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Economia VAREJO EM CRISE

Casas Bahia: o retrato de uma economia empresarial sob pressão

Com dívida de R$ 17,3 bilhões, prejuízo de R$ 10,1 bilhões e quase 300 lojas fechadas, uma das maiores marcas do varejo brasileiro volta à recuperação judicial e expõe os obstáculos que as empresas enfrentam para sobreviver no País

17/08/2026 às 12h25
Por: Douglas Ferreira
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A varejista fechou cerca de 300 lojas e agora pede recuperação judicial - Foto: Reprodução
A varejista fechou cerca de 300 lojas e agora pede recuperação judicial - Foto: Reprodução

A crise da Casas Bahia deixou de ser apenas um problema de uma grande varejista. O pedido de recuperação judicial protocolado na Justiça de São Paulo, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, é mais um sinal de uma realidade empresarial brasileira que merece ser examinada sem simplificações: produzir, vender, investir, contratar, financiar e competir tornou-se uma operação de alto risco para muitas empresas.

O pedido envolve a companhia e outras nove empresas do grupo e ocorre depois de um segundo trimestre devastador. A Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões entre abril e junho, enquanto a receita líquida cresceu apenas 1,6%, para R$ 6,97 bilhões. O prejuízo ajustado, excluindo efeitos extraordinários, chegou a R$ 978 milhões, alta de 76% em relação ao mesmo período de 2025.

A dimensão do estrago aparece também na operação: aproximadamente 3 mil funcionários foram demitidos e 298 lojas fechadas em agosto. A companhia informou ainda que está reduzindo estoques, revendo contratos, despesas administrativas, investimentos e o tamanho de sua estrutura física.

Não é a primeira tentativa de sobrevivência.

Em 2024, quando acumulava aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas, a empresa já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial. Agora, dois anos depois, volta ao Judiciário com um passivo mais de quatro vezes maior.

A pergunta inevitável é: o que está acontecendo com as empresas brasileiras?

Casas Bahia aponta juros, crédito e consumo

A própria companhia identifica alguns dos fatores que levaram à deterioração de sua situação econômico-financeira: juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro, pressão sobre o consumo e dificuldade para administrar o capital de giro.

O cenário dos juros ajuda a dimensionar o problema. O Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, depois de um longo período de política monetária contracionista. Em junho, a taxa havia sido reduzida para 14,25%, mas voltou a 15% em julho, permanecendo nesse patamar em agosto. O próprio Copom afirma que o ambiente ainda combina inflação acima da meta, expectativas desancoradas e necessidade de manter a política monetária restritiva.

Para uma empresa que depende de crédito para financiar estoque, vendas parceladas, capital de giro e investimentos, juros elevados não são apenas uma questão macroeconômica.

São uma questão de sobrevivência.

Quanto maior o custo do dinheiro, maior a parcela da receita que precisa ser destinada ao serviço da dívida. E quando o consumidor também enfrenta crédito caro e renda pressionada, a empresa sofre dos dois lados: fica mais caro financiar a operação e mais difícil vender.

No caso da Casas Bahia, a pressão financeira já era evidente. O resultado financeiro líquido do segundo trimestre ficou negativo em R$ 1,278 bilhão, segundo os dados divulgados pela companhia.

O prejuízo de R$ 10,1 bilhões precisa ser interpretado

O número impressiona, mas também exige precisão.

Dos R$ 10,1 bilhões de prejuízo registrados no segundo trimestre, aproximadamente R$ 9,1 bilhões decorreram de eventos não recorrentes, incluindo baixas de ativos, despesas de reestruturação, contratos não performados e efeitos relacionados a imposto de renda diferido. Portanto, não significa que a empresa tenha simplesmente queimado R$ 10 bilhões em caixa em três meses.

Mas isso não transforma o resultado em algo irrelevante.

Mesmo descontados esses efeitos extraordinários, o prejuízo ajustado foi de R$ 978 milhões, contra R$ 555 milhões no segundo trimestre de 2025.

Ou seja: existe um problema operacional e financeiro real por trás do gigantesco número contábil.

A própria auditoria EY chamou atenção para uma incerteza relevante relacionada à continuidade operacional da companhia.

E o problema não é só da Casas Bahia

É aqui que o caso deixa de ser uma história isolada.

