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Editorial CRÔNICA 16

A vastidão da vida fora da tela

O telefone celular, com sua luz lilás e hipnotizante, prometia nos aproximar das estrelas e de quem estava do outro lado do planeta, mas acabou nos tirando da varanda

18/09/2026 às 07h55 Atualizada em 18/09/2026 às 09h24
Por: Arthur Feitosa Fonte: Arthur Feitosa
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A vastidão da vida fora da tela

​Há um silêncio estranho rondando as nossas casas. Não é o silêncio sereno do descanso ao fim do dia, mas um deserto calado, povoado por pessoas que dividem o mesmo teto sem compartilhar o mesmo mundo. O telefone celular, com sua luz lilás e hipnotizante, prometia nos aproximar das estrelas e de quem estava do outro lado do planeta, mas acabou nos tirando da varanda.
Sentamos à mesma mesa, dividimos o mesmo pão, e no entanto cada um viaja sozinho por uma estrada de vidro. É a solidão mais doída que existe, essa que acontece no meio da sala cheia, onde os corpos estão presentes, mas as almas estão ausentes, navegando em águas rasas.

​Esse hábito de trocar a presença pelo reflexo da tela é o começo de uma ferida antiga que renasce com cara nova. O isolamento disfarçado de conexão vai minando as forças sem fazer alarde, corroendo o afeto que só o convívio presencial consegue alimentar. Aos poucos, essa falta do outro vira uma tristeza pesada, uma sombra que se instala sem pedir licença e vai descambando para uma depressão severa. É uma dor silenciosa que ataca sem piedade a nossa juventude, tão cheia de certezas virtuais e tão carente de abraços reais, e alcança também os mais velhos, que viram o calor das histórias contadas ao redor do fogão ser substituído pelo piscar impaciente das notificações.

​Com essa desconexão dos corpos, vai se esvaindo também a poesia poética e sensorial dos primeiros encontros. A juventude de hoje corre o risco de desconhecer aquele arrepio bom que nasce no roçar involuntário das mãos, o calor da pele que incendeia no escuro do cinema e o mistério do primeiro beijo roubado no portão de casa, sem a pressa de registrar o momento para os outros verem. Havia um erotismo sutil e bonito na expectativa, no desejo que se alimentava da ausência, no bilhete escrito à mão e escondido no caderno, na troca de olhares carregada de intenção durante uma dança lenta. O mundo digital pasteurizou os afetos, transformando a descoberta do outro, que antes exigia coragem, toque e presença, em um catálogo frio de fotos deslizantes em uma tela.

​Nessa mesma esteira de esquecimentos, rompeu-se o fio da meada que ligava os mais jovens às gerações de um passado tão recente. A música é o exemplo mais vivo e doloroso desse abismo. Para a juventude atual, as canções da última década do século passado parecem pertencer a uma era remota, perdidas em um tempo esquecido, quando na verdade estão dobrando a esquina da nossa memória, há pouco mais de vinte anos. Apagou-se a lembrança de juntar a turma na garagem para ouvir um disco inteiro de ponta a ponta, de decorar as letras que falavam de amor com verdade e de deixar a fita cassete ou o CD tocar até o fim, como quem ouve uma confissão. Perdeu-se o hábito de cantar em coro no banco de trás do carro, descobrindo o mundo ao som de poésias que embalaram os afetos dos nossos pais e irmãos mais velhos.

​Fomos nos esquecendo, aos poucos, das coisas simples e profundamente humanas que mantêm o coração quentinho. Ninguém mais fala em fazer um piquenique no fim de semana, de estender uma toalha xadrez sobre a relva, sentir o cheiro da grama cortada e abrir uma cesta cheia de broas, bolos caseiros e garrafas térmicas de café. Perderam-se as tardes inteiras de conversa fiada na calçada vendo a vida passar, o riso solto que vem de uma piada boba sem graça, o prazer incomparável de ver o sol se pôr ao lado de quem a gente quer bem. A tela do celular pode até mostrar a fotografia mais cristalina de um horizonte distante, mas ela é completamente incapaz de entregar a brisa fria que arrepia a pele na serra, o cheiro forte do mato molhado depois da chuva de trovoada ou o estalar aconchegante da lenha numa noite de acampamento.

​A vida de verdade não cabe em poucas polegadas de iluminação artificial. Ela exige o chão firme sob os pés, a poeira do caminho e a coragem de viver o mundo de corpo e alma. Precisamos com urgência resgatar o valor incalculável de estar junto, de inventar qualquer desculpa singela para reunir a família e os amigos em volta de uma mesa grande e farta. Vale a pena juntar a turma, ajeitar as malas no porta-malas e cair na estrada para conhecer novas culturas, passar frio juntos debaixo dos cobertores, olhar para o céu estrelado e descobrir que a vastidão do mundo é grande demais para ser apenas assistida por um visor, ela precisa ser vivida e sentida. No fim das contas, a cura para essa solidão moderna sempre esteve ao nosso alcance, no olhar demorado, na prosa boa que não tem hora para acabar e na doçura de saber que nenhum aplicativo do mundo substitui o calor humano.

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