
O brasileiro vai ao supermercado, olha o preço da carne, do café, do açúcar, do chocolate, dos remédios e até dos alimentos mais básicos, e percebe uma realidade que nenhuma sentença consegue apagar: a vida está cara.
É nesse cenário que a campanha de Lula decidiu recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral contra uma suposta ação coordenada nas redes sociais que relaciona o governo ao aumento do preço dos alimentos.
O argumento apresentado é de que haveria uma operação organizada, com vídeos, imagens e roteiros semelhantes, além de suspeitas de impulsionamento e financiamento irregular.
Se houve operação ilegal, financiamento oculto ou uso fraudulento das redes, que se investigue. A lei existe para isso.
Mas existe uma pergunta que o governo precisa responder: desde quando a indignação do povo com o preço da comida virou um problema a ser resolvido nos tribunais?
O cidadão não precisa de roteiro para perceber que o dinheiro está rendendo menos.
Não precisa de uma rede coordenada para reclamar da conta do supermercado.
Não precisa de influenciador para descobrir que a carne pesa no bolso, que o café ficou caro, que os remédios consomem uma parcela cada vez maior da renda e que, para milhões de brasileiros, colocar comida na mesa continua sendo uma luta diária.
É aí que mora o perigo da judicialização do debate político.
O governo pode contestar informações falsas. Pode apresentar números. Pode mostrar dados. Pode rebater adversários. Pode explicar sua política econômica.
O que não pode é dar a impressão de que pretende resolver o desgaste provocado pelo custo de vida retirando da internet as críticas de quem sente esse custo todos os dias.
É como tentar tapar o sol com uma peneira.
Uma decisão judicial pode determinar a remoção de um vídeo específico. Pode investigar uma eventual rede irregular. Pode punir quem tiver cometido ilícito eleitoral.
Mas não pode reduzir o preço da carne.
Não pode baratear o café.
Não pode fazer o açúcar voltar a caber no orçamento.
Não pode reduzir o preço dos medicamentos.
Não pode encher a geladeira de quem está desempregado, endividado ou vivendo no limite.
E, principalmente, não pode impedir o povo de enxergar a própria realidade.
O grande risco é transformar uma discussão econômica em uma batalha judicial.
Inflação não se combate com censura. Custo de vida não se reduz por decreto. E fome não desaparece porque alguém mandou retirar um vídeo das redes sociais.
Se existem publicações comprovadamente falsas ou operações clandestinas de propaganda, que sejam investigadas e julgadas dentro da lei. Mas uma coisa precisa ficar clara: criticar o preço dos alimentos, protestar contra o custo de vida e cobrar soluções do governo faz parte da democracia.
Se o governo realmente quer ajudar a derrubar o preço dos alimentos e aliviar o bolso do brasileiro, precisa começar por fazer o que há muito tempo vem evitando: controlar os gastos públicos. Não se pode gastar como se não houvesse amanhã, ampliar despesas sem o devido equilíbrio e depois esperar que a conta não apareça. Ela aparece, e quem paga é sempre o trabalhador, no supermercado, na farmácia e nos juros do cartão.
É preciso reduzir desperdícios, cortar despesas desnecessárias e impor maior responsabilidade à máquina pública. Com uma política fiscal mais equilibrada e previsível, o governo ajudaria a reduzir as pressões sobre a inflação e criaria melhores condições para a queda dos juros.
Os juros elevados não existem simplesmente por perseguição do Banco Central a Lula. Eles são, em grande parte, um instrumento para conter as pressões inflacionárias e as expectativas deterioradas quando o mercado enxerga risco e desequilíbrio nas contas públicas.
O governo pode continuar procurando vídeos para contestar na Justiça, mas nenhuma decisão judicial fará o preço da carne, do café ou do arroz cair.
A economia não funciona por decreto, e a inflação não desaparece porque se tenta controlar a narrativa.
Se Lula 3 quer entregar comida mais barata à população, terá de fazer o dever de casa: gastar melhor, controlar despesas, reduzir desperdícios e recuperar a confiança na condução das contas públicas. Só assim será possível construir um ambiente de inflação mais baixa, juros menores e, finalmente, maior poder de compra para quem hoje sente no bolso o peso da comida cara.
O governo precisa entender que combater a inflação não é uma questão de controlar o que as pessoas dizem nas redes sociais. É uma questão de enfrentar as causas do problema.
Controlar despesas.
Reduzir desperdícios.
Parar de gastar como se não houvesse amanhã.
Porque não existe truque jurídico capaz de mudar o preço que aparece na etiqueta do supermercado.
O brasileiro não precisa de um tribunal para descobrir que está pagando caro.
Ele descobre isso todos os dias, quando passa no caixa.
E essa talvez seja a maior contradição de toda essa história: se há uma campanha coordenada, que se investigue. Mas se o povo está reclamando porque a comida está cara, a solução não é tentar calar a reclamação. É fazer a comida ficar mais barata.
Afinal, censurar ou retirar uma postagem pode até tirar um vídeo da tela.
Mas não tira a fome da mesa.
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