
A vida, naquela Teresina dos anos setenta, passava como passo de alma: devagar e sempre. Havia uma leveza flutuante nos dias, um compasso rústico e macio que o tempo moderno, com sua pressa devoradora de instantes, tratou de apagar. Eu vivia sob a aba larga e protetora dos meus pais. Naquela época, o mundo dos adultos, com seus boletos, preocupações de subsistência e contas a pagar, parecia uma realidade distante, quase mitológica. Minha única e exclusiva obrigação era dar satisfação do meu desempenho escolar. Satisfeito esse rito, a rua era o meu reino, e a juventude, uma promessa de eternidade.
O Brasil ainda ecoava os dias efusivos e dourados da conquista do tricampeonato no México, em 1970. Mas, na nossa capital piauiense, os grandes agitos se restringiam aos bailes elegantes nos clubes tradicionais ou às festas misteriosas nos "inferninhos" de ponta de rua. O rock nacional mal ensaiava seus primeiros passos por aquelas paragens; o que nos embalava a alma e alimentava as rebeldias secretas eram as ondas do rádio tocando o "Maluco Beleza" de Raul Seixas ou a doce melancolia de Rita Lee em "Ovelha Negra". Fora isso, o silêncio e o farfalhar das folhas de manga ditavam o ritmo das tardes.
Morar no Bairro de Fátima, no final do primeiro governo de Alberto Silva e sob o cajado episcopal de Dom Avelar Brandão Vilela, era habitar uma fronteira de calmaria. A Avenida Nossa Senhora de Fátima, hoje uma artéria pulsante e comercial, terminava exatamente na praça da Igreja. O bairro, de fato, acabava ali. Quem ousasse olhar por trás do templo não veria asfalto ou edifícios, mas sim uma vereda poeirenta cortada por tropas de jumentos. Vinham os bichos mansos, equilibrando cangalhas e jacás repletos de frutas e legumes frescos, vindos das hortas distantes para abastecer o Mercado Central ou o Mercado do Mafuá. Imaginem só: o bairro não possuía sequer um mercado próprio. éramos uma comunidade quase rural, aninhada na periferia da capital.
Andávamos em bandos. éramos muitos, éramos livres e, acima de tudo, éramos protegidos por uma sensação plena de segurança que hoje parece fábula. Calçando nossas inseparáveis "precatas de currulepe", desbravávamos as ruas de piçarra e as avenidas ainda desertas. Não havia o medo do assalto, da violência urbana, do tráfego caótico. Para dizer a verdade, as noites eram tão limpas e pacíficas que nem mosquito incomodava. O ar trazia o cheiro de terra molhada e o frescor que o Rio Poti soprava de longe.
Nos fins de semana, o ponto de encontro inevitável era a missa, celebrada pelo novíssimo Padre Tony Batista. Ele acabara de chegar, jovem e entusiasmado, com a hercúlea missão de catequizar aquela paróquia distante. Terminada a celebração sagrada, o profano e o inocente se misturavam na grande praça. Era o palco da paquera, desenhado em um ritual geométrico e rigoroso: os rapazes caminhavam em bando no sentido horário; as moças, em suas saias engomadas e sorrisos tímidos, faziam o circuito no sentido anti-horário. Desse cruzamento de olhares nasciam os amores de uma vida inteira.
Tudo, é claro, sob o olhar atento dos pais que vigiavam de perto. Namoro requeria um respeito quase litúrgico. A intimidade de um casal era uma conquista lenta, que demandava meses de conversas ao portão. Muitas vezes, a moça vinha acompanhada por uma irmã mais nova ou uma prima, a célebre "vela", cuja missão era garantir que a distância regulamentar fosse mantida. O ápice da audácia juvenil não passava de andar de mãos dadas, sentindo o suor frio do nervosismo, e, com muita sorte, um beijo roubado e inocente na penumbra. Contar isso hoje aos jovens da modernidade faz com que pareçamos criaturas de outro planeta, verdadeiros extraterrestres da afetividade.
Durante a semana, a rotina nos chamava à ordem. Os pais ao trabalho; nós, aos estudos. Eu estudava no tradicional Colégio Leão XIII, onde o rigoroso diretor, Professor Moacir Madeira Campos, não tolerava deslizes. Exigia de nós uma prudência britânica e um comportamento exemplar. Para chegar até lá e retornar ao bairro, dependíamos de uma pequena e precária empresa de ônibus que operava a milagrosa "linha" Bairro de Fátima ao Centro. O veículo chacoalhava, levantava poeira, mas cumpria o seu papel de nos devolver ao nosso porto seguro.
À noite, o recolhimento se transformava em comunhão. Juntávamos-nos, nós, os "desocupados" cuja única ocupação real era viver, na praça da Igreja. Naquele tempo, os aparelhos de televisão eram de uma raridade absoluta, privilégio exclusivo das residências abastadas da nossa "aristocracia saraivana". Contudo, bem no centro da praça, instalado sob um totem de concreto e protegido por uma estrutura de aço, destacava-se o grande objeto de desejo de dez entre dez famílias brasílias: uma televisão Colorado RQ. Aquela tela era uma dádiva da Prefeitura de Teresina, colocada ali para garantir o mínimo de ocupação para a juventude, sob a velha máxima de que cabeças vazias são oficinas do diabo.
O único canal disponível era o da TV Rádio Clube de Teresina. As novelas da incipiente Globo eram o nosso cordão umbilical com o resto do país, embora os capítulos chegassem com alguns dias de atraso, transportados de avião em pesadas latas de película. Mas quem se importava com o atraso? O tempo ali corria em outra velocidade.
Lembro-me bem de uma noite específica, em que a expectativa estava no auge para assistir à exibição da novela Gabriela. A "molecada" inteira estava sentada no chão rústico de cimento, colada uns aos outros, os olhos fixos na caixa mágica da Colorado RQ. O silêncio era quase reverencial. De repente, fomos surpreendidos pela chegada estrondosa de um assíduo frequentador do lugar.
Ele vinha cansado, o suor brilhando no rosto pelo esforço da pedalada. Jogou a bicicleta de qualquer jeito no chão, esbaforido, e com os olhos arregalados perguntou de chofre, interrompendo o transe coletivo:
A Gabriela já passou?
Não se ouviu um piscar de olhos. Mas Teresina sempre foi terra de gente pronta para a molecagem. Um gaiato da nossa turma, percebendo a brecha deixada pela ingenuidade do amigo, não perdeu tempo. Olhou para o rapaz com a cara mais lavada do mundo e respondeu:
Rapaz... só se foi pela rua de trás da igreja. Por aqui, pela frente, não vi passar não!
A gargalhada que se seguiu quebrou a solenidade da noite e ecoou pelas paredes da igreja paroquial. Diante daquela resposta, a novela quase perdeu a importância. Já tínhamos nossa alegria garantida. Podíamos voltar para as nossas casas, deitar nas nossas camas sob o mosquiteiro e dormir felizes, sem nenhum fantasma na mente.
Era assim, com essa textura de algodão doce e poeira, que a juventude dos anos setenta se divertia no Bairro de Fátima. Uma época em que a felicidade não precisava de conexões de alta velocidade, porque já éramos plenamente conectados uns aos outros pela simplicidade de apenas estar ali.
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