
A física ensina que, para toda ação, existe uma reação de igual intensidade e em sentido contrário. Na diplomacia internacional, a lógica não é muito diferente. Governos tomam decisões, outros governos respondem, e cada movimento pode produzir consequências políticas, econômicas e diplomáticas. A crise entre Brasil e Estados Unidos é um exemplo claro dessa dinâmica.
O governo Lula decidiu retardar a concessão do agrément, o aval necessário para que Daniel Perez, indicado por Donald Trump, assuma a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Lula afirmou que pretende analisar o nome somente depois das eleições. O argumento do governo brasileiro é que Washington teria iniciado o processo sem respeitar a praxe diplomática e que a nomeação, às vésperas do pleito, poderia ter implicações políticas.
Washington reagiu. Em 4 de agosto, o Departamento de Estado americano anunciou a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, como medida de reciprocidade diante do impasse envolvendo o novo embaixador americano e outras medidas diplomáticas adotadas por Brasília.
E aqui está o ponto que merece atenção: a revogação do visto não significa, por si só, que Viotti tenha sido expulsa dos Estados Unidos ou declarada “persona non grata”. O próprio governo americano informou que ela poderia permanecer no país enquanto o impasse não fosse resolvido.
É justamente aí que começa a parte mais delicada dessa história.
Se uma diplomata tem seu visto revogado pelo país onde exerce sua missão, o episódio deixa de ser uma simples troca de notas entre governos. A situação passa a atingir diretamente uma profissional da carreira diplomática brasileira. Viotti, que ocupa o posto desde 2023 e teve sua indicação aprovada pelo Senado brasileiro, acaba colocada no centro de uma disputa que não foi criada por ela.
O governo brasileiro, porém, decidiu mantê-la em Washington. Lula também declarou que a análise do nome do embaixador americano ficará para depois das eleições.
A pergunta, portanto, é inevitável: até onde Brasília pretende levar esse cabo de guerra?
Uma coisa é defender a soberania brasileira e rejeitar qualquer tentativa de interferência estrangeira nas eleições. Outra é permitir que uma crise diplomática se transforme em peça de campanha eleitoral. A fronteira entre firmeza diplomática e exploração política do conflito precisa ser observada com cuidado.
E existe um risco adicional. Quanto mais a crise se prolongar, maior a possibilidade de novas retaliações, novas restrições e deterioração de uma relação que já atravessa um dos períodos mais tensos de sua história recente. A própria substituição do principal responsável do Departamento de Estado pelos assuntos do Hemisfério Ocidental ocorreu em meio a esse ambiente de tensão.
A terceira lei de Newton não pode ser revogada por decreto, discurso político ou ideologia. A cada ação, uma reação. Na diplomacia, entretanto, a reação nem sempre termina no governo que tomou a decisão. Pode atingir empresas, diplomatas, comércio, investimentos e, no limite, os interesses de toda uma nação.
E é justamente por isso que, numa disputa desse tamanho, o Brasil precisa medir não apenas a força do gesto que pretende fazer, mas também o tamanho da reação que está disposto a enfrentar.
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