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Crônica CRÔNICA 9

O craque francês da Serra Grande

Monsieur Di Rãm e o milagre do sertão

31/07/2026 às 07h30
Por: Arthur Feitosa
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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

​Ali, no alto da Serra da Ibiapaba, onde Deus repousou suas mãos e deu uma colher de chá ao nordestino ao presenteá-lo com um clima agradável, quase escandinavo em pleno sertão, terras férteis e uma natureza generosa, esse lugar transformou-se em morada eterna para muitos que ali chegavam fugindo do calor implacável dos verões intermináveis.

​Cidades pequenas e charmosas logo se formaram, preservando a arquitetura do período colonial. Fazendas de gado e lavouras gigantes, produtoras de frutas e legumes da melhor qualidade, brotavam ao lado de nascentes generosas que surgiam a cada palmo de terra percorrida como um milagre diário. Foi nesse cenário de epopeia civilizacional que nasceram os conhecidos Caboclinhos da Serra: gente de pele clara e olhos transparentes, descendentes diretos dos colonos europeus que ali encontraram seu paraíso terrestre.

​Pois foi numa dessas cidadezinhas da Serra Grande, como a Ibiapaba é carinhosamente conhecida, que aconteceu um evento esportivo sem precedentes. Um time de futebol local conquistou o direito de disputar um campeonato nacional. Era a oitava divisão, é verdade — torneio onde até o gandula joga com chapa nos dentes —, mas, para a região, equivalia à própria Liga dos Campeões.

​No primeiro confronto, veio à Serra Grande um adversário cascudo do interior de São Paulo. Era o acontecimento do ano! O falatório espalhou a notícia serra acima, serra abaixo, como rastilho de pólvora. O jogo motivou caravanas de municípios vizinhos e uma torcida organizada regada a muita cachaça serrana, carne de sol e rapadura de melaço. Olhos atentos e marejados do mais puro orgulho assistiam àquela movimentação que já entrava para a história da região.

​— O time adversário veio foi de São Paulo! — comentavam nas calçadas. — Vai ser tarefa difícil vencer essa gente lá dos confins do Sudeste.
​E não é que os paulistas trouxeram até equipe de rádio para transmitir a partida ao vivo, levando cada lance daquela batalha esportiva até os ouvidos dos seus patrícios lá do outro lado do país?

​Começa o jogo e, durante a transmissão, o que mais chamava a atenção dos narradores era o desempenho memorável de um dos pontas do time da Serra. Sarará, pequeno, franzino, de pernas curtas e meio chulado, ele era a própria antítese do atleta moderno. Ocorre que o diabo do baixinho dava um trabalho infernal à zaga paulista e, vira e mexe, levava um perigo danado ao gol adversário, entortando os zagueiros com dribles secos e uma ligeireza inacreditável.

​O que mais intrigava a bancada de rádio, no entanto, era a forma pomposa com que seu nome constava na súmula do vestiário: Di Rãm.
​Os locutores já especulavam ao vivo, em tom impostado: aquela criatura, com aquele desempenho refinado e a pele clara da montanha, ostentava um sobrenome de clara estirpe refinada… Algo aristocrático, com um inegável toque francês! Monsieur Di Rãm! De certo, um refinado descendente das missões francesas do século passado perdido nos tabuleiros do Ceará!

​O jogo terminou num heroico empate em 1 a 1. O agora famoso “Di Rãm”, tido como celebridade até no interior paulista, foi o mais assediado pelos repórteres à beira do gramado, eleito o melhor em campo. O repórter de São Paulo, microfone em riste, empolgado com a descoberta futebolística e genealógica, tratou de entrevistar a fera:

​— Estamos aqui com Di Rãm, o grande destaque da partida! Meu caro, que partida memorável! Agora me diga uma coisa para os ouvintes de São Paulo: esse seu sobrenome tão elegante, Di Rãm… tem origem francesa? É tradição de família?

​O jogador olhou para o microfone, coçou a cabeça e respondeu de pronto, na mais pura pronúncia sertaneja:

— Que França o quê, meu patrão! É que eu sou assim: sarará, pequeno, chulado e sem bunda. O povo aqui me chama de “Di Rãm” só para não ficar tão feio ao vivo, mas, na verdade, meu apelido desde menino é Cu de Rã!

​A gargalhada no estádio foi geral. O eco daquela alegria contagiante pôde ser ouvido até no interior de São Paulo. E assim, a Serra Grande ganhou, finalmente, o seu maior acontecimento histórico.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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