
Historicamente, a imprensa piauiense moldou-se sob o signo da coragem e do isolamento geográfico, operando em tempos onde a notícia dependia do chumbo dos linotipos e da circulação física dos jornais de papel. Longe da instantaneidade digital e das redes de proteção jurídica e midiática que conhecemos hoje, o jornalismo de antigamente no Piauí era uma atividade de trincheira. Investigar os bastidores do poder ou denunciar os abusos das elites locais significava colocar o próprio corpo em risco, uma vez que o coronelismo e as estruturas arcaicas de mando viam na palavra impressa uma afronta direta à sua impunidade. Era um cenário de extremos: de um lado, jornais destemidos que se tornavam a única voz de cobrança social; do outro, forças ocultas que não hesitavam em silenciar a tinta com a pólvora sempre que as estruturas do crime eram ameaçadas.
A Era de Ouro da Resistência e do Esclarecimento Político
No final dos anos 1970, esse espírito de vanguarda e retidão ganhou corpo nas páginas de um fenômeno editorial: o jornal Tribuna do Povo. Circulando em formato tabloide e com expressiva tiragem, o veículo consolidou-se como uma trincheira de nítida linha de oposição política, duelando bravamente contra as forças do regime militar no plano federal e contra o governo de Lucídio Portella, o último chefe do Executivo estadual eleito de forma indireta pela Assembleia Legislativa.
O tabloide cumpriu um papel pedagógico indispensável, contribuindo diretamente para o esclarecimento político de uma sociedade amordaçada pela ditadura. Tratava-se de um modelo de fazer jornalismo pautado pelo interesse público, uma realidade que, infelizmente, deixou de existir no ecossistema local. Cooptada inicialmente pela distribuição de cargos públicos e contracheques, a postura altiva de outrora acabou descambando, ao longo das décadas, para a compra pura e simples da linha editorial por parte de governantes, pasteurizando a quase totalidade das atuais empresas de notícias do estado.
Coberturas Históricas: A Imprensa como Escudo da Sociedade
Essa postura combativa não se limitava à arena política; manifestava-se com igual vigor na cobertura policial, em uma época em que a imprensa exercia o papel de legítima fiscal dos órgãos de segurança pública. Um dos episódios mais emblemáticos desse período foi a cobertura da chamada Chacina do Posto King. O caso envolveu o temido empresário e pistoleiro José Maria Chaves, que assassinou friamente quatro policiais civis encarregados de sua prisão. A comoção e a indignação lideradas pelos jornais de época impediram que o crime fosse varrido para debaixo do tapete, transformando o clamor por justiça em uma causa estadual.
Da mesma forma, a imprensa piauiense assumiu contornos históricos ao cobrir intensamente outros crimes bárbaros que chocaram a capital, como o rumoroso caso do assassinato da Doméstica e o trágico homicídio do carteiro Helzano. Em ambos os episódios, a insistência obstinada das redações, que se recusavam a aceitar respostas fáceis, encurralou as autoridades da época. Essa pressão midiática incessante obrigou as forças de segurança a darem explicações convincentes e transparentes à população, demonstrando que nenhum poder, por mais violento que fosse, estava imune ao escrutínio público.
O Caso Hélder Feitosa: O Primeiro Alerta
Contudo, a reação das forças oligárquicas e marginais não tardou a se manifestar de forma sangrenta. O assassinato do jornalista e empresário Hélder Feitosa, em 28 de julho de 1987, materializou o pior dos medos que rondavam as redações piauienses. Proprietário do jornal O Estado e das rádios Poty AM e FM, Feitosa utilizava seus veículos para ecoar denúncias e pautas incômodas. A execução brutal dentro de sua própria residência, na Zona Leste de Teresina, por um grupo de homens armados, chocou o estado não apenas pela violência, mas pelo forte simbolismo do ato: o silenciamento de uma das vozes mais influentes da comunicação local.
Contudo, a verdadeira face do atraso institucional se revelou no pós-crime. O inquérito policial arrastou-se por labirintos de omissões e falhas técnicas, flertando com teses controversas e, décadas mais tarde, resultando na prescrição do caso sem que nenhum mandante ou executor passasse um dia sequer atrás das grades. A impunidade no caso Hélder Feitosa não foi apenas uma falha jurídica; foi o salvo-conduto que as forças marginais precisavam para entender que, no Piauí daquela época, matar jornalistas não gerava consequências.
A Mutação para o Crime Organizado
Foi precisamente nesse vácuo de autoridade e justiça que a criminalidade piauiense sofreu uma mutação genética, deixando de ser um ato isolado de pistolagem para se transformar em uma corporação sofisticada de horror. O ambiente de impunidade pavimentou o caminho para a ascensão do crime organizado na década de 1990, que encontrou na figura do ex-coronel José Viriato Correia Lima o seu arquiteto principal.
