
A situação se complica para o Brasil, para os exportadores, para o governo e para o próprio presidente Lula. Desta vez, porém, o cenário é diferente. O governo brasileiro não apenas demorou a reagir às medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos, como, em vários momentos, preferiu elevar o tom político nas relações diplomáticas com Washington.
Entretanto, a nova sanção anunciada pelos americanos não tem relação direta com os atritos políticos recentes. O fundamento apresentado pelo governo dos Estados Unidos é outro: a suposta falta de mecanismos eficazes para impedir que produtos ligados ao trabalho escravo ou a condições análogas à escravidão integrem as cadeias globais de produção.
O problema é delicado. Casos de trabalho escravo contemporâneo continuam sendo registrados no Brasil, e o tema volta a ganhar repercussão internacional. Há, inclusive, denúncias envolvendo empresas estrangeiras instaladas no país, entre elas companhias chinesas beneficiadas por incentivos públicos, acusadas de explorar trabalhadores em condições degradantes. Para Washington, essa situação é incompatível com as regras de concorrência internacional.
Desta vez, o governo Lula encontra dificuldades para construir uma narrativa política que transfira a responsabilidade a adversários internos ou externos. O argumento americano está baseado em uma investigação sobre práticas comerciais e direitos humanos, o que reduz o espaço para o discurso de perseguição política. Em outras palavras, resta ao governo enfrentar o problema de frente.
O impacto econômico tende a ser significativo. Os exportadores brasileiros, que já passaram a enfrentar uma tarifa de 25%, agora poderão arcar com uma sobretaxa adicional de 12,5%, elevando a carga total para até 37,5% em parte dos produtos exportados para os Estados Unidos. Na prática, isso compromete a competitividade de diversos setores da indústria e do agronegócio brasileiro no mercado internacional.
A nova tarifa faz parte de uma ofensiva comercial dos Estados Unidos contra dezenas de parceiros comerciais considerados pouco rigorosos no combate à circulação de produtos fabricados com trabalho forçado. Segundo Washington, a ausência de controles eficazes permite que insumos produzidos sob condições degradantes ingressem nas cadeias produtivas, gerando concorrência desleal para a indústria americana.
O relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) menciona cinco cadeias produtivas relacionadas ao Brasil, alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco. O documento não afirma que esses produtos sejam necessariamente produzidos no Brasil mediante trabalho escravo, mas sustenta que mercadorias dessa natureza passaram pelo mercado brasileiro antes de integrar o comércio internacional.
Embora o Brasil esteja entre os países atingidos, ele não é um caso isolado. Outras dezenas de economias, inclusive aliados históricos dos Estados Unidos, também foram alvo das novas tarifas. Ainda assim, para o setor produtivo brasileiro, o resultado é preocupante: aumento de custos, perda de competitividade, risco de retração nas exportações e mais um desafio para uma economia que já enfrenta dificuldades para crescer.
Na tentativa de reduzir os impactos, o governo federal anunciou um pacote de R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito destinadas às empresas afetadas. No entanto, especialistas alertam que crédito não elimina o problema. Em muitos casos, significa apenas mais endividamento para empresas que já terão suas margens de lucro reduzidas pelas novas barreiras comerciais.
No fim das contas, quem paga essa conta é o setor produtivo nacional. A indústria perde mercado, parte do agronegócio vê sua competitividade diminuir e o governo enfrenta mais um desgaste em pleno período eleitoral. A pergunta que fica é inevitável: e agora, José?
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