
Existe uma máxima que deveria ser levada a sério por qualquer pessoa que participe da vida pública: contra fatos, não há argumentos. E mentira tem perna curta. No ambiente político, sobretudo em debates eleitorais, negar aquilo que está documentado pode ser ainda mais arriscado. Na era das redes sociais, cada aparição pública pode ser fotografada, filmada, transmitida e arquivada. O que aconteceu ontem pode reaparecer hoje, com imagem, áudio e vídeo.
Foi exatamente isso que ocorreu no confronto entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. O governador afirmou que o petista havia dividido palanque com Alessandra Moja, que posteriormente foi presa na Operação Sharpe, investigação do Ministério Público de São Paulo e das polícias contra a atuação do PCC na Favela do Moinho. E há registros públicos do evento realizado em 26 de junho de 2025, no qual Lula, Haddad e Alessandra aparecem no mesmo palco.
O problema da resposta de Haddad está justamente na tentativa inicial de negar ou colocar em dúvida a existência do episódio. Segundo o relato do debate, o ex-ministro primeiro disse não se lembrar de ter estado no mesmo palco e depois acusou Tarcísio de mentir. A fotografia, porém, não é uma opinião política. É um registro documental de que ambos estavam no mesmo ambiente e no mesmo palanque.
Isso, entretanto, exige uma distinção fundamental. A imagem comprova a presença de Haddad ao lado de Alessandra Moja. Não comprova que Haddad soubesse, naquele momento, de qualquer eventual ligação dela com o crime organizado. Essa diferença é essencial para que a crítica política não se transforme em acusação sem prova.
Alessandra se apresentava como liderança comunitária da Favela do Moinho e participou do evento que contou com a presença de Lula e integrantes do governo federal. Meses depois, em setembro de 2025, ela foi presa na Operação Sharpe. Segundo o Ministério Público de São Paulo, havia suspeitas de que ela atuasse em favor de uma organização criminosa ligada ao PCC. A investigação também apontou seu envolvimento em cobranças e na articulação dentro da comunidade.
Portanto, a questão jornalisticamente correta não é afirmar que Haddad sabia que estava ao lado de uma traficante. Não há, nas informações disponíveis, prova apresentada de que ele tivesse esse conhecimento. A pergunta pertinente é outra: por que negar ou contestar um encontro que está fartamente documentado em imagens?
Seria muito mais simples e intelectualmente mais honesto dizer: “Sim, estive naquele palanque, mas não conhecia as acusações que posteriormente surgiram contra aquela pessoa.” Essa resposta preservaria a realidade dos fatos e estabeleceria claramente a ausência de conhecimento sobre eventual atividade criminosa.
A política brasileira, entretanto, parece ter adquirido o péssimo hábito de transformar fatos documentados em disputas sobre versões. O problema é que a tecnologia eliminou boa parte desse espaço de manobra. Uma declaração pode ser contestada. Uma interpretação pode ser debatida. Uma fotografia pode ser contextualizada. Mas não pode simplesmente ser apagada porque se tornou politicamente inconveniente.
Também é necessário lembrar que Alessandra Moja não foi apenas presa em 2025. Ela já possuía um histórico judicial anterior, tendo sido condenada por homicídio qualificado, segundo registros divulgados à época. Na Operação Sharpe, o MPSP passou a apontá-la como integrante de uma estrutura ligada ao crime organizado na Favela do Moinho.
O episódio, portanto, oferece uma lição que vale para todos os lados do espectro político: não se combate uma acusação factual simplesmente negando a existência do fato quando existem imagens para confrontar a versão. O caminho mais seguro é reconhecer o que aconteceu e explicar o contexto.
Haddad pode afirmar que não conhecia Alessandra, que não sabia de suas supostas atividades criminosas e que não teve qualquer relação com elas. Isso é uma questão que pode ser investigada e debatida. Mas dizer que Tarcísio mentiu ao afirmar que os dois estiveram no mesmo palanque é uma afirmação que as imagens disponíveis tornam difícil sustentar.
No mundo digital, a política mudou. Cada palanque deixa um rastro. Cada evento produz imagens. Cada discurso pode ser recuperado. Cada declaração pode ser confrontada com aquilo que foi registrado.
E talvez esteja aí uma das maiores mudanças da política contemporânea: o eleitor não depende mais apenas da versão dos políticos. Ele pode voltar às imagens, ouvir o áudio e conferir o que realmente aconteceu.
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