A estrutura comandada por Correia Lima subverteu o próprio Estado: misturando oficiais da Polícia Militar, pistoleiros profissionais, agentes públicos e até políticos, o grupo criou um verdadeiro "consórcio do crime". O sindicato da pistolagem não operava mais nas sombras do interior profundo; ele cobrava propinas, desviava verbas públicas, comandava o narcotráfico e eliminava adversários em plena luz do dia, na capital. A imprensa, que ainda tentava cicatrizar a ferida da morte de Hélder Feitosa, viu-se diante de uma máquina de moer vidas muito mais organizada, cujo auge de audácia culminaria anos depois na execução do jornalista Donizete Adalto.
O Caso Donizete Adalto: O Desafio Aberto ao Consórcio da Morte
Se o assassinato de Hélder Feitosa ocorreu nos bastidores do poder, a execução do jornalista Donizete Adalto, na madrugada de 19 de setembro de 1998, foi um espetáculo de audácia perpetrado pelo crime organizado no auge de sua prepotência. Donizete não era um jornalista tradicional; com um estilo irreverente, combativo e popular na televisão, ele vocalizava a indignação da sociedade contra o "sindicato do crime" e utilizava jargões que viraram febre, expondo figuras intocáveis da política e da polícia piauiense. No momento de sua morte, ele já havia transicionado das telas para a política, despontando como um forte candidato a deputado federal.
A emboscada na Avenida Marechal Castelo Branco, em Teresina, onde Donizete foi violentamente espancado e executado com vários tiros, desnudou por completo as entranhas da organização comandada pelo ex-coronel Correia Lima. Diferente do passado, a sociedade e as instituições federais não puderam fechar os olhos. A comoção pública e a pressão nacional foram tamanhas que o crime funcionou como o estopim para o desmantelamento daquela estrutura criminosa.
A investigação do Caso Donizete Adalto arrastou para o banco dos réus não apenas os pistoleiros que puxaram o gatilho, mas expôs a rede de oficiais, empresários e políticos que davam sustentação ao coronelismo sangrento que tentava subjugar o Piauí. Foi o sacrifício de uma voz ruidosa que, paradoxalmente, marcou o início do fim do império de impunidade de Correia Lima.
O Estado que Omite e a Impunidade que se Perpetua
A trajetória de sangue que silenciou vozes como as de Hélder Feitosa e Donizete Adalto encontra um eco institucional igualmente perturbador quando analisamos os crimes de responsabilidade e a negligência do próprio Estado piauiense. O fio condutor que une a pistolagem política do passado à omissão administrativa contemporânea é o mesmo: a certeza da impunidade. O exemplo mais doloroso dessa dinâmica ocorreu em maio de 2009, durante o segundo mandato do governador Wellington Dias, com o trágico rompimento da Barragem de Algodões I, no Norte do estado. Naquela ocasião, a força das águas devastou comunidades em Cocal e Buriti dos Lopes, ceifando vidas e destruindo a subsistência de centenas de famílias que haviam retornado às suas casas sob a garantia de órgãos estatais de que a estrutura era segura.
Diante do rastro de desolação e das mortes provocadas pela ausência de fiscalização eficaz, a imprensa piauiense resgatou o seu papel de trincheira histórica. Distante do silêncio forçado pelas balas das décadas anteriores, os veículos de comunicação agiram com extrema dureza, cobrando explicações técnicas, denunciando os laudos negligenciados e exigindo a punição rigorosa dos envolvidos, desde a presidência da Emgerpi até a cúpula do governo. Todavia, passados tantos anos do desastre, o desfecho judicial de Algodões mimetiza o desfecho dos assassinatos dos jornalistas do passado. Entre recursos arrastados, acordos indenizatórios tardios que mal reparam as perdas e manobras jurídicas nos tribunais superiores, nenhum gestor público foi efetivamente responsabilizado ou punido criminalmente.
No cenário contemporâneo, essa histórica e progressiva fragilização dos veículos tradicionais encontrou um novo e definitivo divisor de águas: a ascensão das redes sociais. Hoje, as plataformas digitais atuam como o principal catalisador de informações e notícias sobre todos os assuntos em pauta no Brasil e no mundo, democratizando o acesso, mas também descentralizando o poder da narrativa. Esse meio de comunicação direta e instantânea vem substituindo paulatinamente os jornais e telejornais convencionais, um fenômeno observado com especial vigor entre os mais jovens. Para essa nova geração, os canais tradicionais de mídia deixaram de ser vistos como uma fonte de informação segura e isenta; em vez disso, a juventude busca na horizontalidade e na velocidade das redes a resposta imediata para os acontecimentos, redefinindo por completo a forma como a sociedade consome a verdade e fiscaliza o poder.
Concluir esta linha histórica é compreender que a imprensa livre no Piauí sempre foi o principal freio contra os excessos e os vazios do poder. Seja enfrentando os consórcios de pistolagem armada de ontem, seja apontando o dedo para a letal inércia burocrática de hoje, a palavra escrita e falada permanece como a última barreira de dignidade de uma sociedade que se recusa a esquecer os seus mortos.
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