
Durante todo o seu terceiro mandato, Lula não poupou elogios a Alexandre de Moraes. Para o presidente, o ministro foi uma espécie de “super-herói”, decisivo para salvar a democracia brasileira. Os dois apareceram juntos em momentos importantes, participaram de encontros reservados e públicos e chegaram a dividir a mesa com os presidentes da Câmara e do Senado. Mas a política é implacável: o herói de ontem pode virar o problema de hoje. E Moraes parece ter chegado exatamente a esse ponto para Lula.
A mudança de temperatura não aconteceu por acaso. Ela coincide com a divulgação das mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e com o aprofundamento das investigações conduzidas no âmbito do caso Banco Master. A Polícia Federal identificou comunicações entre Vorcaro e Moraes, além de encontros entre os dois e informações sobre contratos envolvendo o escritório da esposa do ministro. Nada disso permite afirmar, por si só, que Moraes tenha cometido crime. Mas o tamanho da crise é suficiente para transformar uma antiga relação de proximidade em um problema político.
Nos bastidores de Brasília, a sensação é de que Moraes virou, para Lula, uma espécie de “lazarento político”. Não no sentido pessoal, mas na lógica fria do poder: alguém cuja simples proximidade pode contaminar quem está ao lado. Hoje, qualquer fotografia, jantar, declaração de apoio ou gesto de solidariedade pode gerar desgaste. O ministro que antes rendia dividendos políticos agora pode cobrar uma conta alta demais. E Lula sabe que, em uma campanha de reeleição, imagem é patrimônio.
Por isso, o presidente parece ter escolhido a velha estratégia da distância calculada. Evita defender Moraes publicamente, fala em pacificação e concentra sua agenda em assuntos capazes de produzir notícias positivas para o governo. O Planalto tenta falar de INSS, bets, projetos no Congresso e entregas administrativas enquanto a crise se desenrola no Supremo. É como se Lula dissesse, sem dizer: esse problema não é meu.
Mas é difícil sustentar essa separação quando a história recente mostra justamente o contrário. Moraes foi celebrado pelo campo político de Lula como uma barreira contra o bolsonarismo e como um dos principais responsáveis pela preservação da ordem democrática. Lula não apenas conviveu politicamente com esse ambiente como também fez questão de demonstrar sua proximidade com o ministro. Agora, o mesmo Moraes que servia como símbolo de força institucional pode ter se transformado em um passivo capaz de contaminar a campanha presidencial.
E as perguntas continuam. Por que Vorcaro mantinha uma comunicação tão próxima com um ministro do Supremo? Qual era exatamente a natureza dessa relação? O que significavam as mensagens? Houve alguma intervenção de Moraes em favor do banqueiro? Essas respostas não podem ser construídas por versões de bastidores nem por disputas políticas. Precisam surgir de documentos, investigação e contraditório. Porque, se não há crime, que se esclareça. E, se houver algo além de uma relação pessoal ou profissional, que as instituições tenham coragem de investigar.
O problema é que a crise já ultrapassou a figura individual de Moraes. André Mendonça aprofundou a apuração, a PF produziu informações que colocaram o ministro no centro das atenções e Edson Fachin terá de administrar uma situação extremamente delicada dentro da própria Corte. O Supremo passou de árbitro da crise política a personagem da crise. E isso coloca Lula diante de um dilema: defender Moraes e correr o risco de importar o desgaste para sua campanha, ou manter distância e assistir ao antigo aliado enfrentar sozinho a tempestade.
É aí que a ironia política se completa. O homem que Lula ajudou a apresentar como herói agora pode ter se tornado, para sua campanha, um vilão eleitoral. Moraes talvez não tenha mudado; o que mudou foi o custo político de estar ao lado dele. Lula percebeu que, em uma eleição, determinados aliados podem deixar de ser escudo e virar peso. Resta saber se o presidente conseguirá se desvencilhar a tempo. Porque uma coisa é abandonar uma fotografia. Outra, muito diferente, é apagar uma história inteira de proximidade.
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