Dados do Monitor RGF-BIZDOC, referentes ao segundo trimestre de 2026, apontam que o Brasil encerrou junho com 6.382 empresas em recuperação judicial no chamado recorte estrito da base, alta de 6,5% no primeiro semestre e de 22% em 12 meses. Na base completa, o monitor registrava 8.080 CNPJs em recuperação judicial.

A série mostra uma deterioração significativa:

Em dezembro de 2025 eram 5.970 empresas no recorte estrito.

Em março de 2026, 6.406.

Em abril, 6.513.

Em maio, 6.341.

Em junho, 6.382.

Não se trata, portanto, de um fenômeno restrito a uma marca tradicional do varejo. Existe um estoque elevado de empresas tentando sobreviver por meio da proteção judicial.

E os números da Serasa Experian confirmam a pressão sobre o ambiente empresarial, embora utilizando metodologia diferente. No primeiro trimestre de 2026 foram registrados 194 pedidos de recuperação judicial, sendo 60 em janeiro, 58 em fevereiro e 76 em março. A Serasa, entretanto, advertiu que esses números não permitiam concluir que 2026 seria melhor do que 2025.

É importante não misturar as duas estatísticas.

A Serasa está contabilizando novos pedidos.

O RGF acompanha o estoque de empresas em recuperação.

São indicadores diferentes, mas ambos apontam para um mesmo problema: a dificuldade de empresas brasileiras em manter o equilíbrio financeiro.

Afinal, por que está tão difícil empreender no Brasil?

A resposta não pode ser reduzida a um único culpado.

Não é apenas juros.

Não é apenas imposto.

Não é apenas legislação trabalhista.

Não é apenas insegurança jurídica.

O problema parece ser uma combinação de fatores que, juntos, comprimem a margem de sobrevivência das empresas.

1. Juros elevados

É provavelmente o fator mais imediato no caso da Casas Bahia.

Crédito caro significa dívida mais cara, capital de giro mais caro, investimento mais caro e financiamento ao consumidor mais caro.

Empresas altamente alavancadas sentem primeiro.

2. Crédito mais restrito

Quando os bancos percebem aumento do risco, tornam-se mais seletivos.

E empresas que precisam refinanciar dívidas podem descobrir que o dinheiro que estava disponível ontem deixou de estar disponível hoje.

A Casas Bahia chegou ao pedido judicial depois de enfrentar dificuldades para encontrar alternativas de financiamento e captação.

3. Consumo pressionado

O varejo depende diretamente da capacidade de compra das famílias.

Quando o consumidor reduz o volume de compras, parcela menos ou posterga a aquisição de bens duráveis, empresas com estruturas gigantescas de lojas, funcionários, logística e estoque sentem rapidamente.

4. Carga tributária e complexidade fiscal

Aqui existe um problema que não deve ser tratado apenas pela ótica do tamanho da carga.

A carga tributária bruta brasileira alcançou 32,40% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional.

Mas para uma empresa, tão importante quanto o percentual total é a complexidade do sistema.

São obrigações acessórias, diferentes regras, tributos federais, estaduais e municipais, regimes distintos, mudanças frequentes, contencioso tributário e custos elevados de conformidade.

A reforma tributária promete simplificação no longo prazo, mas a transição também cria um período de adaptação e incerteza para as empresas.

Portanto, a pergunta não deveria ser simplesmente “a carga é alta?”.

Deveria ser:

quanto custa para uma empresa cumprir todas as regras tributárias brasileiras?

5. Legislação trabalhista

A legislação trabalhista protege direitos fundamentais e não pode ser tratada simplesmente como um obstáculo ao emprego.

Mas existe outra discussão legítima: o custo total da contratação formal e a insegurança decorrente do contencioso trabalhista.

Para grandes empresas, milhares de empregados significam uma estrutura permanente de salários, encargos, benefícios, treinamento, segurança, saúde ocupacional, rescisões e passivos potenciais.

O desafio é encontrar equilíbrio entre proteção ao trabalhador e previsibilidade para quem emprega.

6. Insegurança jurídica

Este talvez seja um dos fatores menos visíveis e mais importantes.

Investimento exige previsibilidade.

Uma empresa precisa saber quais serão as regras tributárias, ambientais, trabalhistas, regulatórias e concorrenciais durante o período necessário para recuperar o capital investido.

Quando regras mudam frequentemente ou decisões judiciais alteram significativamente o ambiente de negócios, aumenta o prêmio de risco.

Capital, naturalmente, procura segurança.

