
As urnas são abertas em todo o país. Está em curso uma das eleições de segundo turno mais importantes e acompanhadas da história recente do Brasil. A mídia tradicional insiste na tese de que esta é a disputa presidencial mais apertada desde a redemocratização. Mas será mesmo? É uma pergunta legítima. E merece uma resposta que vá além das manchetes.
Parte dos institutos de pesquisa aponta uma diferença mínima entre os candidatos. O problema é que alguns desses levantamentos chegam à reta final depois de resultados que não corresponderam às urnas no primeiro turno. Daí surge outra pergunta: o que dizem os institutos que mais se aproximaram do resultado efetivo? E, sobretudo, o que revelam os números sobre a distância entre os candidatos?
Na pesquisa do Instituto Gerp, a vantagem atribuída a Flávio Bolsonaro sobre Lula da Silva chega a sete pontos percentuais na intenção de voto para o segundo turno, segundo o levantamento citado nesta análise. Uma diferença dessa magnitude não pode ser tratada como irrelevante. Em uma eleição presidencial, alguns pontos percentuais representam milhões de votos. É preciso, contudo, considerar a data da pesquisa, a metodologia, a margem de erro e a diferença entre intenção de voto e resultado efetivo.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se a disputa está apertada. É compreender por que levantamentos diferentes apresentam cenários distintos e até que ponto a narrativa do equilíbrio absoluto corresponde ao conjunto das evidências disponíveis.
Há, ainda, um componente político que merece atenção: a mobilização popular.
Por onde passou, Flávio Bolsonaro reuniu apoiadores em manifestações, carreatas e atos públicos. Houve mobilização também em Estados do Nordeste, região historicamente importante para o desempenho eleitoral de Lula. No Norte, no Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul, a campanha do PL buscou demonstrar força nas ruas.
Outro fenômeno foram os chamados Bloquinhos do 22, mobilizações impulsionadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira, que ampliaram a presença digital e física da campanha oposicionista. A estratégia apostou na participação de apoiadores, na circulação de vídeos e na capacidade de mobilização das redes sociais.
Lula, por sua vez, também contou com atos públicos e mobilização da militância petista. As duas campanhas, entretanto, trabalharam com estruturas, estratégias e bases de apoio distintas.
A oposição apresentou sua mobilização como espontânea e orgânica. Já os críticos do petismo questionaram a dependência de estruturas partidárias, transporte de participantes e outras formas de organização dos atos governistas. Alegações sobre pagamentos a manifestantes, porém, exigem evidências específicas. Não basta a presença de ônibus ou a distribuição de alimentos para concluir que houve compra de apoio.
E por falar em eventos de campanha, os chamados showmícios também entram na discussão. A legislação eleitoral brasileira proíbe a realização de shows artísticos remunerados para animar comícios e reuniões eleitorais, ressalvadas as hipóteses legais aplicáveis. Se houve alguma irregularidade, cabe à Justiça Eleitoral apurá-la com base em fatos e provas. A fiscalização não pode depender da preferência política de quem denuncia ou de quem é denunciado.
Mas o ponto central desta eleição vai além das pesquisas, das multidões e dos embates entre militantes.
A pergunta que precisa ser respondida é esta: a disputa está realmente tão equilibrada quanto parte da cobertura jornalística sugere ou a percepção de empate decorre da seleção de determinados levantamentos e interpretações?
Questionar pesquisas, confrontar metodologias e exigir transparência são atitudes legítimas em uma democracia. O que não se pode fazer é transformar suspeitas em certezas, impressões em provas ou divergências estatísticas em evidências de fraude.
O Brasil já atravessou eleições marcadas por controvérsias políticas e questionamentos sobre a apuração. Por isso, a confiança pública no processo eleitoral deve ser tratada com seriedade. Isso não significa presumir irregularidades, mas reconhecer que a credibilidade de uma eleição depende também da capacidade das instituições de explicar, demonstrar e tornar verificáveis os procedimentos adotados.
Não estamos acusando candidatos, institutos ou instituições. Estamos levantando questionamentos que fazem parte do debate público. Não há, neste texto, prova de fraude ou de manipulação da totalização. Há uma preocupação com a confiança do eleitor, preocupação que precisa ser enfrentada com informações verificáveis, não com insinuações.
A expectativa é que a apuração transcorra sem interrupções relevantes, com sistemas funcionando adequadamente, boletins de urna acessíveis e resultados passíveis de conferência. Se houver falhas técnicas, que sejam explicadas. Se houver questionamentos fundamentados, que sejam examinados. Se surgirem provas de irregularidades, que sejam investigadas pelos órgãos competentes.
Porque a democracia não termina quando o eleitor aperta a tecla de confirmação da urna eletrônica. Ela também exige apuração íntegra, fiscalização, transparência e respeito às regras estabelecidas.
Chegou a hora de votar. De exercer esse direito fundamental sem medo, sem coerção e sem que a preferência política de cada cidadão seja tratada como motivo de hostilidade.
Que vença o candidato escolhido livremente pelo eleitor brasileiro. E que o resultado, qualquer que seja, seja sustentado por uma apuração transparente, verificável e conduzida dentro da lei.
A democracia não exige que todos concordem com o resultado. Exige que todos possam confiar nas regras, fiscalizar o processo e reconhecer a vontade soberana das urnas quando ela estiver devidamente apurada.
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