
Quem apostou que a candidatura de Gustavo Henrique, do Avante, ao Governo do Piauí era fake, ganhou a aposta. A candidatura durou menos que uma chuva de verão. Menos até que uma "pancadinha".
Elaborada às pressas e “nas coxas”, a candidatura do “Gustavo senador” foi “deslançada” pela própria Executiva Nacional do Avante. A decisão foi tomada em caráter de urgência na segunda-feira (9) e comunicada ao Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) por meio de petição protocolada às 21h54.
Não se trata, portanto, apenas de uma desistência pessoal ou de uma mudança de estratégia eleitoral. A direção nacional do partido anulou formalmente a deliberação da Comissão Provisória estadual que havia lançado a candidatura própria.
Segundo o documento apresentado ao TRE-PI, a Executiva Nacional, presidida por Luís Henrique de Oliveira Resende, atuou com poderes delegados pela Convenção Nacional realizada em 3 de agosto.
A decisão atingiu a deliberação da reunião estadual de 30 de julho, que havia definido uma candidatura majoritária própria sem a aprovação prévia da instância nacional.
E por quê?
Porque, segundo a Executiva Nacional, a decisão estadual teria descumprido normas internas do partido. O documento aponta violação do artigo 3º da Resolução/Avante nº 02/2026, que estabelece exigências para a apresentação da nominata de candidatos à Câmara Federal antes da convenção.
Também teria sido descumprido o artigo 25, parágrafo 2º, do estatuto partidário, que condiciona coligações em Estados com mais de 200 mil eleitores à aprovação da Executiva Nacional.
Em linguagem política, o problema nasceu dentro da própria estrutura partidária.
O rito não teria sido cumprido. A instância estadual avançou onde, segundo a direção nacional, deveria haver autorização superior.
Com a anulação, o Avante deixa de lançar candidato próprio ao Governo do Piauí e passa a integrar a coligação “A Força da Fé”, ao lado do Novo. O candidato majoritário da aliança será Elizeu Moraes de Aguiar.
Para o Senado, a composição também muda o desenho da disputa. Pelo Avante, concorre Antônio José de Freitas Lira, tendo Glaydston Michel Saldanha Moura Lira e Ana Alice Barbosa Alencar Câmpelo Mendes como suplentes. Pelo Novo, o candidato é Antônio de Barros Araújo Filho, com Marília Mendes de Carvalho Bomfim e Francisco Erivaldo Leite de Araújo na suplência.
O processo tramita em segredo de Justiça. O calendário eleitoral, entretanto, não espera. O prazo para o registro das candidaturas termina em 15 de agosto, às 19h.
A decisão nacional coloca um ponto final, pelo menos formalmente, na candidatura de Gustavo Henrique ao Governo do Estado.
Mas deixa uma pergunta política muito maior.
A candidatura nasceu para valer ou nasceu para cumprir outra função na eleição?
Para alguns adversários, tratava-se apenas de uma candidatura de fachada. Outros estavam convencidos de que era uma candidatura “laranja”. Se era, “azedou”.
É importante, porém, distinguir suspeita política de fato comprovado. Não há, nas informações oficiais sobre a anulação, qualquer afirmação da Executiva Nacional de que Gustavo Henrique fosse “laranja” ou tivesse sido utilizado para atacar adversários. O que existe formalmente é uma decisão partidária que anulou a candidatura por apontados descumprimentos de normas internas.
A acusação política veio de outro campo.
Durante o primeiro debate eleitoral na televisão, o candidato do Progressistas, Joel Rodrigues, afirmou que Gustavo estaria atuando como uma espécie de instrumento do Palácio de Karnak para atacar sua candidatura.
“Lamentamos os ataques de Gustavo. Entendo que o governador trouxe um laranja, podendo ter focado em temas, em propostas sérias. Mas a gente já vinha preparado para esse tipo de situação”, declarou Joel.
