
Há situações que deixam de ser apenas casos policiais ou judiciais e passam a representar um problema político.
A candidatura do deputado estadual baiano Kléber Cristian Escolano de Almeida, conhecido como Binho Galinha, é uma delas.
O parlamentar é filiado ao Avante, partido que integra a base política do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, do PT. Preso preventivamente, Binho Galinha foi condenado em julho de 2026 a 36 anos e 9 meses de prisão por crimes relacionados ao Estatuto do Desarmamento, no âmbito das investigações da Operação El Patrón, segundo o Ministério Público da Bahia.
Mesmo nessa situação, o Avante oficializou sua candidatura à reeleição para a Assembleia Legislativa da Bahia.
O Ministério Público Eleitoral, entretanto, contestou o registro e pediu ao Tribunal Regional Eleitoral da Bahia o indeferimento da candidatura. A Procuradoria sustenta, com base em quatro ações penais, que Binho Galinha ocuparia posição de liderança de uma organização criminosa estruturada e permanente.
É importante deixar claro: o pedido do Ministério Público Eleitoral não equivale a uma decisão definitiva de inelegibilidade. O caso ainda depende de julgamento pela Justiça Eleitoral.
Mas a pergunta política já está posta:
como um partido pode considerar eleitoralmente aceitável lançar à reeleição um parlamentar que está preso, recebeu uma condenação de quase 37 anos e é alvo de uma impugnação eleitoral baseada em acusações de liderança de organização criminosa?
Essa pergunta não é exclusivamente jurídica.
É política.
É institucional.
E é, sobretudo, uma pergunta sobre os critérios utilizados pelos partidos para selecionar seus representantes.
Seria confortável tratar Binho Galinha como uma aberração individual.
O problema é que a política brasileira oferece exemplos demais de relações promíscuas entre poder, dinheiro, interesses privados e personagens envolvidos em investigações criminais.
E é justamente nesse ponto que o PT precisa ser cobrado.
Não porque o crime tenha partido de uma única legenda. Não partiu.
Mensalão, Lava Jato e outros grandes escândalos atingiram políticos de diferentes partidos e correntes ideológicas. O problema é nacional e atravessa direita, centro e esquerda.
Mas o PT possui uma particularidade histórica.
O partido chegou ao poder nacional apresentando-se como uma força política que prometia combater justamente aquilo que dizia representar a velha política: corrupção, fisiologismo, favorecimento e uso privado da máquina pública.
Depois de mais de duas décadas de presença no poder federal, entretanto, a legenda e seus governos passaram por crises políticas, escândalos de corrupção, investigações e episódios envolvendo enormes volumes de recursos públicos.
O Mensalão foi um marco.
A Operação Lava Jato foi outro.
E dirigentes históricos do partido chegaram ao banco dos réus e foram condenados no julgamento da Ação Penal 470.
Isso não permite afirmar que todo petista seja corrupto, assim como seria intelectualmente desonesto atribuir aos demais partidos todos os crimes praticados por seus integrantes.
Mas permite fazer uma pergunta legítima:
por que partidos que se apresentam como representantes da ética pública continuam mantendo relações políticas com personagens que carregam graves acusações ou condenações?
Luiz Inácio Lula da Silva foi investigado, denunciado e condenado nos processos da Lava Jato relativos ao tríplex do Guarujá e ao sítio de Atibaia.
No caso do tríplex, a condenação foi por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A decisão foi mantida em segunda instância e posteriormente a pena foi reduzida pelo Superior Tribunal de Justiça.
Lula chegou a cumprir pena de prisão e permaneceu encarcerado de abril de 2018 a novembro de 2019.
Mas a situação jurídica mudou radicalmente em 2021.
O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar quatro ações envolvendo Lula e anulou os atos decisórios praticados naquele juízo, inclusive as condenações. Os processos foram remetidos para a Justiça Federal do Distrito Federal.
Posteriormente, o Plenário do STF confirmou a competência da Justiça Federal do Distrito Federal para esses processos.
É aqui que a narrativa política precisa ser separada da realidade jurídica.
A anulação das condenações não significou uma absolvição de Lula no mérito das acusações.
Não houve uma nova sentença de mérito dizendo que Lula era inocente dos fatos pelos quais havia sido condenado.
O que ocorreu foi a anulação dos atos processuais e das condenações por uma questão de competência judicial. Em outras palavras, juridicamente, aquelas condenações deixaram de produzir efeitos.
O ponto seguinte é ainda mais importante.
Com a remessa dos processos para Brasília, seria necessário recomeçar a tramitação em outro juízo, observadas as consequências das decisões do STF sobre as provas e os atos processuais.
No caso do tríplex, porém, o Ministério Público Federal concluiu que a pretensão punitiva estava prescrita e pediu o arquivamento.
A razão incluía justamente a idade de Lula.
