
A história é um magistrado severo, mas paciente. Ela assiste, em silêncio de séculos, às ilusões humanas desfilarem em trajes de modernidade até que o peso das próprias contradições as faça ruir. Tento nesse artigo-manifesto, evocar mais do que uma nostalgia estética; evocar uma ferida aberta na alma política do Brasil e do mundo ocidental: a substituição do dever sagrado e altruísta pelo apetite volátil do poder faccioso.
Quando se observa o panorama contemporâneo, a dicotomia entre Monarquia e República transcende a simples forma de governo; torna-se uma questão de caráter institucional. A República ocidental, vendida na alvorada da Modernidade como a derrocada da tirania e o triunfo da razão cidadã, transformou-se, em não poucos cantos do globo, numa engrenagem incessante de autofagia.
O poder republicano, temporário por definição e esfaimado por vocação, exige retornos imediatos. Quem governa por um mandato de quatro anos tende a administrar para as próximas eleições, não para as próximas gerações. O resultado é o espetáculo grotesco a que assistimos nas últimas décadas: presidentes algemados, escândalos de corrupção que drenam o tutano financeiro das nações, impeachments que se tornaram rotina e uma divisão sistemática da sociedade em tribos irreconciliáveis.
Em contrapartida, a Monarquia hereditária constitucional opera sob outra perspectiva temporal e moral. O rei ou imperador não precisa vender a alma a grupos de pressão para financiar sua permanência no trono, pois sua legitimidade não nasce da demagogia, mas da própria continuidade histórica. Ele é moldado desde o berço não para possuir o Estado, mas para servi-lo como o guardião supremo da identidade da Pátria.
Veja-se o exemplo dramático e revelador do Camboja. Após ser massacrada pelas atrocidades do Khmer Vermelho, uma experiência republicana totalitária que devastou a demografia, a cultura e a dignidade de seu povo, aquela nação asiática, ao alcançar a lucidez no pós-Guerra Fria, compreendeu uma verdade profunda: a República havia trazido a barbárie, enquanto a figura do Monarca representava o único elo capaz de reconciliar a nação fragmentada.
A restauração da Monarquia no Camboja nos anos 1990 não foi um recuo obscurantista, mas um ato supremo de lucidez e maturidade histórica, devolvendo à figura real a função de símbolo de unidade, acima das querelas partidárias e das ambições dos ditadores de ocasião. Da mesma forma, a Espanha pós-Franco encontrou na restauração monárquica com Juan Carlos I o eixo estabilizador fundamental para a transição democrática e a pacificação nacional.
Voltemos a atenção para o contraste moral personificado no episódio crucial de nossa história. O golpe de 1889 contra Dom Pedro II não foi uma revolução popular iluminada, mas uma conspiração militar e oligárquica liderada pelo Marechal Deodoro da Fonseca, homem do círculo de confiança do Imperador, cujas motivações pessoais e melindres mesquinhos revelam a estreiteza moral que inaugurou o regime republicano no Brasil.
A grandeza de uma era mede-se pela envergadura moral de quem a lidera. Enquanto os líderes republicanos ao longo do século XX e XXI acumulam denúncias de enriquecimento ilícito, negociatas de bastidor, esquemas de propina e o uso do aparelho estatal para fins pessoais e partidários, a figura de Dom Pedro II ergue-se como um gigante moral inalcançável.
Ao ser banido da terra que amava e que governou com retidão intelectual e abnegação por quase meio século, o Imperador não tentou instigar uma guerra civil para manter a coroa. Não escondeu tesouros em contas estrangeiras, nem saqueou os cofres públicos. Deixou para trás os bens da Coroa e partiu para o exílio levando consigo apenas a vestimenta do corpo e um saquinho de pano contendo terra brasileira, para que sobre ela pudesse reposar a sua cabeça no momento do derradeiro sono. No seu leito de morte na França, desprovido de qualquer ostentação, Pedro II exalou o último suspiro mantendo o apego visceral à sua Pátria, sem jamais ter guardado rancor contra os algozes que a fragmentaram.
A penúria do cenário político atual, marcado por prisões de chefes de Estado, desrespeito flagrante à Constituição, líderes que enxergam a Nação como um despojo a ser loteado e minorias e maiorias postas em rota de colisão para fins de manipulação eleitoral, põe em relevo a tragédia de nossa escolha histórica. A República nos deu a ilusão da rotatividade, mas nos privou da estabilidade moral; deu-nos políticos profissionais, mas nos tirou os homens de Estado.
Comparar a nobreza d'alma de Pedro II com o rastro de desolador apadrinhamento e corrupção da República é entender a dimensão do que perdemos. O tempo, no entanto, é o mestre da verdade. Ao olhar para as ruínas morais dos regimes partidários contemporâneos e para o exemplo das nações que ousaram recuperar o juízo e reatar com sua tradição monárquica, fica claro que a busca por um símbolo de liderança altruísta, patriótica e apartidária não é um saudosismo estéril, mas uma necessidade premente de lucidez institucional.
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