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Editorial Crônica 20

Paulo - O Guerreiro de Olhos Claros e Respostas Prontas

​Na memória da família, as suas “pérolas” já viraram capítulos inesquecíveis.

22/10/2026 às 11h22
Por: Arthur Feitosa Fonte: Por Arthur Feitosa
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Paulo - O Guerreiro de Olhos Claros e Respostas Prontas

​Não foi por acaso que o pai, Jeiko, leitor erudito, mente voraz e homem de uma obstinação perfeccionista, que faz bem feito tudo a que se propõe, buscou no Apóstolo Paulo a inspiração para batizar o filho. Há na história do Apóstolo de Tarso a marca da firmeza, do espírito destemido e da caminhada sem hesitação. E o nosso pequeno Paulo, à sua maneira e com o frescor de seus quase nove anos, já honra essa linhagem de homens determinados e autênticos.

​Há meninos que já nascem com um brilho no olhar que parece antecipar o mundo. O Paulo é exatamente assim. Prestes a completar seus nove anos, ele carrega nos olhos clarinhos uma tonalidade suave e imensa, parecida com a própria linha onde a terra se encontra com o céu. É um rapazinho lindo, daqueles que, não tarda, vão fazer fila de moças suspirando e tentando fisgar o seu coração, mas o que realmente impressiona nele vai muito além da estampa.

​Paulo vive fora da bolha. É esperto, astuto, destemido, desses que enfrentam os pequenos e grandes desafios do crescimento sem pestanejar. Para cada pergunta, tem uma ideia na cabeça; para cada aperto, uma saída genial; e para cada cobrança, uma resposta rápida na ponta da língua.

​Na memória da família, as suas "pérolas" já viraram capítulos inesquecíveis.

​Como esquecer aquele final de tarde ensolarado, marcando o encerramento das férias? A cena era quase de quadro: a imensa mesa de madeira polida e rústica, postada na varanda ao lado da piscina. Em uma das cabeceiras estava o pai, Jeiko, um homem que cria os filhos como verdadeiros príncipes, mas sem jamais abrir mão da autoridade, do respeito e dos princípios que fundamentam a boa educação. Na outra extremidade estava o Paulo, amuado, emburrado, sem a menor vontade de comer. Ao seu lado, o tio e padrinho Giu, companheiro de todas as horas, testemunha silenciosa do duelo que se avizinhava.

​Acontece que, naquele período, o pai cumpria uma rigorosa dieta à base de sopa. Verificando a desobediência do filho com o prato, Jeiko levantou-se lá do seu posto, atravessou a extensão da mesa e veio falar duro, impondo a disciplina necessária. Paulo ouviu tudo em silêncio, de cabeça baixa, enquanto o pai se afastava vitorioso de volta à sua cabeceira. Foi então que o pequeno guerreiro, baixinho, mas perfeitamente audível para o Tio Giu, soltou a sua sentença:

​— Vaaaai tomar tua sopa.

​A ousadia da tréplica, dita com a solenidade de quem repreende quem o acabou de repreender, arrancou do tio uma gargalhada imediata. O episódio ficou gravado para sempre no anedotário da família. Até hoje, quando alguém quer dar uma resposta bem-humorada ou desarmar o pai Jeiko, a senha é uma só: "Vaaai tomar tua sopa!".

​Outro momento digno de registro ocorreu sob o cenário paradisíaco de Punta del Este, no Uruguai, em uma viagem de fim de ano que reuniu toda a tropa. Estavam lá os avós maternos e paternos, os pais Jeiko e Gisela, tios, primos... uma comitiva numerosa sob um calor de rachar miolos, visitando uma enseada estonteante que abrigava o museu de um dos artistas plásticos mais renomados do país. O local fervilhava de turistas de todos os cantos do mundo. Afinal, como a vida é uma só e não sabemos se um dia voltaremos aos mesmos lugares, o lema era aproveitar cada segundo.

​Pois no meio daquela multidão, longe de qualquer banheiro, o nosso "homem" de quase nove anos sentiu o aperto inevitável da natureza. Sem hesitar, disposto a soltar seus lampejos no mar uruguaio, ele não se fez de rogado. Exigiu seus direitos de cidadão e gritou em alto e bom som para quem quisesse ouvir:

​— Privacidade! Privacidade!

​Com o pudor necessário para a ocasião, armou-se de coragem e ali mesmo, na beira da água, deixou sua marcação de território como fazem os guerreiros destemidos. A gargalhada, mais uma vez, foi geral e ecoou pelas praias uruguaias.

​Como se não bastasse a coragem e o humor, Paulo ostenta uma inteligência muito acima da média. E, como costuma acontecer com os muito espertos, o ofício da obrigação escolar não enche seus olhos. Não há nenhum prazer solene no ato de sentar e estudar o conhecimento formal. Quando perguntado, sem nenhum rodeio ou pudor, sobre o que mais gostava na escola, disparou com a sua sinceridade habitual:

​— Dos amigos, do intervalo e das férias.

​Mais do que as artes e as peraltices, o que verdadeiramente arremata a figura do Paulo é essa sua capacidade de habitar com leveza a infância na companhia perfeita da irmã maior, Angelina, numa cumplicidade bonita de se testemunhar. Foi no olhar sensível da Vovó Lilian que esse perfil ganhou contornos poéticos precisos, ao decifrar a síntese perfeita entre a ternura do olhar e a firmeza da sua personalidade:

​"Tem a cara de anjinho / e um sorriso encantador, / mas lembre bem, caro doutor, / venho dar explicação: / esse rostinho sedutor / pode ser a perdição! // Esse lindo personagem / é sujeito homem, sim senhor! / Tem caminhão, trator e trem, / muitos carros a seu dispor! // Sem falar no videogame, / onde é craque, com certeza: / com o Mário e o Luigi / salva logo a princesa! // E nos estudos, meu doutor, / como vai nosso rapaz? / Não seja lá tão exigente / com assunto tão atroz! // Ele é inteligente, / sabe tudo de motor; / e se vai ser um maquinista / ou um bravo cientista, / contará com o nosso amor!"

​Há, de fato, uma sabedoria própria na lógica do Paulo. Ele não se curva às exigências burocráticas do aprendizado formal porque seu intelecto opera em outra frequência: a da curiosidade prática, do domínio dos motores, da estratégia rápida nos videogames onde descomplica mundos e resgata princesas. Maquinista do próprio tempo ou cientista de suas descobertas, o futuro já lhe pertence. Resta-nos a alegria contemplativa de ver desabrochar esse pequeno grande homem, um espírito livre, límpido e brilhante, pronto para conquistar a vida nos seus próprios termos.

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