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Davi alcolumbre, a mentira tem perna curta - e os prints não esquecem, “meu amor!”

Em Brasília, o que se afirma de manhã, de meio-dia à tarde nega-se sem nenhum constrangimento. Quando a negativa envolve escândalo, esse tempo diminui sensivelmente.

25/09/2026 às 07h56 Atualizada em 25/09/2026 às 08h10
Por: Douglas Ferreira
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Vorcaro e Alcolumbre trocaram mensagem que denotam proximidade - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA
Vorcaro e Alcolumbre trocaram mensagem que denotam proximidade - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA

Via de regra, presidentes das Casas Legislativas, no Brasil, alcançados por denúncias começam negando. Depois, quando documentos, depoimentos e fatos aparecem, a realidade costuma cobrar a conta. É o que registra a história recente do Congresso Nacional.

Foi assim com Severino Cavalcanti e Eduardo Cunha. Ambos chegaram ao comando da Câmara e, diante de graves acusações, reagiram negando as irregularidades. Severino acabou renunciando à Presidência e ao próprio mandato em 2005. Cunha renunciou à Presidência da Câmara em 2016, depois de já estar afastado por decisão do Supremo.

No caso de Ibsen Pinheiro, há uma diferença importante: ele não renunciou. Em 1994, teve o mandato cassado pela Câmara dos Deputados, no episódio que ficou conhecido como escândalo dos Anões do Orçamento.

Agora, a história chega ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

E chega com uma pergunta incômoda: afinal, quem era Daniel Vorcaro para Alcolumbre?

Em junho deste ano, segundo a revista Veja, depois que veio a público uma proposta de delação de Vorcaro na qual o banqueiro prometia falar sobre supostos pagamentos ao senador, Alcolumbre negou as acusações e, em uma reunião com colegas, teria chegado a afirmar que sequer conhecia o banqueiro. A Veja relata que Vorcaro se oferecia para revelar supostos repasses de US$ 30 milhões a Alcolumbre, alegação que o senador classificou como falsa.

O problema é que, quatro meses depois, surgiram mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro que colocam essa história sob uma luz completamente diferente.

Não se trata de uma fotografia distante, de um encontro casual ou de uma lista de convidados. São mensagens trocadas diretamente entre os dois.

Em 1º de fevereiro de 2025, justamente no dia em que Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, Vorcaro o parabenizou: “Parabéns meu amigo. Que venham seus melhores anos!”

No dia seguinte, veio a resposta de Alcolumbre:

“Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!”

Pouco mais de um mês depois, em 30 de março, o tom continuou longe de qualquer relação meramente protocolar.

“Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!”, escreveu Alcolumbre.

Vorcaro respondeu com corações e uma frase que, no mínimo, chama atenção:

“E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer.”

As mensagens foram divulgadas pela Veja e tiveram o conteúdo confirmado pela Folha.

Ora, uma coisa é dizer que não há ilegalidade nas mensagens. Outra, completamente diferente, é dizer que elas não revelam intimidade.

Revelam.

E revelam pelas palavras do próprio presidente do Senado.

“Meu amor.”

“Amizade fraterna.”

“Sou seu irmão.”

“Pra vida toda.”

Não é preciso ser investigador da Polícia Federal, promotor de Justiça ou especialista em ciência política para compreender que esse vocabulário não descreve uma relação de desconhecidos.

É justamente aí que mora o problema político, e jornalístico, da história.

Como alguém que, segundo a Veja, chegou a negar sequer conhecer Vorcaro aparece depois, em mensagens extraídas pela Polícia Federal, tratando o banqueiro como “meu amor” e “irmão pra vida toda”?

A pergunta não acusa. A pergunta cobra coerência.

E a resposta precisa ser dada por Alcolumbre.

O presidente do Senado reagiu à reportagem classificando-a como “mais um injusto ataque”, afirmando que as mensagens seriam de teor pessoal e que “não indicam ilegalidade alguma”. A assessoria também acusou a Veja de sensacionalismo e informou que medidas judiciais seriam adotadas.

É preciso registrar a defesa.

Mas também é preciso registrar os fatos.

Até porque uma investigação sobre possíveis irregularidades não se resume à existência ou inexistência de uma mensagem carinhosa. Proximidade não é prova de crime. Amizade não é prova de corrupção. Uma conversa privada, isoladamente, não demonstra pagamento, propina ou favorecimento ilícito.

Mas, da mesma forma, não se pode transformar uma relação de proximidade documentada em uma relação inexistente apenas porque isso é mais conveniente à narrativa política.

E é exatamente por isso que os prints são tão incômodos.

Porque a memória de Brasília pode ser seletiva. A versão oficial pode mudar. O discurso pode ser reformulado. A assessoria pode emitir nota. Advogados podem preparar ações judiciais.

Mas as mensagens permanecem.

É o velho e infalível ditado popular: mentira tem perna curta.

Em tempos de WhatsApp, prints, nuvens digitais e celulares apreendidos pela Polícia Federal, essa perna ficou ainda menor.

A negativa atribuída a Alcolumbre, segundo a Veja, apareceu em junho. As mensagens vieram a público em 24 de setembro. Foram, portanto, cerca de quatro meses entre uma versão e a revelação de conversas que mostram algo muito diferente da imagem de desconhecimento apresentada anteriormente.

E há ainda outro detalhe que torna o caso mais sensível.

As mensagens não aparecem no vazio. Elas surgem dentro de uma investigação maior envolvendo o Banco Master, Vorcaro, autoridades e relações políticas em Brasília. Outros diálogos também mencionam Alcolumbre, inclusive conversas relacionadas a eventos e articulações envolvendo personagens do alto escalão da República. A Folha relata, por exemplo, mensagens em que Vorcaro menciona Alcolumbre em conversas com Fábio Faria e outro diálogo em que Hugo Motta afirma que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, iria à casa de Alcolumbre após uma reunião.

Nada disso, isoladamente, prova crime.

Mas tudo isso aumenta a necessidade de esclarecimento.

Porque quem ocupa a Presidência do Senado não ocupa apenas uma cadeira. Ocupa uma posição central na República. Controla a pauta de uma das Casas do Congresso, participa de decisões institucionais relevantes e exerce influência política extraordinária.

Por isso, quanto maior o poder, maior deveria ser a obrigação de transparência.

O caso, portanto, não deveria ser tratado apenas como uma briga entre um senador e uma revista.

A questão central é muito maior:

Qual era, afinal, a natureza da relação entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro?

Se era apenas amizade, que se diga claramente.

Se havia negócios, que sejam esclarecidos.

Se houve encontros, que se explique em que circunstâncias.

Se houve pressão política, que se investigue.

Se houve dinheiro, que se prove ou se descarte com documentos.

E se as acusações forem falsas, como sustenta Alcolumbre, cabe às autoridades e à Justiça estabelecer isso de forma objetiva.

O que não parece mais sustentável, diante das mensagens, é a ideia de que Vorcaro era simplesmente um desconhecido.

Porque desconhecidos não costumam ser chamados de “meu amor”.

E muito menos de “irmão pra vida toda”.

Em Brasília, talvez seja possível negar pela manhã aquilo que se disse à noite. O problema é quando aparece o print.

O print não tem compromisso com a versão. Tem compromisso com o que foi escrito.

E, neste caso, o que foi escrito agora está diante de todos.

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