
“Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas — e prometo silêncio.”
Rubem Braga
Mas eu não, Rubem Braga…
— Você não acha que deveria ter guardado para si mesma? — disse um sem noção conhecido, que acha que eu deveria ter ficado numa caixa ao invés de publicar minha opinião nos livros.
Não, não acho.
Minha voz conta. E reconta. De quantos números são feitos nossos dias, emoções, feitos? Eu, que sempre briguei com a matemática?
Conheci o infinito no momento que vi que me amei mais do que nunca.
As notas do colégio.
Decorar a tabuada.
A posição no vestibular.
O tamanho do manequim que mudou.
O peso na balança.
O tamanho do corte de cabelo.
Número de 15 anos que fui.
O número de cabelos brancos novos.
A idade e seus medos juntos.
Quantos livros faltam?
Horas? Que horas nos definem? Já são 10 da noite? Já sabem quantos erros você cometeu? Quantos decibéis tem essa voz interna que te condena?
Shhhh… silêncio.
Hora de recontar o balanço do meu coração. Hora de dormir. Hora de recomeçar. Já contei demais. Para mim, para os outros. Meus números estão fatigados, cansados, inchados de trabalhar. Voltar ao ponto zero às vezes faz mais sentido.
Mín. 22° Máx. 34°