
O episódio envolvendo a falsa filiação de Flávio Bolsonaro ao partido Missão trouxe novamente para o centro do debate uma questão que vai muito além da disputa política: nenhum sistema informatizado pode ser tratado como absolutamente invulnerável.
O caso é grave porque, por algumas horas, o sistema da Justiça Eleitoral registrou o senador, que é do PL, como filiado ao Missão. A alteração chegou a impedir o registro de sua candidatura pelo PL, às vésperas do encerramento do prazo eleitoral. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, restabeleceu a filiação ao PL e determinou providências para apurar o episódio.
O TSE, porém, afirma que não houve invasão hacker em seus sistemas. Segundo a Corte, a filiação teria sido realizada por um representante do partido Missão com acesso regular ao sistema. O próprio Missão nega responsabilidade e afirma que alguém teria utilizado o e-mail do gabinete de Flávio para realizar o procedimento. A investigação deverá esclarecer quem efetivamente fez a operação e de onde partiu a ação.
E é justamente aí que está o ponto que merece atenção.
Segurança digital não significa apenas impedir um hacker de invadir um computador. Significa também controlar credenciais, autenticações, permissões, validações, registros e operações realizadas por usuários autorizados.
Um sistema pode não ter sido invadido externamente e, ainda assim, apresentar uma vulnerabilidade operacional.
A própria história da tecnologia mostra que isso não é uma hipótese absurda. A NASA, uma das instituições tecnológicas mais avançadas do mundo, já sofreu diversas invasões e acessos indevidos a seus sistemas. Relatórios do Escritório do Inspetor-Geral da agência registram ataques que chegaram a comprometer milhares de computadores e provocar o roubo de informações sensíveis.
Isso não significa comparar a estrutura da NASA com a Justiça Eleitoral brasileira. Significa apenas reconhecer uma realidade elementar da segurança da informação: sistemas complexos podem apresentar vulnerabilidades, mesmo quando protegidos por múltiplas camadas de segurança.
Aqui é preciso separar as coisas.
A urna eletrônica brasileira não é conectada à internet nem a redes externas durante a votação. O próprio TSE informa que o equipamento funciona de maneira isolada e não possui mecanismos para conexão por internet, Wi-Fi ou Bluetooth.
Portanto, o episódio da filiação de Flávio Bolsonaro não permite concluir que alguém possa simplesmente invadir uma urna pela internet e alterar votos.
Mas também seria um erro concluir que, porque a urna é isolada da internet, todo o sistema eleitoral está automaticamente imune a qualquer possibilidade de falha.
A eleição não é apenas a urna.
Existe um ecossistema formado por sistemas de cadastramento, filiação partidária, registro de candidaturas, preparação dos equipamentos, transmissão de dados, totalização, fiscalização e auditoria.
O próprio TSE reconhece que existem diferentes sistemas e etapas no processo eleitoral e mantém mecanismos específicos de auditoria. Entre eles estão a verificação de assinaturas digitais, a comparação dos boletins de urna, a análise de códigos-fonte e a recontagem por meio do Registro Digital do Voto.
É exatamente por isso que aperfeiçoar a segurança não significa desacreditar as eleições.
Ao contrário.
Quanto mais importante é um sistema para a democracia, maior deve ser a disposição para submetê-lo a testes, auditorias, fiscalização independente e aperfeiçoamentos permanentes.
A falsa filiação do senador ao Missão não deve ser utilizada como prova de fraude nas urnas. Não é isso que os fatos disponíveis permitem afirmar.
Mas o episódio mostra que uma informação indevida inserida em um sistema eleitoral pode produzir uma consequência política concreta.
E isso já é suficientemente sério.
Se alguém consegue fazer com que um candidato apareça oficialmente filiado a outra legenda, a pergunta necessária não é apenas “quem fez?”.
É também:
Como foi possível fazer?
Quais dados foram utilizados?
Que mecanismos de autenticação existiam?
Por que a operação foi aceita?
Houve dupla confirmação?
O sistema detectou a inconsistência?
Quem tinha autorização para realizar a alteração?
E, principalmente, como impedir que algo semelhante volte a acontecer?
São perguntas técnicas, não ideológicas.
É nesse ponto que propostas como a ampliação dos mecanismos de conferência e auditoria merecem ser discutidas sem paixões partidárias.
Uma possibilidade frequentemente debatida é a utilização de algum mecanismo de registro físico associado ao voto eletrônico, permitindo uma camada adicional de conferência.
É importante registrar, porém, que essa alternativa também tem controvérsias. Em avaliação realizada nas eleições de 2022, o TCU concluiu que o sistema eleitoral brasileiro já possuía mecanismos de fiscalização suficientes para permitir auditoria em todas as fases e apontou que a adoção do voto impresso poderia aumentar custos e a intervenção humana, com possíveis novos riscos de fraude, erro ou manipulação.
Ou seja, a discussão precisa ser técnica.
Não se trata de escolher entre “acreditar” ou “não acreditar” nas urnas.
Trata-se de perguntar se é possível tornar um sistema democrático ainda mais transparente, auditável e resistente a ataques, erros humanos, uso indevido de credenciais e manipulações.
A resposta deveria ser sempre sim.
Porque sistemas informatizados podem falhar.
Credenciais podem ser utilizadas indevidamente.
Bancos de dados podem ser manipulados.
Grandes instituições tecnológicas podem ser atacadas.
E sistemas eleitorais, justamente por sua importância, precisam trabalhar com uma premissa simples: não basta ser seguro; é preciso demonstrar continuamente que é seguro.
A falsa filiação de Flávio Bolsonaro não é prova de fraude eleitoral. Mas é um episódio concreto que mostra que há sistemas ligados ao processo eleitoral que podem ser explorados ou utilizados de maneira indevida e que, por isso, precisam ser permanentemente aperfeiçoados.
Em uma democracia, confiança não deve ser construída pela fé.
Deve ser construída por transparência, fiscalização, tecnologia, auditoria e provas.
FALTANDO JUÍZO? E a reta razão?
IMPRENSA LIVRE Moraes autoriza busca contra suposta fonte de jornalista e abre novo debate sobre sigilo da fonte
FLORESTA FÓSSIL Justiça Federal coloca Floresta Fóssil de Duque Bacelar no centro da batalha pela preservação do patrimônio paleontológico
PRISÃO DOMICILIAR Moraes proíbe filhos de Bolsonaro de visitarem o pai no Dia dos Pais
SOB INVESTIGAÇÃO Lulinha deixa de ser apenas personagem de polêmicas e passa ao centro das investigações da Polícia Federal
TRIBUNAL DO JÚRI Chacina que chocou o Piauí: autor de execução de pai, dois filhos e trabalhador é condenado a 67 anos de prisão Mín. 19° Máx. 38°