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Editorial CRÔNICA 15

Janary - O Métrica das Montanhas e o Homem de Aroeira

Mas o céu respondeu com o silêncio da eternidade

11/09/2026 às 13h36 Atualizada em 11/09/2026 às 14h01
Por: Arthur Feitosa
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Janary - O Métrica das Montanhas e o Homem de Aroeira

​A grandeza de um homem jamais coube nas réguas humanas ou nos instrumentos de medir espaços. Se a métrica da vida dependesse da altura dos ombros até o chão, Teresina teria testemunhado apenas a passagem discreta de um menino franzino, cruzando a poeira aquecida pelo sol da Rua Paissandú no final dos anos 1940. Mas Janary não fora desenhado pela brevidade do barro comum; traziam-no no peito a têmpera das pedras raras e uma mente cuja dimensão desafiava qualquer horizonte.

​A vida, porém, costuma lapidar as grandes almas na bigorna do sofrimento. Ainda em tenra idade, Janary assistiu à partida daquela que era o seu eixo existencial e o seu templo de afeto: sua mãe. Ele, que cruzava as naves da igreja como dedicado coroinha e auxiliava o sagrado com o fervor mais puro das crianças, rogou em preces ardentes pela cura daquela a quem devotava seu amor supremo. Mas o céu respondeu com o silêncio da eternidade. O luto precoce desfez a túnica da fé ingênua. Janary despiu os paramentos católicos e guardou, no recôndito da alma, uma dor que o fez questionar as ordens do invisível. Se o transcendente lhe negava a mãe, seria no mundo concreto, no domínio dos livros e no rigor do intelecto, que ele ergueria o seu próprio destino.

​Trabalhando como office-boy no armazém do senhor Lourival Parente, figura de relevação e elegância na sociedade teresinense, o garoto dividia as horas entre o balcão da lida diária e os bancos seculares do Liceu Piauiense. Ali, sob a luz da tarde, devorava tomos de exatas e enxergava nas equações a arquitetura de uma libertação. Teresina, naquela quadra da história, era uma província de horizontes contidos. Os herdeiros do privilégio partiam para os centros acadêmicos de Salvador, Recife ou Rio de Janeiro, enquanto aos desvalidos restava a sina de não ir além de Altos de João de Paiva. Janary, entretanto, recusou a pequenez que as circunstâncias lhe reservavam.

​A saída para o seu espírito inquieto vestia a farda do Exército Brasileiro. Contudo, o destino teceu-lhe uma provocação quase poética: Janary tinha 1,59m, faltando-lhe exato um centímetro para a exigência dos regulamentos militares. Somava-se a isso a penúria material de quem trazia apenas farrapos e a roupa do corpo. Foi nesse limiar que reluziu a santidade do amor fraterno. Sua irmã, Lucimar, cujo afeto e acolhimento sempre foram para ele porto seguro, desfez em retalhos os seus próprios vestidos para costurar as calças e camisas do jovem que partia para a Escola Preparatória do Exército em Fortaleza.

Posteriormente, ​mesmo superando as provas com brilhantismo e vencendo o temível vestibular para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o fantasma do centímetro faltante voltou a se empinar. Foi preciso o olhar perspicaz e nobre do General Gayoso, que vislumbrou a genialidade oculta sob a pequenez física, para que as portas de Resende finalmente se abrissem. Janary adentrava a história não por concessão, mas pelo direito sagrado do mérito.

​Na AMAN, ao lado da disciplina férrea, floresceu o homem espirituoso e brincalhão. Ficariam lendárias suas travessuras com o rigor das fardas dos colegas, escondendo coturnos engraxados no forro dos alojamentos, testando os nervos dos cadetes até o último minuto da inspeção, uma leveza calculada de quem sabia rir mesmo sob o peso da retidão.

​Formado com distinção no final da década de 1950, o jovem tenente retornou ao solo pátrio para desenhar a infraestrutura da própria terra. Acampado no interior do Piauí, em Nazaré, onde a poeira das estradas federais cortava os sertões, o destino lhe reservava o seu mais alto encontro do amor com sua vida. Foi ali que os olhos de Janary cruzaram com os de Telde, jovem de sensibilidade e brilho intelectuais ímpares, filha de Raimundo Soares Leal, líder e primeiro prefeito da cidade. Daquele encontro nasceu uma união que atravessaria quase seis décadas, tecida pelo afeto profundo, pelo respeito mútuo e pela cumplicidade absoluta.

​Determinado a dominar a arte de construir, submeteu-se ao rigor do Instituto Militar de Engenharia (IME), o mais prestigiado e árduo centro de saber técnico do país. Aprovado com louvor, deslocou-se para o Rio de Janeiro com a esposa e a filha recém-nascida. Durante os estudos no Rio de Janeiro, a família voltou a crescer, consolidando a dinastia de afeto que acompanharia Janary nas jornadas mais duras, desde as operações na selva densa da rodovia Cuiabá-Santarém até os novos rumos passando pelo interior do Maranhão e do Piauí.

​Em 1983, ao passar para a reserva como Coronel, Janary não se recolheu ao descanso. Convocado pela vida pública, tornou-se o braço direito do prefeito Freitas Neto ao assumir a presidência da ETURB. Ali, no comando das obras da capital, o homem que um dia fora menino de recados transformou-se no grande arquiteto do progresso urbano teresinense. Mais tarde, como Diretor Geral do DER no governo estadual e Secretário de Obras no governo de Guilherme Melo, cravou sua marca incontestável: a de um gestor de altíssima resolutividade, para quem não existiam nós górdios ou tempestades sem solução.

​Entretanto, o que verdadeiramente eternizou Janary Melo Lima na memória de sua gente foi a absoluta integridade moral e a fidalguia com que conduziu sua passagem pelo poder. Num universo frequentemente tisnado pela vaidade, ele viveu com a simplicidade dos sábios. Jamais reivindicou privilégios, nunca cedeu às benesses dos cargos, mantendo a postura austera, limpa e profundamente respeitável dos homens de caráter incorruptível.

​Essa postura ética ecoou dentro de sua própria casa. Telde, dona de uma erudição singular que a elevou ao mestrado em Português e Latim e à cátedra da Universidade Estadual do Piauí por méritos estritamente intelectuais, foi a parceira perfeita na lapidação da família. Juntos, Janary e Telde ensinaram aos cinco filhos que o único prêmio legítimo na vida é aquele conquistado pelo trabalho e pelo empenho pessoal. E a prole respondeu com a mesma nobreza: tornaram-se auditoras fiscais, servidores efetivos da Câmara Federal e da Chancelaria Brasileira, ingressando nas altas esferas do serviço público pela porta estreita e honrada dos concursos públicos.

​Há quatro anos, Coronel Janary fez sua passagem. Se ao longo da vida carregou as inquietações daquele garoto que questionou os céus pela perda da mãe, o Criador, em sua infinita misericórdia, há de ter acolhido com louvor a alma daquele que transformou a fragilidade inicial numa mesa de aroeira, madeira forte, altiva, invergável. Janary Melo Lima não precisou do centímetro que o Exército lhe cobrou na juventude, pois a sua real estatura sempre foi, e continuará sendo, a de um gigante na história do Piauí.

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