
Para variar, o governo brasileiro não apenas age tardiamente, como dificilmente terá êxito em sua investida de reciprocidade. O momento de agir para reduzir ou neutralizar o tarifaço já passou. A diplomacia de Lula da Silva perdeu o time. E, em comércio exterior, não existe botão de voltar para refazer a jogada.
Nesta quinta-feira, 13 de agosto, o governo finalmente abriu o processo para avaliar a adoção de medidas de reciprocidade contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos. A Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior, a Camex, encaminhou o pleito aos integrantes do Comitê Executivo de Gestão e o Itamaraty solicitou consultas diplomáticas a Washington.
Mas é preciso entender o que isso significa. O Brasil ainda não aplicou nenhuma tarifa de retaliação aos Estados Unidos. O que começou agora é o processo previsto na Lei nº 15.122/2025. Antes de qualquer contramedida, haverá análise técnica e consultas diplomáticas.
Ou seja, Brasília está começando a preparar a resposta quando a ofensiva comercial americana já está em vigor.
Os Estados Unidos adotaram, em julho, duas sobretaxas adicionais com base na Seção 301. Uma delas, de 25%, foi direcionada especificamente ao Brasil. A outra, de 12,5%, decorre da investigação americana sobre políticas relacionadas ao combate ao trabalho forçado e alcança outros países.
Segundo o próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as duas medidas atingem conjuntamente 23,1% das exportações brasileiras, enquanto 52,7% permanecem sem tarifas adicionais setoriais ou específicas contra o Brasil. Portanto, é preciso evitar também o exagero de dizer que todos os produtos brasileiros estão submetidos a uma tarifa de 37,5%. A combinação máxima incide apenas sobre determinados produtos enquadrados nas medidas.
Ainda assim, o problema é grande. E poderia ter sido enfrentado antes.
O governo brasileiro teve meses para negociar. O próprio MDIC registra que equipes brasileiras mantiveram reuniões de alto nível com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Foram cinco reuniões desde maio. Em 14 de julho, véspera da decisão americana sobre a sobretaxa específica contra o Brasil, Brasília ainda reiterava que as medidas eram injustas e pedia negociação.
Washington, entretanto, avançou.
Em 15 de julho, o USTR anunciou a tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, depois de uma investigação de um ano que incluiu questões como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol ao mercado brasileiro e desmatamento.
Oito dias depois, veio a segunda pancada. O USTR estabeleceu mais 12,5% para o Brasil no âmbito da investigação sobre trabalho forçado. A medida atingiu 60 economias, com 41 delas submetidas à alíquota de 12,5% e outras 19 a 10%.
Agora o governo brasileiro corre para abrir o processo de reciprocidade.
É legítimo fazer isso. A Lei da Reciprocidade existe justamente para permitir uma resposta brasileira a medidas unilaterais que prejudiquem a competitividade do país. Mas a questão é outra: por que a engrenagem da reciprocidade não foi acionada com a mesma velocidade com que Washington construiu sua ofensiva?
O comércio exterior exige pragmatismo. Não ideologismo.
Negociar comércio com base em alinhamento ideológico é apostar no fracasso. Países não fazem política comercial para agradar amigos. Fazem para defender seus interesses.
E aqui aparece a outra ponta da contradição brasileira: a China.
Pequim, o "mui amigo" de Lula, também apertou o cerco sobre um dos principais produtos brasileiros.
Mas é preciso colocar os números na mesa corretamente.
A China não impôs uma tarifa geral de 55% sobre todas as exportações brasileiras. A medida é uma salvaguarda para a carne bovina, válida para todos os países exportadores. Para o Brasil, Pequim estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas em 2026. Dentro dessa cota, permanece a tarifa regular de 12%.
O problema começa quando a cota é ultrapassada.
Sobre o volume excedente incide uma sobretaxa de 55%. Na prática, somada à tarifa regular de 12%, a carga pode chegar a 67% sobre a carne que exceder a cota. A medida foi anunciada no fim de 2025 e está prevista para vigorar até 31 de dezembro de 2028.