7. Baixa produtividade e custo Brasil

Uma empresa brasileira não compete apenas com outra empresa brasileira.

Ela compete com produtos fabricados na China, no Vietnã, no México, nos Estados Unidos e em dezenas de outros países.

Quando energia, logística, infraestrutura, burocracia, crédito, impostos e mão de obra encarecem a operação, a empresa brasileira começa a competir em desvantagem.

Isso é particularmente grave no setor industrial.

Uma fábrica não pode simplesmente fechar a porta durante alguns meses e esperar o consumidor voltar.

Ela precisa manter máquinas, trabalhadores especializados, energia, fornecedores, manutenção, logística e capital.

8. Falta de capital de longo prazo

Outro problema estrutural é a dificuldade de financiar investimentos de longo prazo a custos competitivos.

Indústria, tecnologia, infraestrutura e inovação exigem capital paciente.

Quando o empresário precisa trabalhar com dinheiro caro e prazo curto, torna-se racional adiar investimentos.

E uma economia que investe pouco perde produtividade.

O drama do setor fabril

Se o varejo sente imediatamente a redução do consumo, a indústria enfrenta uma combinação ainda mais complexa.

Produzir no Brasil envolve impostos, energia, transporte, infraestrutura, mão de obra, máquinas, crédito, importação de componentes e burocracia.

A indústria ainda enfrenta a competição internacional.

Por isso, o problema não é apenas “falta de incentivo”.

É a necessidade de construir um ambiente no qual produzir no Brasil seja economicamente competitivo.

Incentivo fiscal isolado pode ajudar uma empresa ou um setor, mas não substitui produtividade, infraestrutura, segurança jurídica, crédito de longo prazo e regras previsíveis.

Recuperação judicial virou instrumento de sobrevivência

A recuperação judicial não significa necessariamente que uma empresa deixou de existir.

É um mecanismo legal para permitir a reorganização de uma companhia em dificuldade, preservando, quando possível, sua atividade econômica, empregos e capacidade de pagamento.

O problema aparece quando a recuperação deixa de ser exceção e passa a ser recorrente.

No caso da Casas Bahia, a empresa já havia recorrido à recuperação extrajudicial em 2024.

Agora, em 2026, retorna à Justiça.

E o estoque monitorado pelo RGF mostra que milhares de outras empresas estão enfrentando situação semelhante.

O que está em jogo

A crise empresarial não é apenas uma questão de empresários e acionistas.

Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, a conta se espalha.

Atinge funcionários.

Fornecedores.

Transportadoras.

Bancos.

Prestadores de serviços.

Shopping centers.

Pequenos comerciantes.

Arrecadação de impostos.

Fundos de investimento.

E, finalmente, o consumidor.

Quando uma companhia fecha centenas de lojas e demite milhares de trabalhadores, o impacto econômico ultrapassa muito o balanço patrimonial.

A Casas Bahia é um exemplo emblemático.

Uma marca que durante décadas esteve presente na vida de milhões de brasileiros agora precisa recorrer novamente à Justiça para tentar reorganizar uma dívida de R$ 17,3 bilhões.

A pergunta que o Brasil precisa responder

Não basta perguntar por que a Casas Bahia chegou a esse ponto.

É preciso perguntar por que tantas empresas estão chegando ao mesmo lugar.

É o juro?

É o crédito?

É a carga tributária?

É a complexidade fiscal?

É a legislação trabalhista?

É a insegurança jurídica?

É a burocracia?

É a falta de infraestrutura?

É a baixa produtividade?

É a concorrência internacional?

É a ausência de capital de longo prazo?

A resposta mais provável não está em um único desses fatores.

Está na soma deles.

E esse talvez seja o aspecto mais preocupante da crise.

Uma empresa pode sobreviver a um imposto alto.

Pode sobreviver a juros elevados.

Pode sobreviver a uma queda temporária nas vendas.

Pode sobreviver à burocracia.

Pode sobreviver à concorrência.

O que ameaça sua existência é ter de enfrentar tudo isso simultaneamente.

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, portanto, não deveria ser visto apenas como a crise de uma varejista tradicional.

É um alerta sobre o ambiente em que empresas brasileiras estão tentando produzir, investir, contratar e competir.

E quando empresas deixam de investir, fábricas deixam de ampliar a produção, lojas fecham e milhares de trabalhadores perdem seus empregos, a discussão deixa de ser empresarial.

Passa a ser uma discussão sobre o futuro da própria economia brasileira.

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