
Há viagens internacionais. Há viagens oficiais. E há viagens que parecem ter sido planejadas sob o lema: se é dinheiro público, a torneira pode ficar aberta.
A passagem de Luiz Inácio Lula da Silva e sua comitiva por Nova York, para a Assembleia Geral da ONU, reacende a discussão sobre os gastos do governo federal no exterior. E, desta vez, os números chamam atenção: a conta de hospedagem ultrapassa R$ 3,2 milhões para uma permanência inferior a 48 horas em solo norte-americano, segundo levantamento divulgado pelo colunista Cláudio Humberto.
Sim. R$ 3,2 milhões.
Não é dinheiro de Lula. Não é dinheiro de Janja. Não é dinheiro dos ministros, assessores ou servidores que viajaram. É dinheiro público. É dinheiro que sai, direta ou indiretamente, dos cofres abastecidos pelo contribuinte.
E aí vem a pergunta inevitável: precisava ser assim?
A comitiva foi dividida entre dois hotéis de alto padrão.
Lula e Janja ficaram no Grand Hyatt New York, enquanto a maior parte da delegação foi acomodada no Hotel Park Lane. O levantamento divulgado aponta R$ 2.217.655,99 para dois pernoites no Grand Hyatt e R$ 1.014.867,56 para a hospedagem da maior parte da comitiva no Park Lane.
Somados, os dois valores chegam a R$ 3.232.523,55.
É uma pequena fortuna para quem vai passar praticamente dois dias na cidade.
E ainda há os extras.
Segundo o mesmo levantamento, o staff presidencial gastou aproximadamente R$ 8,7 mil com cavaletes para bloquear o trânsito na frente do hotel.
Cavaletes.
Porque, aparentemente, até para colocar cavaletes em Nova York é preciso abrir a carteira do contribuinte brasileiro.

Lula ficou no Grand Hyatt New York. A hospedagem, segundo os valores divulgados, foi paga antecipadamente e chegou a mais de R$ 2,2 milhões.
A maior parte da comitiva ficou no Park Lane, ao custo de pouco mais de R$ 1 milhão.
E aqui entra uma questão que não precisa de ideologia para ser feita: qual foi o critério para escolher hotéis desse padrão?
Havia necessidade diplomática? Segurança? Logística? Disponibilidade? Comparação de preços? Houve cotação?
São perguntas legítimas, sobretudo quando estamos falando de milhões de reais.
Afinal, uma coisa é garantir segurança e condições adequadas para o presidente da República cumprir uma agenda oficial. Outra é discutir qual é o limite razoável do conforto quando a conta é apresentada ao contribuinte.
Também cabe perguntar por que não foram utilizadas estruturas diplomáticas brasileiras para parte da delegação ou alternativas de hospedagem mais econômicas, quando logisticamente possíveis.
Isso não significa dizer que o presidente necessariamente deveria dormir na embaixada. Há questões de segurança, protocolo e logística que precisam ser consideradas.
Mas, quando a conta chega a R$ 3,2 milhões em hospedagem, a pergunta deixa de ser impertinente e passa a ser obrigatória:
havia opção mais barata?
E, se havia, por que não foi adotada?
O problema de dinheiro público é exatamente esse: ele parece não ter dono na hora de gastar, mas tem milhões de donos na hora de pagar a conta.
É o trabalhador que paga imposto.
É o empresário que paga imposto.
É o comerciante que paga imposto.
É o cidadão que abastece o carro, compra comida, paga energia, telefone, serviços e, em cada etapa, entrega uma parcela de seu dinheiro ao Estado.
Por isso, quando uma viagem oficial produz uma conta milionária em hospedagem, a sociedade tem todo o direito de perguntar quanto foi gasto, por quê, com quais critérios e quem autorizou.
Não se trata de questionar a importância da participação do Brasil na Assembleia Geral da ONU. Trata-se de questionar quanto custa levar toda a estrutura presidencial para Nova York e qual padrão de gasto está sendo considerado aceitável.
E aí os números, como sempre, são mais eloquentes que os discursos.
Menos de 48 horas. Dois hotéis de luxo. Mais de R$ 3,2 milhões somente em hospedagem, segundo os valores divulgados.
Para quem paga a conta, fica uma última pergunta:
se fosse dinheiro do próprio bolso, seria exatamente assim que você escolheria gastar?
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