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O Custo do Populismo: Como o Brasil Perdeu Duas Décadas e Ficou para Trás na América do Sul

Dinheiro novo jorrou nos cofres públicos a níveis inéditos

24/10/2026 às 12h18
Por: Arthur Feitosa Fonte: Arthur Feitosa
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O Custo do Populismo: Como o Brasil Perdeu Duas Décadas e Ficou para Trás na América do Sul

Para o cidadão que observa o dia a dia das ruas, a evolução da qualidade de vida no Brasil ao longo das últimas duas décadas carrega a marca de uma imensa oportunidade perdida. Em primeiro lugar, vale restabelecer a precisão da história: a narrativa de que o Bolsa Família nasceu como uma criação original em 2003 ignora o fato de que o programa consistiu no agrupamento e na renomeação de uma rede de proteção social já estruturada na gestão de Fernando Henrique Cardoso, que incluía o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Cartão Alimentação e o Auxílio Gás. A unificação operacional facilitou a gestão administrativa, mas a apropriação política desse arranjo transformou um instrumento de assistência social em uma ferramenta permanente de dividendo eleitoral.

​Olhando para o cenário sul-americano desde o início do século vinte e um até o presente momento de 2026, a frustração do brasileiro ganha contornos dramáticos. O planeta vivenciou, especialmente nos anos 2000, o maior ciclo de valorização de commodities das últimas gerações, impulsionado pela demanda voraz da China. Dinheiro novo jorrou nos cofres públicos a níveis inéditos. Contudo, enquanto países vizinhos aproveitaram essa janela única para realizar reformas estruturais, modernizar infraestruturas e elevar a produtividade nacional, a opção do partido governante no Brasil foi canalizar esse fluxo extraordinário para a ampliação do gasto corrente, a expansão do crédito artificial e a consolidação de uma hegemonia partidária.

​Comparar a trajetória brasileira com a dos pares regionais expõe a gravidade do atraso acumulado. O Chile, ao longo desse período, consolidou sua posição no topo do Índice de Desenvolvimento Humano da América do Sul, ostentando a maior renda per capita da região e integrando a OCDE graças a marcos regulatórios estáveis e à abertura comercial. O Uruguai manteve a liderança em coesão social, qualidade institucional e estabilidade das regras do jogo político, oferecendo aos seus cidadãos serviços públicos previsíveis e segurança jurídica. O Peru e a Colômbia, apesar de suas severas turbulências políticas internas, mantiveram responsabilidade macroeconômica e reformas que permitiram ao Peru crescer a taxas asiáticas durante anos, reduzindo a pobreza de forma acelerada por meio da geração de empregos formais. Até mesmo o Paraguai, historicamente com indicadores mais modestos, aproveitou as últimas duas décadas para atrair investimentos fabris e agrícolas com uma carga tributária simples e um ambiente de negócios enxuto.

​O Brasil, por outro lado, estagnou na produtividade por trabalhador. A política econômica adotada no ciclo populista priorizou o estímulo ao consumo imediato em detrimento da capacidade de investimento produtivo. Em vez de construir ferrovias, portos, saneamento básico universal e um sistema de ensino público capaz de preparar a juventude para a economia do conhecimento, os governos federais optaram por inchar a máquina pública, criar campeões nacionais com subsídios bilionários do BNDES e multiplicar ministérios e cargos comissionados para sustentar governabilidade no Congresso Nacional.

​O resultado do projeto focado na manutenção do poder e não na consolidação de uma política de Estado manifestou-se de forma devastadora na grande crise fiscal e recessiva da década de 2010. A destruição das contas públicas, alimentada pela maquiagem fiscal e pelo desrespeito explícito às regras da Lei de Responsabilidade Fiscal, arrastou o país para uma queda do PIB sem precedentes em tempos de paz. O cidadão pagou essa conta na forma de desemprego em massa, inflação corroendo o poder de compra no supermercado e sucateamento brutal dos serviços essenciais. A ilusão de ascensão social mantida por crédito fácil ruiu rapidamente, devolvendo milhões de famílias à vulnerabilidade social.

​Ao longo desses mais de vinte anos, enquanto o chileno viu sua infraestrutura rodoviária e urbana avançar e o uruguaio manteve uma rede pública de ensino forte, o cidadão brasileiro permaneceu refém de índices alarmantes de criminalidade nas grandes cidades, redes hospitalares com filas degradantes e uma educação básica estagnada nas últimas posições do exame PISA. O Estado brasileiro consome quase um terço de tudo o que a sociedade produz em impostos, mas entrega serviços que forçam a classe média a pagar duas vezes: uma ao leão do Imposto de Renda e outra ao contratar planos de saúde privados, escolas particulares e vigilância comunitária.

​A opção do Partido dos Trabalhadores por um projeto de perpetuação política minou as bases fiscais do país. Ao ignorar que a responsabilidade fiscal é a única garantia real da responsabilidade social, o governo fragilizou a moeda e afastou investimentos estrangeiros diretos de longo prazo, aqueles que geram tecnologia e empregos de alta qualificação. A Venezuela representa o extremo catastrófico desse modelo estatizante e autoritário na América do Sul, servindo de alerta máximo sobre o custo do desmonte das instituições econômicas. O Brasil não chegou ao colapso venezuelano, mas pagou o preço de viver em um voo de galinha permanente, alternando pequenos surtos de crescimento impulsionados por fatores externos com longos períodos de estagnação e crise fiscal.

​Chega-se ao final de 2026, com o país imerso na disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva, buscando um quarto mandato, e Flávio Bolsonaro, carregando a constatação empírica de que o rendimento médio do trabalhador brasileiro pouco avançou em termos reais nas últimas duas décadas se comparado aos países que fizeram a lição de casa. A população brasileira perdeu a oportunidade de dar o salto definitivo rumo ao grupo das nações de renda alta. A insistência em tratar a gestão pública como balcão de distribuição de benefícios eleitorais e a recusa histórica em respeitar marcos de responsabilidade fiscal deixaram o Brasil para trás na América do Sul, legando ao cidadão comum uma rotina de impostos europeus e retornos sociais de terceiro mundo.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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