E a cota brasileira praticamente já foi consumida.
Em junho, segundo levantamento baseado nos dados oficiais de comércio, a cota de 1,106 milhão de toneladas já havia sido integralmente utilizada pelos embarques brasileiros. Dados posteriores mostram que a pressão sobre as exportações se intensificou, com a China se aproximando do limite de desembaraço e o excedente sujeito à sobretaxa.
É um golpe importante porque a China é o principal mercado da carne bovina brasileira.
E aqui está a pergunta incômoda: onde estava a diplomacia brasileira quando Pequim decidiu proteger sua pecuária e limitar o espaço da carne brasileira em seu mercado?
Silêncio.
Calado. Caladinho. Pianinho.
Afinal, com a China foi diferente. Foi fogo amigo.
Daquele que arde, queima, cria bolha, abre ferida, inflama, cria pus, mas ninguém pode dizer nada. Tem que sofrer calado.
Tudo em nome da ideologia.
Só que Xi Jinping foi pragmático.
Negócio é negócio. Ideologia à parte.
A China quer proteger sua produção interna de carne bovina. Os Estados Unidos querem proteger interesses comerciais e industriais americanos. Cada potência joga de acordo com seus interesses.
É assim no mundo real.
E deveria ser assim também para o Brasil.
O problema não é o Brasil negociar com os Estados Unidos. Nem negociar com a China. O problema é negociar com um e silenciar diante do outro.
Reciprocidade tem hora e lugar. E precisa ser utilizada como instrumento de negociação, não como gesto político para consumo interno.
No caso brasileiro, a resposta aos Estados Unidos chega agora, depois de uma sequência de decisões americanas já formalizadas. A abertura do processo desta quinta-feira é importante, mas não significa retaliação imediata. O próprio governo reconhece que a primeira etapa será a consulta diplomática, com o objetivo de tentar mitigar ou anular os efeitos das medidas americanas.
Enquanto isso, Brasília também precisa lidar com outra acusação de Washington. O governo Trump passou a apontar o Brasil como possível corredor de "transbordo" de mercadorias, numa estrutura que, segundo os americanos, poderia permitir que produtos fossem redirecionados ou reclassificados antes de entrar no mercado dos Estados Unidos.
É mais uma frente de pressão comercial.
E é justamente aí que a diplomacia deveria ter sido mais rápida, mais técnica e menos política.
O governo brasileiro afirma que contestou as acusações americanas e considera as tarifas injustificadas e arbitrárias. Washington, por sua vez, sustenta que suas medidas decorrem de investigações realizadas durante meses e de práticas que considera prejudiciais ao comércio americano. O USTR afirma ter realizado consultas com dezenas de governos, audiências públicas e recebido milhares de manifestações antes das decisões.
Ou seja, não foi uma decisão tomada da noite para o dia.
Houve tempo para negociação.
Houve tempo para argumentação.
Houve tempo para pressão diplomática.
E houve tempo para preparar uma resposta comercial.
Agora, o governo corre atrás.
A Lei da Reciprocidade pode oferecer instrumentos importantes. Mas reciprocidade não é simplesmente colocar uma tarifa brasileira igual à tarifa americana. A resposta precisa considerar o tamanho do comércio bilateral, os produtos atingidos, o impacto sobre consumidores e empresas brasileiras e a capacidade real de Washington de absorver ou redirecionar seus prejuízos.
Porque existe uma diferença brutal entre retaliar e vencer uma negociação.
O Brasil precisa entender isso.
E precisa entender também que comércio exterior não é política partidária.
Não existe amigo permanente. Não existe inimigo permanente. Existe interesse nacional permanente.
Foi isso que Pequim fez. É isso que Washington está fazendo.
E é isso que Brasília deveria fazer.
Agora, só resta mesmo o jus sperniandi, o direito de espernear.
Mas é tarde.
Muito tarde.
No popular, Lula, o governo e a diplomacia brasileira precisam entender uma velha expressão que continua atualíssima: Inês é morta.
A questão, daqui para frente, é saber quanto custará ao Brasil ter perdido o momento certo de agir.
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