
Há uma diferença importante entre deixar o país, descumprir uma determinação judicial e ser considerado fugitivo. Misturar essas situações não é apenas um problema de linguagem. É uma forma de induzir o público a uma conclusão que os fatos, por si sós, não autorizam.
No caso do senador Flávio Bolsonaro, é preciso colocar as coisas no devido lugar. Ele deixou o Brasil em meio a um ambiente de forte tensão política e jurídica, envolvendo decisões do Supremo Tribunal Federal. É investigado, mas não foi condenado nos procedimentos mencionados. Portanto, não se pode apresentá-lo ao público como se fosse um criminoso condenado que escapou para evitar o cumprimento de uma pena.
E há um detalhe que merece atenção: a própria Polícia Federal, ao se manifestar sobre o caso, esclareceu que a existência de uma restrição de viagem, isoladamente, não transforma uma pessoa em fugitiva nem justifica, por si só, uma prisão. Isso é muito diferente de afirmar que a PF declarou Flávio inocente ou que não houve eventual descumprimento de uma ordem judicial.
A distinção é necessária justamente para que o debate não seja contaminado por versões convenientes.
O que causa estranheza é a insistência de parte da imprensa em utilizar a palavra “fuga” como um carimbo. Portais, emissoras de rádio e televisão repetem o termo diariamente, muitas vezes sem explicar o contexto, as circunstâncias e, principalmente, a diferença entre uma investigação, uma ordem judicial e uma condenação.
A palavra deixa de ser uma descrição e passa a funcionar como instrumento de desqualificação política.
É evidente que a imprensa tem o direito de questionar a saída de Flávio Bolsonaro, cobrar explicações e discutir o eventual descumprimento de determinações judiciais. Isso faz parte do jornalismo. O que não parece aceitável é transformar uma interpretação política em verdade jurídica, tratando um senador investigado como se já tivesse sido condenado e estivesse oficialmente na condição de foragido.
A história brasileira oferece exemplos que ajudam a compreender essa diferença.
Durante o regime militar, políticos, intelectuais e artistas deixaram o país para escapar da perseguição política. Miguel Arraes, deposto do governo de Pernambuco e preso após o "golpe" de 1964, seguiu para o exílio na Argélia.
Fernando Henrique Cardoso também se exilou, passando pelo Chile e pela França.
Gilberto Gil e Caetano Veloso, depois de presos pela "ditadura", foram para Londres, onde permaneceram por mais de dois anos.
Hoje, esses nomes são lembrados por setores importantes da sociedade como vítimas da repressão e símbolos da resistência democrática.
Alguém os chamaria de criminosos ou fugitivos simplesmente porque deixaram o Brasil para preservar a própria liberdade? Ou reconheceria que procuraram proteção diante de um Estado que ameaçava seus direitos e suas vidas?
É justamente essa reflexão que precisa ser feita quando se fala da família Bolsonaro. Jair Bolsonaro está preso em decorrência de uma condenação relacionada à acusação de tentativa de golpe de Estado - que nunca existiu -, decisão que seus apoiadores consideram controversa e injusta.
Flávio e Eduardo Bolsonaro, por sua vez, também afirmam estar submetidos a um ambiente de perseguição política e insegurança jurídica. Na avaliação de seus defensores, a saída do país representa uma tentativa de preservar a liberdade, a integridade pessoal e a segurança familiar diante do que consideram excessos e injustiças de integrantes do próprio sistema de Justiça.
Pode-se discordar dessa interpretação, questioná-la e exigir explicações. O que não se pode é transformar automaticamente a decisão de deixar o território nacional em prova de culpa ou em sentença de condenação pública.
Também é legítimo que seus apoiadores interpretem sua saída como uma decisão de proteção pessoal e familiar diante do que consideram um ambiente de perseguição política. Flávio pode ser visto, por esse grupo, como alguém que procura se afastar de ataques, acusações e narrativas que considera injustas. Mas essa é uma interpretação política sobre suas motivações, não uma conclusão oficial sobre o motivo de sua viagem.
Se a imprensa deseja preservar sua credibilidade, precisa abandonar o vocabulário de militância e recuperar o compromisso com a precisão. Não se pode exigir responsabilidade de políticos e autoridades enquanto se utiliza a força da comunicação para antecipar julgamentos e condenações que não existem.
Flávio Bolsonaro não deve ser chamado de fugitivo apenas porque deixou o Brasil. E, se seus adversários insistem em usar a palavra fuga, que ao menos tenham a honestidade de explicar que se trata de uma caracterização política, não de uma condição jurídica automaticamente reconhecida pela Polícia Federal.
Na visão de seus apoiadores, se existe uma fuga nessa história, Flávio estaria tentando escapar da perseguição, das injúrias, das narrativas maldosas, dos ataques de caluniadores e de decisões de ministros do STF que consideram abusivas e oportunistas. Também é essa a leitura de quem enxerga no governo Lula um ambiente de intolerância contra a oposição.
åSão avaliações políticas que precisam ser identificadas como tais, sem serem confundidas com fatos comprovados.
Uma imprensa que se apresenta como séria, democrática e independente não pode transformar uma palavra carregada de significado criminal em bordão de campanha. Repetir dez vezes por dia que alguém “fugiu” não torna a afirmação verdadeira.
Apenas revela a intenção de fixar uma imagem negativa na opinião pública.
Jornalismo não é tribunal, manchete não é sentença e investigação não é condenação. A imprensa pode criticar Flávio Bolsonaro, pode questionar suas decisões e pode cobrar explicações. O que não pode é abandonar a precisão dos fatos para fazer da linguagem uma arma política.
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