
O dito popular afirma que “aquilo que não há remédio, remediado está”. É essa máxima que o governo Lula 3 parece ter adotado para resolver os problemas que afligem o próprio governo e a sociedade brasileira como um todo. Não consegue resolver? Muda o critério. Não consegue acabar com a fila? Muda a forma de contar. E pronto. Problema resolvido. Ou melhor, problema maquiado.
O desemprego é um exemplo que merece atenção. O debate sobre a metodologia utilizada pelo IBGE e sobre quem é considerado ocupado ou desocupado já provocou muita discussão. Mas uma coisa é certa: beneficiário de programa social não é automaticamente empregado só porque recebe o benefício. Bolsa Família, por exemplo, possui critérios próprios de elegibilidade e não transforma, por si só, uma pessoa desempregada em trabalhador ocupado. Portanto, é preciso cuidado para não vender como “emprego” aquilo que é apenas transferência de renda. Entende a encrenca?
Agora vem a mágica do INSS. A fila que chegou a cerca de 3,1 milhões de requerimentos em janeiro aparece agora como “zerada”. E qual foi a mágica? Ora, entrou em ação uma espécie de Mr. M. Sem precisar fazer desaparecer todos os processos, bastou mudar a régua usada para definir o que é fila.
O governo passou a considerar que não existe mais fila porque o estoque de pedidos em análise, de aproximadamente 1,252 milhão, ficou abaixo do número de novos requerimentos recebidos em agosto, cerca de 1,394 milhão. Como entraram mais pedidos do que havia no estoque, pronto: “atendimento sem fila”. Como assim, cara pálida?
Porque quem está esperando uma resposta do INSS sabe que essa conta não é tão mágica assim. Dos processos ainda em análise, segundo os próprios números apresentados pelo governo, 235 mil aguardavam resposta havia mais de 45 dias. E esse era justamente o prazo que anteriormente servia como referência para identificar os requerimentos atrasados.
Ou seja, mudou-se a régua e mudou-se o discurso. Antes, o objetivo era eliminar até o fim de setembro os pedidos com mais de 45 dias de espera. Agora, a narrativa é outra: se entram mais pedidos do que permanecem acumulados, o governo considera que não há fila no atendimento inicial. Na propaganda, a fila pode ter evaporado. Na vida real, porém, tem gente esperando.
É aquela velha história: “se não dá para resolver o problema, vamos mudar a maneira de apresentá-lo”. Isso pode até impressionar na mídia, render manchete e virar peça de propaganda eleitoral. Mas não faz o cidadão receber mais rápido. Não libera benefício. Não paga aposentadoria. Não responde requerimento. E, sobretudo, não faz desaparecer os brasileiros que continuam aguardando uma decisão.
Lula, aliás, parece ter desenvolvido verdadeira especialidade em soluções criativas. No rombo do INSS, por exemplo, o governo decidiu utilizar recursos públicos para ressarcir aposentados e pensionistas atingidos pelos descontos fraudulentos. Justo ressarcir quem foi lesado, evidentemente. Mas fica a pergunta que não quer calar: e a dinheirama desviada? E as responsabilidades envolvendo o chamado “Careca do INSS”, Roberta Luchsinger, Frei Chico e as suspeitas que também alcançam pessoas próximas ao entorno de Lulinha? Tudo isso precisa ser investigado, com provas, transparência e responsabilização de quem efetivamente tiver cometido irregularidades.
E aí chegamos ao episódio do Jornal Nacional. Questionado por César Tralli sobre mensagens envolvendo seu filho, Lulinha, e a lobista Roberta Luchsinger, Lula respondeu com uma pergunta: “você acha que se pegarem o seu celular não vão encontrar coisas erradas?” Ora, presidente, essa lógica é no mínimo curiosa. Se alguém é questionado sobre uma suspeita envolvendo seu filho, responder que qualquer pessoa pode ter “coisas erradas” no celular não esclarece absolutamente nada.
Eu, particularmente, teria respondido: no meu, não. Mas Tralli ficou inerte, silente. Deu o calado por resposta. E Lula seguiu adiante, transformando uma pergunta que exigia esclarecimentos em uma espécie de ataque ao próprio questionador.
Esse tem sido, muitas vezes, o modus operandi político diante de perguntas incômodas: em vez de responder, desvia-se; em vez de explicar, ataca-se; em vez de enfrentar o problema, muda-se o foco. É como aquele velho “jogo de cintura” da política brasileira, só que levado às últimas consequências.
Mas, trocando em miúdos, até quando o governo vai apostar na mudança da narrativa para apresentar problemas como se estivessem resolvidos? Até quando a maquiagem vai substituir a solução? Porque mudar o critério não elimina a fila. Mudar a estatística não cria emprego. E mudar o discurso não faz desaparecer a realidade.
No fim das contas, o brasileiro não quer mágica. Quer emprego de verdade, benefício pago no prazo, aposentadoria sem espera, serviço público funcionando e dinheiro público tratado com responsabilidade.
Porque, na vida real, não existe “Mr. M”. Existe o cidadão esperando. E esse não desaparece quando o governo muda a régua.
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