
Esquizofrênica. Talvez essa seja hoje a palavra que melhor defina parte da esquerda brasileira e, principalmente, seus setores de comunicação mais militantes. Não pela divergência de ideias, porque divergência é saudável, mas pela impressionante capacidade de defender simultaneamente duas teses completamente incompatíveis sem demonstrar o menor constrangimento.
Senão vejamos.
A inclusão do PCC e do Comando Vermelho pelo governo americano na lista de organizações terroristas, segundo a esquerda uníssona, não teve absolutamente nada a ver com a reunião entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro. Nada. Zero. Coincidência cósmica. Alinhamento dos astros. Obra do acaso. Embora o próprio Flávio tenha afirmado publicamente que o tema foi tratado no encontro e mais: que, se chegar à Presidência da República, trabalhará para fazer o mesmo no Brasil.
Mas tudo bem. Até aí, segue o jogo.
O problema começa quando os mesmos analistas, comentaristas e sacerdotes da opinião pronta passam a sustentar exatamente o contrário em relação ao tarifaço americano e às especulações envolvendo o Pix. Aí, misteriosamente, tudo vira culpa de Flávio Bolsonaro. De repente, ele deixa de ser irrelevante perante Trump e se transforma numa espécie de chanceler informal da Casa Branca.
Ora, afinal de contas: Flávio influencia ou não influencia Trump?
Porque não é possível sustentar ao mesmo tempo que:
Isso não é análise política. É ginástica olímpica argumentativa.
Nesta manhã, durante um programa em uma rádio local, alguns debatedores, daqueles que pensam rigorosamente igual uns aos outros, como se divergência fosse infração disciplinar, comentavam a possível taxação de produtos brasileiros pelos Estados Unidos como consequência direta do encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro.
Até que uma radialista conseguiu produzir uma frase quase antológica:
“Trump parece que está fazendo campanha contra Flávio e a favor de Lula. Só pode!”
Faltou apenas pedir música no Fantástico depois dessa.
Porque, seguindo essa lógica, Flávio Bolsonaro teria viajado aos Estados Unidos para convencer Trump a prejudicar a própria pré-campanha presidencial. Seria o primeiro político da história a organizar conscientemente um ataque contra si mesmo para beneficiar o adversário.
Nem Freud explicaria tamanha criatividade.
O que existe, na verdade, é algo mais simples: militância disfarçada de análise. E isso se tornou tão comum que muitos já nem percebem o quanto abandonaram qualquer compromisso com coerência lógica.
No Piauí, e em boa parte do Brasil, o jornalismo político virou uma espécie de condomínio fechado ideológico. Há um pensamento permitido, uma opinião homologada e uma narrativa oficial. Quem discorda é tratado quase como herege moderno.
Curiosamente, muitos desses mesmos profissionais adoram posar como defensores da democracia. Desde que ninguém pense diferente deles, evidentemente.
E esse modelo não nasceu agora. Foi amplamente consolidado durante a pandemia da Covid-19, quando surgiu aquilo que chamaram orgulhosamente de “consórcio de mídia”. Ora, o jornalismo sempre teve como essência o confronto de versões, o choque de interpretações, a dúvida permanente diante dos fatos. Sobretudo em um evento novo, desconhecido e mundial.
Mas não.
Resolveram transformar unanimidade em virtude. Questionamento virou pecado. Divergência passou a ser tratada quase como ameaça sanitária.
Funcionou naquele momento. E agora tentam repetir o método na política.
Só que política não é laboratório de consenso artificial. Política é conflito. É disputa. É embate de narrativas. E principalmente: é o território onde a incoerência aparece mais rápido.
A tentativa desesperada de transformar toda movimentação internacional em culpa exclusiva da oposição acaba revelando exatamente aquilo que tentam esconder: o medo crescente de perder o monopólio da narrativa.
E talvez seja isso que mais incomode certos comentaristas: perceber que já não conseguem controlar sozinhos o fluxo da informação como faziam antigamente.
As redes sociais demoliram os antigos pedágios da opinião pública.
Hoje, o cidadão comum assiste à entrevista completa, compara versões, revê vídeos e percebe contradições em tempo real. Já não depende exclusivamente da interpretação do “especialista da bancada”.
E isso enlouquece muita gente.
Porque quando a realidade começa a desmentir diariamente a narrativa construída artificialmente, resta apenas elevar o tom, radicalizar o discurso e fingir que a incoerência não existe.
Mas existe.
E aparece cada vez mais.
No ritmo atual, não surpreenderá ninguém se, depois das eleições, alguns comentaristas saírem do estúdio precisando menos de microfone e mais de camisa de força argumentativa.
ESCOLA DO RECIFE Tobias Barreto de Menezes: o jurista que revolucionou o pensamento jurídico brasileiro
NAS MÃOS DOS COIOTES Fugindo do “inferno”: por que milhares de cubanos agora escolhem o Brasil para recomeçar a vida?
ATENAS ALAGOANA Penedo: a Atenas do Nordeste que encantou Dom Pedro II e preserva quase cinco séculos de história às margens do Velho Chico
REJEIÇÃO INTERNA Vinícius Dias expõe resistência no PT e revela por que Iasmin recuou da suplência
POLÍCIA FEDERAL Quanto mais mexe, mais fede: cerco da PF aperta e Jaques Wagner vira problema para o Planalto
ACESSO A PF E PGR Vorcaro não queria influência. Queria acesso ao topo da República
JUSTIÇA DO TRABALHO Maria Suzete Monte Diógenes: uma vida dedicada à Justiça, ao conhecimento e ao serviço público
PROPINODUTO MASTER A queda da engolideira: quando o Banco Master deixou de ser banco para virar máquina de poder
TURISMO AMERICANO Ranking revela as melhores cidades dos Estados Unidos em 2026: por onde começar a realizar o sonho americano?
Mín. 23° Máx. 32°