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“Tudo é relativo” — como Einstein foi sequestrado pela política brasileira

O relativismo não é menos utilizado na Política, ao contrário, a regra do “tudo é relativo” se aplica constantemente, sobrepondo-se mesmo às virtudes, à ética e à moral.

05/09/2026 às 08h00
Por: Campelo Filho
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arquivo pessoal
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Foi Galileu quem abordou cientificamente o Princípio da Relatividade, aduzindo sobre a importância do referencial na análise do movimento de um dado corpo, dando conta de que não existe sistema de referência absoluto pelo qual todos os outros movimentos possam ser medidos. A chamada Teoria da Relatividade, todavia, teve em Einstein seu grande expoente, que modificou completamente a concepção que até então se tinha do Universo.

O problema é que o senso comum, e eu digo até mesmo o incomum, passou a utilizar-se da expressão “tudo é relativo”, teoricamente fundamentado no pensamento de Einstein, para justificar atos, leis, decisões, pensamentos filosóficos, enfim. A relatividade de tudo passou a ser uma regra absoluta, contrariando assim a própria regra. E aqui não há paradoxo sequer aparente. De fato, se “tudo é relativo”, esta afirmação também deveria ser relativa, como sempre pontuou Lênio Streck.

O certo é que as pessoas passaram a justificar suas ações tomando por base, equivocadamente, a Teoria (Física) da Relatividade de Einstein, que em muito dista da falaciosa compreensão daqueles que talvez nunca se detiveram a analisar um pouco o pensamento einsteiniano.

Para o Direito isso é terrível, porque a partir daí os princípios deixaram de ter a eficácia necessária à garantia dos direitos. De todos os direitos! Ou será que alguém poderia, por exemplo, dizer que a segurança jurídica está garantida no Brasil? Ou que o Supremo Tribunal Federal (STF) decide apenas sobre aquilo que a Constituição Federal autoriza? E quantas vezes já não foram proferidas decisões pelo STF em que sobejam críticas sobre a própria constitucionalidade delas? Seria possível relativizar a presunção da inocência? Poderia citar aqui inúmeras outras situações em que, em nome do relativismo das coisas, decisões foram (e ainda são) praticadas pelo Judiciário e que são objeto de críticas de toda ordem.

O relativismo não é menos utilizado na Política, ao contrário, a regra do “tudo é relativo” se aplica constantemente, sobrepondo-se mesmo às virtudes, à ética e à moral. Mas é claro, afinal, moral, ética e virtudes, para também se enquadrarem na teoria de Einstein, devem ser relativizadas. E os absurdos são perpetrados indiscriminadamente contra a sociedade, que é quem sofre em nome da relatividade das coisas na política.

A sociedade precisa precaver-se contra a regra do “tudo é relativo”, pois ela tem sido o fundamento para que as conquistas alcançadas e os direitos sejam suprimidos, da mesma forma que tem sido utilizada para se permitir que a Democracia seja vilipendiada, e até mesmo que direitos relativos sejam absolutizados. Aqui, sim, a contradição é aparente!

Mas a relatividade tem a ver com bom senso, com razoabilidade e, via de consequência, com valores também. Mas esperar bom senso e razoabilidade em um país em que a violência é assustadora e o descaso dos governos assombra até os mais céticos e crentes, com a saúde e educação atiradas às traças e políticos cassados e condenados criminalmente por corrupção, não seria lógico.

Esse é o Brasil de todos nós em que se descortina um enredo de novela. É o Brasil do brasileiro ignorante, que em pleno século XXI ainda se sustenta de uma cultura popular que se baseia na subserviência de tradições familiares, escravocratas e do coronelismo moderno, quando muitos “desafortunados” estão conformados com um falso destino designado por Deus. É o Brasil do individualista nobre e poderoso, que tudo pode e que, tal qual agente invisível, nada lhe atinge. Opressor, falso humilde e vingativo, é o dono do Poder.

O Brasil encontra-se numa encruzilhada, onde não aparecem caminhos certos, onde a incerteza é o norte e a esperança apenas mais uma mítica crença. Afinal, são nesses caminhos tortuosos e que não se sabe aonde vão dar que, inevitavelmente, ter-se-á que seguir. E a política, esse poder que dirige e comanda a nação, que faz seus caminhos, que estabelece os fins sociais e a forma de atingi-los, carente de legitimidade, de moral e de ética, cambaleante, espera tranquila as próximas urnas.

"Para onde caminham as ovelhas: a política no Estado Democrático de Direito", de Francisco Soares Campelo Filho (2023).

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Sobre Francisco Soares Campelo Filho é advogado empresarial, professor, escritor e palestrante. É pós-doutor em Direito e Novas Tecnologias pelo Mediterranea International Centre for Human Rights Research, em Reggio Calabria, Itália. Doutor em Direito e Políticas Públicas pela UNICEUB, em Brasília-DF, Brasil, com cursos de extensão em ESG, Inovação e Transformação Tecnológica pela Sorbonne, em Paris, França, e em Proteção de Dados e Inteligência Artificial pela Faculdade de Jurisprudência da Universidade Sapienza, em Roma, Itália. Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, Brasil. É membro consultor da Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da OAB, diretor do Serviço Social do Comércio (SESC), Administração Regional do Estado do Piauí, e conselheiro do Serviço de Apoio às Pequenas e Microempresas (SEBRAE), representando a Federação do Comércio do Estado do Piauí (FECOMERCIO).
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