
Há um silêncio estranho rondando as nossas casas. Não é o silêncio sereno do descanso ao fim do dia, mas um deserto calado, povoado por pessoas que dividem o mesmo teto sem compartilhar o mesmo mundo. O telefone celular, com sua luz lilás e hipnotizante, prometia nos aproximar das estrelas e de quem estava do outro lado do planeta, mas acabou nos tirando da varanda.
Sentamos à mesma mesa, dividimos o mesmo pão, e no entanto cada um viaja sozinho por uma estrada de vidro. É a solidão mais doída que existe, essa que acontece no meio da sala cheia, onde os corpos estão presentes, mas as almas estão ausentes, navegando em águas rasas.
Esse hábito de trocar a presença pelo reflexo da tela é o começo de uma ferida antiga que renasce com cara nova. O isolamento disfarçado de conexão vai minando as forças sem fazer alarde, corroendo o afeto que só o convívio presencial consegue alimentar. Aos poucos, essa falta do outro vira uma tristeza pesada, uma sombra que se instala sem pedir licença e vai descambando para uma depressão severa. É uma dor silenciosa que ataca sem piedade a nossa juventude, tão cheia de certezas virtuais e tão carente de abraços reais, e alcança também os mais velhos, que viram o calor das histórias contadas ao redor do fogão ser substituído pelo piscar impaciente das notificações.
Com essa desconexão dos corpos, vai se esvaindo também a poesia poética e sensorial dos primeiros encontros. A juventude de hoje corre o risco de desconhecer aquele arrepio bom que nasce no roçar involuntário das mãos, o calor da pele que incendeia no escuro do cinema e o mistério do primeiro beijo roubado no portão de casa, sem a pressa de registrar o momento para os outros verem. Havia um erotismo sutil e bonito na expectativa, no desejo que se alimentava da ausência, no bilhete escrito à mão e escondido no caderno, na troca de olhares carregada de intenção durante uma dança lenta. O mundo digital pasteurizou os afetos, transformando a descoberta do outro, que antes exigia coragem, toque e presença, em um catálogo frio de fotos deslizantes em uma tela.
Nessa mesma esteira de esquecimentos, rompeu-se o fio da meada que ligava os mais jovens às gerações de um passado tão recente. A música é o exemplo mais vivo e doloroso desse abismo. Para a juventude atual, as canções da última década do século passado parecem pertencer a uma era remota, perdidas em um tempo esquecido, quando na verdade estão dobrando a esquina da nossa memória, há pouco mais de vinte anos. Apagou-se a lembrança de juntar a turma na garagem para ouvir um disco inteiro de ponta a ponta, de decorar as letras que falavam de amor com verdade e de deixar a fita cassete ou o CD tocar até o fim, como quem ouve uma confissão. Perdeu-se o hábito de cantar em coro no banco de trás do carro, descobrindo o mundo ao som de poésias que embalaram os afetos dos nossos pais e irmãos mais velhos.
Fomos nos esquecendo, aos poucos, das coisas simples e profundamente humanas que mantêm o coração quentinho. Ninguém mais fala em fazer um piquenique no fim de semana, de estender uma toalha xadrez sobre a relva, sentir o cheiro da grama cortada e abrir uma cesta cheia de broas, bolos caseiros e garrafas térmicas de café. Perderam-se as tardes inteiras de conversa fiada na calçada vendo a vida passar, o riso solto que vem de uma piada boba sem graça, o prazer incomparável de ver o sol se pôr ao lado de quem a gente quer bem. A tela do celular pode até mostrar a fotografia mais cristalina de um horizonte distante, mas ela é completamente incapaz de entregar a brisa fria que arrepia a pele na serra, o cheiro forte do mato molhado depois da chuva de trovoada ou o estalar aconchegante da lenha numa noite de acampamento.
A vida de verdade não cabe em poucas polegadas de iluminação artificial. Ela exige o chão firme sob os pés, a poeira do caminho e a coragem de viver o mundo de corpo e alma. Precisamos com urgência resgatar o valor incalculável de estar junto, de inventar qualquer desculpa singela para reunir a família e os amigos em volta de uma mesa grande e farta. Vale a pena juntar a turma, ajeitar as malas no porta-malas e cair na estrada para conhecer novas culturas, passar frio juntos debaixo dos cobertores, olhar para o céu estrelado e descobrir que a vastidão do mundo é grande demais para ser apenas assistida por um visor, ela precisa ser vivida e sentida. No fim das contas, a cura para essa solidão moderna sempre esteve ao nosso alcance, no olhar demorado, na prosa boa que não tem hora para acabar e na doçura de saber que nenhum aplicativo do mundo substitui o calor humano.
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