitorais é uma prática recorrente.
Segundo JVC, governos costumam ampliar significativamente os recursos destinados à comunicação em anos de eleição.
“Basta uma busca nos orçamentos, seja do governo federal ou dos 26 Estados e mais o Distrito Federal, e você percebe o quanto ele é turbinado o orçamento do governo em função do período eleitoral”, explicou.
O ex-senador afirmou que esses investimentos normalmente aparecem sob a justificativa de prestação de contas e divulgação de ações públicas, mas avaliou que, em períodos eleitorais, a finalidade pode assumir outra dimensão.
“Vem com o título de prestação de contas, de contas públicas, mas não é”, afirmou. Segundo ele, “o intuito é de buscar voto”.
JVC também fez ressalvas sobre a maneira como determinadas informações são apresentadas na publicidade governamental.
“E não deixa de dar uma apimentada nas informações. Começa a colocar dados que talvez até tenha tido a intenção de fazer, mas não alcançou êxito.”
Segundo o empresário, também existem situações em que os números são apresentados de maneira que pode gerar interpretações diferentes.
JVC citou como exemplo os indicadores da educação e mencionou dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
“Os dados que eu vi do Ideb é que o Paraná teve 5,1 e Piauí, Goiás e Espírito Santo, que ficaram empatados em 4,9. Então o governador cita 5,0. Eu não vi esse dado. E se tem três empatados em 4,9, o Piauí pode ser o segundo, como pode ser o quarto colocado no Ideb”.
Na avaliação do ex-senador, a discussão sobre os números precisa considerar o desempenho absoluto e não apenas a posição relativa entre Estados.
“E cá entre nós, no tempo em que você estudava, passava com 4,9 ou 5,0? Então isso é o resultado no Brasil, do menos ruim, não do melhor”.
A mesma crítica, segundo JVC, pode ser aplicada aos indicadores e anúncios relacionados à saúde.
“O mesmo ocorre em relação à Saúde, onde se coloca número que eu acho irreais”.
O ex-senador questionou particularmente afirmações relacionadas à redução de filas por meio da telemedicina.
“Outra coisa, dizem que acabou fila disso e daquilo em cima de uma telemedicina, que não contempla a realidade do doente, que muitas vezes não é uma coisa só fisiológica, mas envolve também o ambiente de vida”.
Para JVC, a tecnologia pode ser uma ferramenta importante, mas não deveria substituir indiscriminadamente o contato presencial entre médico e paciente.
“Um médico onde você consulta pela internet e ele não mede sequer a sua pressão, não ausculta seu pulmão, nem o coração. Não tem o conhecimento da sua realidade. Não conhece uma cidade do interior do Piauí”.
O empresário, entretanto, fez uma ressalva e afirmou ser favorável à telemedicina quando utilizada como instrumento de apoio especializado.
“Eu concordo com a telemedicina quando você busca especialistas. Você está em um determinado hospital que tem um hospital de referência em São Paulo, como o Sírio, o Albert Einstein, Vila Nova Star, Incor e tantos outros, e você consulta o médico em cima de uma cardiopatia, de uma especialidade oncológica, um tratamento neurológico, já com exames realizados, é uma coisa”.
Mas, para ele, a situação é diferente quando a consulta representa o primeiro contato do médico com o paciente.
“Agora, você iniciar o histórico de uma pessoa sem ter o contato, sem presença física, eu não acredito”.
João Vicente Claudino também questionou a continuidade de projetos anunciados pelo governo como grandes vetores de transformação econômica do Piauí.
“Veja, se gastou muito em mídia na questão do hidrogênio verde. Nunca mais se falou no assunto. Como está isso? Era a salvação da economia do Piauí”.
O ex-senador lembrou os anúncios relacionados à expansão internacional do projeto.
“Onde é que estão os escritórios abertos na Estônia, Portugal, EUA, Inglaterra e não sei mais aonde? Se a mídia não fala, eu imagino que não esteja funcionando”.
