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Editorial JORNALISMO BIRUTA

A esquizofrênica narrativa da esquerda brasileira

Ao tentar culpar Flávio Bolsonaro pelo tarifaço e ao mesmo tempo negar sua influência sobre Trump, setores da esquerda e parte da mídia revelam contradições cada vez mais difíceis de esconder

02/06/2026 às 09h14 Atualizada em 02/06/2026 às 10h26
Por: Douglas Ferreira
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A esquizofrênica narrativa da esquerda brasileira

Esquizofrênica. Talvez essa seja hoje a palavra que melhor defina parte da esquerda brasileira e, principalmente, seus setores de comunicação mais militantes. Não pela divergência de ideias, porque divergência é saudável, mas pela impressionante capacidade de defender simultaneamente duas teses completamente incompatíveis sem demonstrar o menor constrangimento.

Senão vejamos.

A inclusão do PCC e do Comando Vermelho pelo governo americano na lista de organizações terroristas, segundo a esquerda uníssona, não teve absolutamente nada a ver com a reunião entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro. Nada. Zero. Coincidência cósmica. Alinhamento dos astros. Obra do acaso. Embora o próprio Flávio tenha afirmado publicamente que o tema foi tratado no encontro e mais: que, se chegar à Presidência da República, trabalhará para fazer o mesmo no Brasil.

Mas tudo bem. Até aí, segue o jogo.

O problema começa quando os mesmos analistas, comentaristas e sacerdotes da opinião pronta passam a sustentar exatamente o contrário em relação ao tarifaço americano e às especulações envolvendo o Pix. Aí, misteriosamente, tudo vira culpa de Flávio Bolsonaro. De repente, ele deixa de ser irrelevante perante Trump e se transforma numa espécie de chanceler informal da Casa Branca.

Ora, afinal de contas: Flávio influencia ou não influencia Trump?

Porque não é possível sustentar ao mesmo tempo que:

  1. A classificação das facções como terroristas não teve relação alguma com a reunião;
  2. Mas o tarifaço, as pressões comerciais e até ameaças ao Pix teriam partido justamente da influência política de Flávio.

Isso não é análise política. É ginástica olímpica argumentativa.

Nesta manhã, durante um programa em uma rádio local, alguns debatedores, daqueles que pensam rigorosamente igual uns aos outros, como se divergência fosse infração disciplinar, comentavam a possível taxação de produtos brasileiros pelos Estados Unidos como consequência direta do encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro.

Até que uma radialista conseguiu produzir uma frase quase antológica:
“Trump parece que está fazendo campanha contra Flávio e a favor de Lula. Só pode!”

Faltou apenas pedir música no Fantástico depois dessa.

Porque, seguindo essa lógica, Flávio Bolsonaro teria viajado aos Estados Unidos para convencer Trump a prejudicar a própria pré-campanha presidencial. Seria o primeiro político da história a organizar conscientemente um ataque contra si mesmo para beneficiar o adversário.

Nem Freud explicaria tamanha criatividade.

O que existe, na verdade, é algo mais simples: militância disfarçada de análise. E isso se tornou tão comum que muitos já nem percebem o quanto abandonaram qualquer compromisso com coerência lógica.

No Piauí, e em boa parte do Brasil, o jornalismo político virou uma espécie de condomínio fechado ideológico. Há um pensamento permitido, uma opinião homologada e uma narrativa oficial. Quem discorda é tratado quase como herege moderno.

Curiosamente, muitos desses mesmos profissionais adoram posar como defensores da democracia. Desde que ninguém pense diferente deles, evidentemente.

E esse modelo não nasceu agora. Foi amplamente consolidado durante a pandemia da Covid-19, quando surgiu aquilo que chamaram orgulhosamente de “consórcio de mídia”. Ora, o jornalismo sempre teve como essência o confronto de versões, o choque de interpretações, a dúvida permanente diante dos fatos. Sobretudo em um evento novo, desconhecido e mundial.

Mas não.

Resolveram transformar unanimidade em virtude. Questionamento virou pecado. Divergência passou a ser tratada quase como ameaça sanitária.

Funcionou naquele momento. E agora tentam repetir o método na política.

Só que política não é laboratório de consenso artificial. Política é conflito. É disputa. É embate de narrativas. E principalmente: é o território onde a incoerência aparece mais rápido.

A tentativa desesperada de transformar toda movimentação internacional em culpa exclusiva da oposição acaba revelando exatamente aquilo que tentam esconder: o medo crescente de perder o monopólio da narrativa.

E talvez seja isso que mais incomode certos comentaristas: perceber que já não conseguem controlar sozinhos o fluxo da informação como faziam antigamente.

As redes sociais demoliram os antigos pedágios da opinião pública.

Hoje, o cidadão comum assiste à entrevista completa, compara versões, revê vídeos e percebe contradições em tempo real. Já não depende exclusivamente da interpretação do “especialista da bancada”.

E isso enlouquece muita gente.

Porque quando a realidade começa a desmentir diariamente a narrativa construída artificialmente, resta apenas elevar o tom, radicalizar o discurso e fingir que a incoerência não existe.

Mas existe.

E aparece cada vez mais.

No ritmo atual, não surpreenderá ninguém se, depois das eleições, alguns comentaristas saírem do estúdio precisando menos de microfone e mais de camisa de força argumentativa.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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