
Só podia ser uma benção no voo de São Paulo para Teresina meu assento estar livre. Deitei com meu travesseiro e, a certo ponto, caiu uma lágrima ao lembrar que não iria acordar mais com os macacos me dando bom dia. Lembrei que cheguei em Manaus no primeiro dia com medo do ar quente abafado que me falavam, e me deparo, já na janela, com um rio enorme, muito grande mesmo. E muito, muito verde.
Não dormi bem do dia 18 para 19. Tive que tomar calmante e fiquei com medo de perder o city tour que havia comprado para o dia 19. Mas consegui. Embarquei no cais e, para minha alegria, o passeio do boto foi o primeiro. Eu entrei no rio, ele pulou na minha frente e foi um momento maravilhoso. Depois fomos ver a vitória-régia, vários macacos pulando, almoço regional delicioso. Fui no shopping, fui no Coco Bambu experimentar, e comprei a pijama da Barbie, filme que estava na expectativa de ver.
Saímos do hotel de ônibus e foram duas horas até a margem do rio, onde os barcos do hotel nos aguardavam. Primeiro as malas. Depois nós. Cheguei e percebi que o hotel era estilo palafita.
— Isso aqui está melhor do que a Disney! — eu pensava enquanto via os macacos nos acompanhando pelo hotel. Fui na Grécia e não iria aqui, no nosso próprio país? Fui na Disney ver o Mickey e não tinha pisado ainda no Norte do país. Ao começar a dinâmica com o grupo no salão, escutamos os macacos brigando.
— Família, né, gente! — brincou o guia do retiro.
Outra hora a macaca veio e bebeu o copo com água. Todos rimos:
— Hidratada é ela! — falou uma colega.
Havia uma simpática macaca com seu filhote pendurado que, milagrosamente, não caía de jeito nenhum. Outra colega, que gostava de roubar as coisas da nossa mão. Um dia, abriram a porta do meu quarto, pularam na cama, mexeram na minha nécessaire. Me disseram, eu não estava nessa hora. Mas como eu queria estar.
No segundo dia acordamos cedo e fomos fazer yoga em uma cabaninha. Passou do meu lado um porco-do-mato. Eu estava bem fora de forma, portanto a yoga foi dolorosa. Fomos à aldeia indígena, que foi a mais duas horas de barco, passando pelo alto Rio Negro. Visitamos a oca e tinha artesanato para vender. Comi formiga frita, bebi uma bebida típica, vimos a apresentação e o pajé falou sobre reencarnação nas crenças dele. Havia uma torneira de um projeto alemão da ONU onde me refresquei. Um leve e milagroso sinal de wifi passou e eu consegui mudar a passagem com a funcionária da agência. Fez calor, muito calor. Acho que foi onde eu senti mais calor na minha vida até então. A volta era mais duas horas de barco, e este parou em pleno alto Rio Negro. Morrendo de medo de jacaré e piranha, mas mergulhei, não aguentei de calor. Voltei e almoçamos, sempre um cardápio vegetariano. De tarde dormi e não tive mais coragem de banhar no rio depois de ver o jacaré na noite anterior.
“Última vez que fico sem wifi na vida.” — pensei. Lembro que jejuei à noite pelas almas do purgatório.
No terceiro dia faltou luz. De manhã cedo acordamos com chuva. Tive dois sonhos meio maluquinhos. De manhã fomos visitar uma comunidade ribeirinha e os profissionais de saúde foram chamados para fazer atendimento voluntário. Eu, como psicóloga, sentei em uma mesa debaixo de uma árvore. Atendi pessoas com desejo de vingança, justiça, ansiedade, memória fraca. Lembrei do mês que atendi em São Paulo. Como nos extremos do Brasil há problemas parecidos.
À tarde, na varanda que tinha, a macaca mãe veio e pulou no meu colo enquanto eu estava na rede. Essa com certeza foi a conexão mais poderosa que tive com a natureza. Foi uma cena engraçada e terna, pois a outra macaca veio de mansinho e pegou na rede como quem diz: “quero entrar também”. Eu calmamente falei:
— Pode não.
Para quem só tinha visto macacos no zoológico de Berlim e sagui no sítio e Raul Lopes…
Branquinho era o índio peruano, que era nosso guia nos passeios, além de Rafael, o guia da agência. Sua lealdade lembrava o personagem indígena norte-americano “One Stab”, do filme Lendas da Paixão.
No quarto e último dia, teve uma dinâmica de manhã sobre o olhar. A macaca veio e pensei:
— Pode vir no meu colo uma última vez, eu não vou te decepcionar.
Era a hora de partir. As malas foram pros barcos, eu olhei para essa construção tão única, esse rio que banhei, mesmo com medo de jacaré. Tinha cheiro de esperança verde, fresca como o rio. Lembrei que foi descoberto que as plantas também choram, que um campo de futebol é derrubado todo dia na Amazônia — e tudo isso rasgou minha alma.
Fui. E, em alguma dimensão, ainda não voltei… Na volta, onde eu deitei no avião, caiu uma lágrima.
Até logo, macacos lindos e dengosos.
Na Amazônia o Brasil ainda respira.
A nossa bandeira ainda respira.
O Brasil é verde, amarelo, azul, cinza de prédios e poluição, e vermelho de sangue e corrupção.
Mas nesses quatro dias foi negro como o rio, mil tons de verde, azul. Voavam na minha frente a arara vermelha, arara azul. Havia o macaco que me espiava no banheiro. Me pintaram de urucum que cobre o rosto dos índios. Mas hoje, pra mim, ele é apenas mais verde.
Julho / 2023
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