Outro ponto abordado por JVC foi a presença, nas disputas eleitorais, dos chamados “candidatos laranja”, expressão utilizada para identificar candidaturas que, segundo ele, teriam como principal finalidade atacar adversários.
“Esses personagens não são típicos dessa eleição não”, explicou.
O empresário classificou esse tipo de atuação como “pistoleiro da retórica”.
Segundo ele, são candidatos que entram na disputa com um discurso direcionado e com o objetivo específico de atingir determinada candidatura.
“Eles entram na disputa com um único objetivo: macular, matar a reputação de alguém”, afirmou.
“É tipo assim: um candidato quer falar só coisa boa e deixa a parte ruim para o laranja. Esse pistoleiro é contratado para fazer isso”.
Na avaliação do ex-senador, esse tipo de estratégia prejudica a qualidade do debate democrático.
“Esse tipo de coisa enfraquece o debate democrático, uma vez que o que se busca discutir são os problemas e as soluções para o Estado, programas que possam transformar nossa realidade efetivamente, não no discurso, não falácias e assassinatos de reputação”.
JVC defendeu que o eleitor deve receber propostas concretas e capazes de serem avaliadas.
“Até porque o que o eleitor quer ouvir são propostas factíveis, soluções para os problemas do Estado, não discurso bonito jogado para a plateia”.
O ex-senador também recorreu a uma referência histórica para destacar a importância da coerência entre discurso e prática. Citou Padre Antônio Vieira:
“Ele nos ensinou que o que arrasta é o exemplo. Já o discurso, ele até nos entontece, empolga, mas é efêmero e se dissipa fora do palanque. Não adianta você falar se a sua prática de vida não é aquela”.
A partir dessa premissa, JVC defendeu que os debates eleitorais deveriam servir principalmente para permitir que o eleitor conheça os projetos apresentados pelos candidatos e possa avaliar sua viabilidade.
“Portanto, o debate deveria ser um momento esclarecedor o suficiente para passar a confiança necessária para as pessoas de que o seu projeto é realmente algo que vai acontecer”.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de a eleição deste ano surpreender o cenário político do Piauí, João Vicente Claudino foi taxativo ao recorrer a uma palavra frequentemente associada à política: “imponderável”.
Imponderável é aquilo que não pode ser previsto, calculado ou controlado com certeza.
“Existe uma palavra que costuma ser colocada apenas para a política e eu não sei por que, que é imponderável”.
Para JVC, a dinâmica eleitoral pode mudar rapidamente diante de acontecimentos inesperados.
“Veja, eu já vi um fato, numa cidade, mudar a eleição do dia para a noite”.
O avanço das redes sociais e da internet, segundo ele, tornou esse processo ainda mais imprevisível.
“E principalmente, hoje, com a velocidade das redes sociais, da internet, muitos políticos vão dormir eleitos e acordam derrotados".
A inteligência artificial acrescentaria uma nova variável ao cenário.
“E, ainda mais com o advento da IA. Não precisa nem um fato existir. Ele pode ser criado. Então desmontar isso e desfazer essa história é muito mais complicado”.
Para explicar o fenômeno, o empresário utilizou uma metáfora:
“Se compararmos a política a um rio, ele segue com seu curso normal, previsível, mas de repente pode surgir uma enchente e desviar o curso dessas águas e levá-la ao imponderável”.
No fim, JVC resumiu sua avaliação com uma expressão que traduz a imprevisibilidade do processo eleitoral:
“Tudo pode acontecer, inclusive nada.”
A frase é atribuída ao jornalista e escritor Accioly Neto e costuma ser utilizada justamente para definir situações em que qualquer desfecho permanece possível, inclusive a ausência de uma mudança significativa.
Em uma eleição marcada pela disputa de narrativas, pela força da publicidade, pela velocidade das redes sociais e pelo avanço da inteligência artificial, a advertência de João Vicente Claudino ganha uma dimensão particular.
Entre o Piauí da propaganda e o Piauí real, entre o discurso e a prática, entre a promessa e a entrega, estará o eleitor.
E será ele, diante das urnas, quem decidirá qual narrativa sobre o Estado prevalecerá.
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