A legislação brasileira reduz pela metade os prazos de prescrição para pessoas que tenham mais de 70 anos. Quando o caso chegou a essa etapa, Lula tinha 76 anos.
O MPF concluiu que não havia tempo juridicamente útil para que uma nova persecução penal chegasse a uma condenação capaz de produzir efeitos antes da prescrição.
A Justiça Federal do Distrito Federal posteriormente arquivou o caso do tríplex.
Portanto, é necessário registrar com todas as letras:
Lula não foi inocentado em um novo julgamento.
As condenações anteriores foram anuladas pelo STF.
O processo foi deslocado para Brasília.
E, no caso do tríplex, a persecução penal acabou encerrada pela prescrição, em um contexto no qual a idade do ex-presidente reduziu o prazo prescricional.
Essa diferença é fundamental.
Dizer simplesmente que “Lula foi absolvido” seria juridicamente errado.
Dizer que “Lula continua condenado” também seria errado.
A formulação correta é mais incômoda para os dois lados: Lula teve condenações anuladas, não recebeu uma nova condenação válida e também não foi declarado inocente, no mérito, por uma nova sentença.
É justamente esse histórico que torna a política brasileira tão difícil de explicar ao cidadão comum.
Um político pode ser condenado e depois ter a condenação anulada.
Outro pode ser investigado durante anos e ter o processo prescrito.
Um terceiro pode estar preso e, ainda assim, ser lançado candidato.
E partidos que prometem combater a corrupção podem manter alianças com políticos sob investigação ou acusação criminal.
Tudo isso pode acontecer dentro das regras processuais existentes.
Mas o fato de algo ser juridicamente possível não significa que seja politicamente saudável.
E é aí que começa o verdadeiro debate.
Binho Galinha não é do PT.
Esse esclarecimento é indispensável.
Ele é do Avante.
Mas o Avante integra a base política do governo petista na Bahia.
Isso não autoriza afirmar que o PT tenha cometido os crimes atribuídos ao deputado, que o governador Jerônimo Rodrigues tenha participação nas acusações ou que todos os integrantes da coalizão tenham qualquer relação com a organização investigada.
Não há base para isso.
Mas existe uma questão política que precisa ser respondida:
qual é o limite das alianças?
Até onde um partido pode ir em nome de maioria parlamentar, tempo de televisão, votos, estrutura eleitoral e sobrevivência política?
Existe um momento em que o pragmatismo eleitoral deveria ceder lugar ao princípio da integridade?
Ou vale tudo desde que o candidato consiga votos?
Há uma frase recorrente na política brasileira:
“Quem escolhe é o eleitor.”
É verdade, mas apenas parcialmente.
O eleitor escolhe entre os nomes que chegam à urna.
Antes disso, os partidos escolhem quem lançar.
Escolhem quem financiar.
Escolhem quem apoiar.
Escolhem com quem fazer alianças.
Escolhem quem receberá estrutura política.
Portanto, a responsabilidade não pode ser transferida integralmente para o eleitor.
Partidos também são responsáveis pelos candidatos que apresentam à sociedade.
O PT pode argumentar que nenhum partido controla individualmente a conduta de todos os seus aliados.
É verdade.
Também pode argumentar que outros partidos tiveram integrantes envolvidos em escândalos ainda maiores.
Também é verdade.
Mas nenhuma dessas respostas elimina a questão central.
O PT chegou ao poder prometendo mudar a forma de fazer política no Brasil.
Passadas mais de duas décadas de protagonismo nacional, o País ainda convive com escândalos de corrupção, déficits bilionários, investigações, disputas sobre o uso da máquina pública e alianças políticas que aproximam partidos de personagens envolvidos em graves acusações.
Isso exige mais do que justificativas partidárias.
Exige autocrítica.
O caso Binho Galinha é apenas mais um episódio dentro de um problema muito maior.
A pergunta não deveria ser apenas:
“Por que há políticos criminosos?”
A pergunta verdadeiramente importante é:
“Por que partidos políticos continuam abrindo espaço, oferecendo legenda, estrutura e apoio eleitoral a pessoas que carregam graves suspeitas ou condenações?”
E existe uma segunda pergunta, ainda mais desconfortável:
quando o pragmatismo eleitoral passa a ser mais importante do que a integridade pública?
O problema não pertence exclusivamente ao PT.
Não pertence exclusivamente à direita.
Não pertence exclusivamente à esquerda.
Pertence ao sistema político brasileiro.
Mas o PT, por sua história, por seu discurso e pelo tempo que ocupa o centro do poder nacional, tem uma responsabilidade especial em responder por que a distância entre o discurso de combate à corrupção e determinadas alianças políticas continua sendo tão grande.
Porque, no fim, não basta perguntar quem roubou.
É preciso perguntar:
quem sabia, quem tolerou, quem protegeu, quem se aliou e quem abriu a porta?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas.
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