
Lá nos grotões mais remotos de São João da Serra, o calendário católico não era marcado apenas por orações, mas pelo rastro de poeira levantado nas festas de forró da Fazenda Portão do Pereira. Todo ano, o galpão renascia: paredes e teto trançados na palha nova de babaçu, cheirando a mato verde. O banheiro? A própria vegetação nativa, logo ali na frente, onde a escuridão da noite garantia a privacidade de quem precisasse.
No terreiro em frente à latada, o espetáculo era completo. Entre mesas improvisadas de dominó e carteado no bafo, exalava o cheiro de torresmo pururucado, caldos milagrosos para levantar defunto e a boa cachaça da terra. O cheiro marcante do fumo de rolo, o famoso "pau ronca", cruzava o ar como rastilho de pólvora.
Para a mocidade, a festa era o evento do ano. As moças gastavam a sola do salto e abusavam de um batom vermelho tão vibrante que denunciava a presença delas a três léguas de distância. Já os rapazes, vestindo suas melhores roupas, protagonizavam uma cena curiosa: caminhavam até o salão com os sapatos nos dedos, pendurados pelos cadarços. Afinal, topada em pedra solta arranca tampa de dedo, mas não estraga calçado novo. Dedo se regenera; sapato custa dinheiro.
Entre essa rapaziada, destacava-se uma trinca inseparável de irmãos. Criados sob o lema dos Três Mosqueteiros, um por todos e todos por um, eram o terror e a alegria da região.
A origem da desgraça (ou da graça) vinha do pai, homem simples e de pouca leitura, que na hora de registrar os cabras aceitou as sugestões de um compadre brincalhão. Diziam na roça que "o homem já precisa impor moral pelo nome que carrega". Certo dia, o velho marchou até o cartório da cidade. O tabelião, perplexo, ainda tentou demofá-lo da ideia e reescrever a história, mas a teimosia sertaneja venceu. Os três filhos foram devidamente oficializados no papel de selo: Respeito Pereira, Cala-Boca Pereira e Pum Pereira.
O problema é que a física e a biologia pareciam honrar o batismo. Pum, o mais novo, era um vento de confusão e acabou preso na véspera da grande festa.
Desesperados para não perder a folia, Respeito e Cala-Boca juntaram os trocados do ano inteiro para pagar a fiança e rumaram para a delegacia. Chegando lá, Respeito ficou de atalaia no alpendre e Cala-Boca entrou na sala da autoridade.
O delegado, figura sisuda e com o cansaço do sertão estampado no rosto, mal levantou os olhos do inquérito e esbravejou:
— Como é o seu nome, rapaz?
— Cala-Boca — respondeu o moço, na maior serenidade do mundo.
O delegado deu um salto da cadeira, ajeitando o holster do revólver na cintura:
— É o quê, seu moleque?! Cadê o Respeito?!
— O Respeito tá lá fora, doutor.
A autoridade bufou, a cara vermelha de raiva, crente de que estava sendo vítima de uma audácia sem precedentes:
— Você é muito engraçadinho, né? Veio fazer o quê na minha delegacia a uma hora dessa?
E Cala-Boca, mantendo a postura solene de quem cumpre uma missão sagrada, arrematou: Vim soltar o Pum.
Naquela noite, a lei e a gramática tiveram que ceder lugar ao bom senso. O delegado, sem saber se ria ou se mandava prender o pai do trio, pegou o dinheiro da fiança, assinou o alvará e expulsou a família inteira da delegacia. Minutos depois, a sanfona já chorava no Portão do Pereira. Afinal, a sabedoria popular é clara: Respeito, Cala-Boca e Pum a gente só solta em lugar apropriado e nada melhor do que o meio da poeira, debaixo da palha de babaçu.
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