E não é de hoje, segundo seus críticos, que Gustavo Henrique se presta a esse papel, o de “batedor” oficial desse ou daquele candidato.
A expressão é politicamente forte, mas precisa ser compreendida como aquilo que é: uma acusação feita por adversários, e não uma conclusão oficial sobre a finalidade da candidatura.
Ainda assim, a saída de Gustavo Henrique abre uma questão que interessa muito mais ao eleitor do que ao próprio candidato:
Quem perde e quem ganha com a “descandidatura” do homem do Avante?
Se a candidatura tinha como objetivo legítimo disputar o Governo do Estado, quem perde é o próprio candidato e o eleitor que pretendia encontrar naquela candidatura uma alternativa.
Mas, se havia quem enxergasse na disputa uma estratégia auxiliar para atacar adversários, então perde quem eventualmente apostava nesse tipo de instrumento político.
E quem ganha?
Ganha o processo eleitoral. Ganha o eleitor. E ganha a Democracia, desde que a retirada de uma candidatura seja acompanhada pela elevação do nível do debate.
O Piauí não precisa de uma eleição transformada em guerra de reputações.
Precisa discutir aquilo que realmente importa.
Fome. Miséria. Falta d’água. Educação. Saúde. Desemprego. Segurança pública. Infraestrutura. Desenvolvimento econômico.
Esses são os assuntos que interferem diretamente na vida dos piauienses.
O eleitor precisa saber quem tem projeto, quem tem capacidade de execução, quais são as prioridades, quanto custará cada promessa e de onde sairão os recursos.
A grande lição que fica desse episódio é que candidaturas fakes, arranjadas, “laranjas” ou supostamente utilizadas por grupos políticos, quando de fato existem, podem produzir exatamente o efeito contrário daquele pretendido.
Os “batedores” podem acabar sendo as primeiras vítimas das próprias trapaças da sorte.
Mas a saída de Gustavo Henrique do palanque será suficiente para elevar o nível da campanha?
É isso que o povo do Piauí espera.
Os candidatos que permanecem na disputa têm agora uma responsabilidade ainda maior: conduzir uma campanha eleitoral elevada, propositiva e comprometida com os problemas reais do Estado.
A eleição não deveria ser uma disputa para saber quem consegue destruir primeiro a reputação do adversário.
Deveria ser uma oportunidade para descobrir quem consegue apresentar as melhores soluções para os problemas do Piauí.
A Democracia não se fortalece com candidaturas utilizadas como instrumentos de ataques pessoais. Fortalece-se quando o confronto de ideias permite ao eleitor comparar projetos, identificar prioridades e fazer escolhas conscientes.
Por isso, a “descandidatura” de Gustavo Henrique pode representar mais do que a retirada de um nome da corrida eleitoral.
Pode representar uma oportunidade para que a campanha deixe de ser uma guerra de reputações e se transforme em uma disputa de propostas. Sem "pistoleiros de retórica".
Agora, cabe aos candidatos que permanecem fazer sua parte.
Porque, no fim das contas, Democracia se constrói assim: expurgando os excessos, elevando o debate e colocando o eleitor, e não os interesses dos grupos políticos, no centro da eleição.
PODER DA ESTRATÉGIA Marketing, Comunicação e a Guerra das Narrativas
HISTÓRIA DO BRASIL Stéphane Monclaire, o francês que ajudou o Brasil a compreender sua própria Constituição
PESQUISA BRASILEIRA Tecnologia brasileira reduz em até 99,6% o crescimento de tumores e reacende esperança no tratamento do câncer
RECIPROCIDADE É ISSO Reciprocidade não é afronta, é a regra do jogo diplomático
ADVOCACIA CRIMINAL Antônio Evaristo de Moraes Filho, o humanista que transformou a advocacia criminal em um instrumento de liberdade
O INVESTIGADO Lulinha: empresário ou operador de influência? As perguntas que a PF tenta responder
Mín. 21° Máx. 38°