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Editorial FAVAS CONTADAS

Piauí: Quando a embriaguez do poder destrói o decoro republicano

Trata-se de um modelo que enxerga o estado não como um bem público

11/10/2026 às 07h40
Por: Arthur Feitosa Fonte: Arthur Feitosa
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Piauí: Quando a embriaguez do poder destrói o decoro republicano

​A sabedoria política ocidental, fundamentada desde a Grécia clássica por Aristóteles e repensada pela sociologia moderna, estabeleceu uma fronteira conceitual inviolável: ao Estado cabe a função de ministrar a instrução técnica e o ensino formal; à família, contudo, pertence de maneira exclusiva e intransferível a missão de educar, lapidar o caráter e inculcar o senso de pudor civilizatório. Quando essa barreira ética desmorona no próprio núcleo familiar daqueles que ocupam o topo da hierarquia estatal, a política deixa de ser o exercício nobre da representação democrática para se amesquinhar como um espetáculo grotesco de soberba, delinquência verbal e manipulação vil.
O Piauí testemunhou, em uma sequência estarrecedora de apenas sete dias, a cristalização do que há de mais nocivo na dinâmica de dominação do Partido dos Trabalhadores no estado. Não se trata de lapsos isolados, de desabafos de palanque ou de excessos escusáveis pelo calor dos acontecimentos, mas da exposição nua, crua e sistemática de uma práxis política pautada pela hybris, a cega arrogância dos governantes que se consideram acima das leis do decoro, das instituições e da própria moralidade pública.

​O primeiro capítulo dessa crônica de degradação ocorreu no momento exato em que o governador eleito, Rafael Fonteles, tomado por uma desqualificada embriaguez de triunfo no primeiro turno e sob visível estado de descontração alcoólica e descontrole incompatíveis com a liturgia do cargo, assaltou os microfones da vitória para escorrer o fel de sua conduta. Dirigindo-se ao Senador da República Ciro Nogueira, Fonteles abandonou qualquer vestígio de compostura governamental e desferiu uma saraivada de ofensas chulas, vociferando termos como "vagabundo", "moleque" e mandando seu adversário à "puta que o pariu". Ao recorrer ao léxico da sarjeta, o chefe do Executivo estadual não agrediu apenas um opositor partidário. Por um efeito direto e inevitável, ao tentar execrar a figura de seu rival, Fonteles atingiu frontalmente a honra e a dignidade moral de centenas de milhares de mães, senhoras e famílias piauienses que exerceram o seu direito sagrado e constitucional de votar no adversário. É o despotismo em sua forma mais rudimentar: a agressão ao cidadão que ousa discordar do projeto hegemônico de poder.

​Na história universal e nacional, episódios em que a autoridade máxima do Estado perde o freio inibitório e descamba para o populismo vulgar são alertas estridentes de erosão democrática. Esse comportamento de moleque com chave de cofre encontra dolorosos paralelos históricos. No cenário internacional, remete aos arroubos de descontrole de figuras como Silvio Berlusconi na Itália, cujas tiradas de baixo calão e postura desqualificada reduziram os palácios de governo a palcos de chanchada, ou à virulência rasteira de Rodrigo Duterte nas Filipinas, que fez do insulto chulo e do ataque às mães dos seus opositores uma ferramenta explícita de intimidação política. No cenário nacional, evoca os piores momentos do coronelismo arcaico brasileiro, onde o caudilho de ocasião, ao sentir o gosto do poder absoluto, julga-se no direito de achincalhar os vencidos da sacada do palácio. A retratação posterior do governador, feita às pressas nas redes sociais dias depois  revelou-se um espetáculo à parte de hipocrisia e conveniência. Não houve ali qualquer iluminação moral ou remorso genuíno, mas sim um contorcionismo de marketing estritamente calculado, estipulado por marqueteiros para estancar a sangria de votos e mitigar estragos na campanha presidencial de seu padrinho político, funcionando apenas como uma maquiagem frágil sobre uma ferida profunda.

​A tese de que o destemperamento do governador fora um acidente percalço enfraqueceu-se completamente na semana seguinte. A sabedoria popular jamais falha quando adverte que o costume de casa vai à praça, e a confirmação inequívoca de que o despudor e a ausência de limites éticos são virtudes cultivadas no seio familiar veio com o segundo ato do escândalo, protagonizado pelo pai do governador, o ex-deputado federal, médico e professor Nazareno Fonteles. O patriarca usou suas redes sociais e intervenções públicas para disseminar uma das mais cruéis, deliberadas e descabidas mentiras da história recente da política piauiense: a narrativa terrorista de que, por ordem do presidente dos Estados Unidos,  a oposição, tão logo vencesse a eleição, iria extinguir o PIX, o sistema de pagamentos instantâneos que garante a sobrevivência diária de milhões de trabalhadores e famílias carentes. A atitude do ex-deputado, de quem se esperava a sobriedade, a serenidade de um veterano e a autoridade moral de pai para repreender os excessos do filho, provou que a truculência e o desrespeito à verdade são lições aprendidas e chanceladas na própria mesa de jantar da família Fonteles, rebaixando sua trajetória ao papel de despudorado propagandista de fake news.

​O uso do pavor econômico e da fraude informativa contra a população vulnerável não é uma invenção original de Nazareno, mas sim o recurso mais sórdido dos regimes autoritários ao longo da história. Trata-se da atualização digital da propaganda goebbelsiana do século XX, pautada na premissa de que uma mentira repetida com convicção e dirigida ao medo da população torna-se uma verdade coercitiva. O terrorismo eleitoral promovido sobre o fim do PIX ressoa o mesmo tipo de manipulação utilizado em momentos sombrios da Guerra Fria ou na tática da guerra suja eleitoral, onde se ameaça cortar o pão dos mais pobres caso o grupo dominante seja contrariado nas urnas. Irônico constatar que, diante desse enredo de degradação, o único PIX que verdadeiramente corre o risco de ser interrompido é o dos repasses federais para socorrer os cofres estaduais criticamente minguado e também o repasse de legitimidade ética e de credibilidade do povo do Piauí para com uma dinastia política narcisista, egocêntrica, destrambelhada e sem freios morais.

​O que esses dois episódios escancaram para o Piauí e para o Brasil não é apenas uma sucessão de falhas individuais, mas a verdadeira radiografia da política praticada pelo PT estadual. Trata-se de um modelo que enxerga o Estado não como um bem público a ser servido com altivez e liturgia, mas como um feudo particular, onde os adversários são tratados como inimigos a serem aniquilados pelo achincalhe ou pela mentira deliberada. A população do Piauí, composta por homens e mulheres de bem, trabalhadores vocacionados e famílias honradas que preservam o respeito mútuo, não pode aceitar ser governada por quem desce aos esgotos da retórica no momento do triunfo e recorre ao terrorismo informacional no dia seguinte. Resgatar a dignidade republicana do nosso estado exige denunciar, sem meios-termos ou covardias vocabulares, a absoluta falta de caráter, o narcisismo despótico e o despudor de quem, ao esquecer a responsabilidade do cargo que ocupa, rebaixou a representação do Piauí ao nível mais rasteiro da mediocridade e da sarjeta da história.

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Ricardo FREITASHá 39 minutos TeresinaPobre Piauí, atolado em todos os tipos de atraso!
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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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