
A nova pesquisa Quaest traz um dado que merece atenção especial: Lula continua liderando a disputa presidencial, mas começa a perder terreno justamente onde a eleição pode ser decidida, entre os eleitores independentes. Nesse grupo, que representa aproximadamente um terço do eleitorado, Flávio Bolsonaro avançou de 30% para 35%, enquanto Lula recuou de 33% para 29% em menos de dez dias. É a primeira vez que Flávio aparece numericamente à frente nesse segmento.
A tendência merece ser observada, embora ainda não possa ser tratada como resultado consolidado. A margem de erro específica para os independentes é de quatro pontos percentuais, o que recomenda cautela na interpretação de uma única rodada. Mas há outros sinais na mesma direção: 36% desses eleitores avaliam negativamente o governo Lula, contra 34% que o consideram regular e 26% que o avaliam positivamente. A desaprovação da gestão também subiu de 45% para 48%, enquanto 58% dizem que o Brasil está seguindo na direção errada. No cenário geral, Lula caiu de 44% para 43% no segundo turno contra Flávio, enquanto o senador subiu de 39% para 40%. A diferença, agora de três pontos, está dentro da margem de erro de dois pontos.
É aqui que surge a questão política mais incômoda para o governo: Lula ainda consegue reverter esse movimento? Sim, consegue. A eleição ainda está em curso e pesquisas registram fotografia do momento, não sentença eleitoral. Mas a dificuldade é evidente. O eleitor independente não está preso à fidelidade partidária e pode mudar de posição. E é justamente nesse segmento que o governo começa a apresentar maior desgaste. A pesquisa mostra ainda que 51% desses eleitores se identificam como conservadores, 36% como de centro e apenas 9% como de esquerda.
E então aparece outra pergunta, mais política do que estatística: por que Lula continua competitivo apesar dos sucessivos escândalos e crises que atingem o governo, aliados e pessoas próximas ao presidente? É preciso separar investigação de culpa. Acusações, inquéritos e suspeitas não equivalem a condenação. Mas também é legítimo perguntar por que episódios que provocariam forte desgaste em outros governos nem sempre produzem uma transferência imediata de votos. A resposta pode estar na força da polarização: para parte do eleitorado, a escolha presidencial não é necessariamente uma avaliação isolada do governo, mas uma decisão sobre qual dos dois campos políticos representa o menor risco ou o maior benefício.
O caso dos escândalos envolvendo pessoas próximas ao poder também exige precisão. Há investigações envolvendo Luiz Fábio Lula da Silva, o Lulinha, mas isso não permite afirmar que ele tenha participado de corrupção sem que as investigações produzam provas e responsabilização. Da mesma forma, eventuais citações ou investigações envolvendo políticos ligados ao PT ou ao governo precisam ser tratadas individualmente, sem transformar suspeitas em condenações. O mesmo critério deve valer para Flávio Bolsonaro e para qualquer outro personagem da disputa.
O dado mais revelador talvez esteja justamente aí: a rejeição de Lula entre os independentes é de 60%, praticamente empatada com a de Flávio, de 59%. Ou seja, Flávio não conquistou esse eleitorado porque tenha se tornado unanimidade. Está avançando também porque Lula enfrenta dificuldades para convencer uma parcela que não deseja simplesmente escolher entre dois polos.
A pesquisa também desmonta qualquer interpretação simplista de que a eleição já esteja decidida. No primeiro turno, Lula ainda lidera com 38%, contra 31% de Flávio. No segundo turno, entretanto, a vantagem caiu para apenas três pontos, dentro da margem de erro. Em junho, pesquisas já haviam mostrado que Flávio sofrera desgaste após o episódio envolvendo Daniel Vorcaro, mas também indicavam que o impacto não havia destruído sua competitividade.
A pergunta, portanto, não é se Lula já perdeu. Não perdeu. A pergunta correta é se o movimento de aproximação de Flávio entre os independentes será apenas uma oscilação estatística ou o começo de uma tendência eleitoral. Se esse deslocamento persistir nas próximas pesquisas, o sinal será muito mais forte.
E existe uma questão ainda mais profunda: até que ponto a polarização consegue blindar um governo contra o desgaste provocado por crises, denúncias e escândalos? Talvez a resposta esteja justamente no comportamento dos independentes. Eles não parecem ter escolhido definitivamente nenhum dos lados. Estão olhando, avaliando e esperando.
E, em uma eleição apertada, quem conquistar esse eleitorado pode conquistar a Presidência.
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