Sábado, 24 de Outubro de 2026
28°

Tempo limpo

Teresina, PI

Política ÚLTIMO DEBATE

Debate na Globo: propostas, acusações e confronto marcam o último duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro

Economia, endividamento, saúde, segurança pública e programas sociais dominaram o encontro; no bloco final, a discussão cedeu espaço a acusações pessoais e casos que marcaram a campanha

24/10/2026 às 09h12 Atualizada em 24/10/2026 às 09h22
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
O debate foi marcado pela apresentação de debates, mas também por ataques mútuos - Foto: Reprodução
O debate foi marcado pela apresentação de debates, mas também por ataques mútuos - Foto: Reprodução

O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), exibido pela TV Globo na noite de sexta-feira, 23 de outubro, foi marcado por dois movimentos distintos: nos primeiros blocos, os candidatos discutiram propostas para áreas como economia, infraestrutura, saúde e segurança; no encerramento, o confronto ganhou tom mais pessoal, com acusações relacionadas ao Banco Master, ao filho do presidente e a uma disputa imobiliária envolvendo o advogado Willer Tomaz. O encontro ocorreu a dois dias do segundo turno, marcado para domingo, 25 de outubro.

Economia e custo de vida: a disputa pelo bolso do eleitor

O debate começou com infraestrutura, exportações e custo de vida. Lula defendeu investimentos em estradas, portos e aeroportos, além de mencionar a conclusão de projetos como a transposição do Rio São Francisco e a Ferrovia Transnordestina.

Flávio concentrou parte de seus questionamentos no preço dos alimentos, no endividamento das famílias e nos gastos públicos. Prometeu reajustes do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação, conclusão de obras paradas e pedágio gratuito para motocicletas em novas rodovias.

Lula criticou as propostas econômicas do adversário e comparou sua visão de política fiscal às medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei. Flávio rebateu, afirmando que pretende reduzir desperdícios, corrupção e burocracia sem comprometer os programas sociais.

O endividamento das famílias voltou ao centro da discussão. Flávio acusou o governo de ampliar gastos sem resolver a perda de poder de compra e afirmou que o brasileiro passou a parcelar até itens básicos. Lula reconheceu que as dívidas representam um problema sério e defendeu os programas Desenrola implementados por sua gestão, além de anunciar a intenção de ampliar medidas de renegociação.

A tarifa zero no transporte público e a escala de trabalho 6x1 também apareceram no debate. Flávio manifestou apoio à gratuidade no transporte público e prometeu elevar o salário mínimo acima da inflação, compromisso que Lula também apresentou como parte de sua política econômica.

Saúde e políticas sociais: SUS, licença-maternidade e Bolsa Família

Na discussão sobre políticas sociais, Lula e Flávio trocaram argumentos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a licença-maternidade, o Bolsa Família e a situação da população em situação de rua.

Questionado sobre seu voto contrário, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, a uma proposta de ampliação da licença-maternidade de 120 para 180 dias, Flávio afirmou que havia mudado de opinião. Disse que hoje reconhece a importância de ampliar o período de convivência entre mãe e filho.

O senador também propôs a compra de dívidas de pessoas físicas e jurídicas, com adiamento dos pagamentos por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas. Lula respondeu que seu governo já havia apresentado iniciativas de renegociação de dívidas.

Na saúde, Flávio apontou filas, dificuldades de acesso a especialistas e problemas na distribuição de medicamentos. Defendeu combater desperdícios e melhorar a gestão dos recursos. Lula, por sua vez, ressaltou o papel do SUS durante a pandemia de Covid-19 e responsabilizou o governo de Jair Bolsonaro pela condução da crise sanitária.

Os dois também abordaram o Bolsa Família. Flávio prometeu manter o programa, enquanto Lula defendeu as políticas sociais de sua gestão e questionou as consequências que eventuais cortes de despesas poderiam ter para a população de baixa renda.

Segurança pública: o caso Ana Clara entra no debate

A segurança pública foi um dos momentos mais tensos do encontro. Flávio defendeu a retomada de territórios dominados pelo crime organizado e criticou a política de saídas temporárias de presos. Também propôs classificar facções criminosas como organizações narcoterroristas.

Lula questionou a posição do adversário sobre o policial militar acusado pela morte de Ana Clara, menina de cinco anos atingida por um disparo durante uma operação policial no Rio de Janeiro, em 2021. O presidente perguntou por que Flávio havia participado da defesa do agente.

O senador manifestou solidariedade à família, mas sustentou que não há provas de que o policial tenha efetuado o disparo fatal. Flávio integrou a equipe de defesa e assinou, em 2024, um recurso ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão que encaminhou o caso a júri popular. A acusação, portanto, não equivale a uma condenação definitiva.

O episódio levou uma questão judicial para o centro do confronto político: de um lado, Lula explorou a atuação de Flávio na defesa do policial; de outro, o senador invocou a insuficiência de provas que, segundo ele, liguem o agente à morte da criança.

O tom dos candidatos: provocações, recuos e ataques pessoais

O comportamento dos dois mudou ao longo do programa. Nos blocos com temas definidos, houve espaço para propostas, embora acompanhado de críticas mútuas. No bloco de temas livres, o confronto tornou-se mais pessoal.

Um dos episódios ocorreu quando Flávio usou a expressão “nove dedos” para se referir a Lula. O presidente reagiu, lembrando que perdeu um dedo em um acidente de trabalho quando era metalúrgico. Mais tarde, Flávio pediu desculpas pela expressão, mas aproveitou a ocasião para cobrar do adversário manifestações de solidariedade a brasileiros endividados, mulheres vítimas de violência e pessoas em situação de rua.

O pedido de desculpas representou um recuo pontual na linguagem do senador, sem interromper a sequência de ataques. Lula também elevou o tom em diferentes momentos e, ao final, reconheceu que havia falado de forma mais exaltada.

A dinâmica do debate, assim, não pode ser resumida apenas às frases de efeito. Houve propostas concretas, compromissos que exigem detalhamento e acusações que precisam ser verificadas separadamente. O comportamento dos candidatos deve ser observado à luz desses diferentes elementos, sem confundir agressividade retórica com comprovação factual.

Banco Master, Vorcaro e a disputa sobre patrimônio

No último bloco, a discussão se concentrou em acusações envolvendo patrimônio, relações pessoais e o caso Banco Master.

Lula questionou Flávio sobre uma disputa pela posse de uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, envolvendo o jogador Richarlison e o advogado Willer Tomaz, apontado pelo presidente como amigo e sócio do senador. Flávio negou que a ilha tivesse pertencido ao jogador e contestou a caracterização de Tomaz como seu sócio.

Em seguida, Flávio questionou Lula sobre um uísque que, segundo o senador, teria custado R$ 500 mil. Lula respondeu mencionando Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e fez acusações contra o adversário.

Esses episódios levaram o debate para um terreno diferente daquele das propostas de governo. As alegações apresentadas pelos candidatos precisam ser examinadas individualmente, com base em documentos e registros verificáveis. A simples menção a uma pessoa, a uma empresa ou a uma investigação não comprova, por si só, irregularidade de quem foi citado.

O que ficou de propostas concretas?

O debate apresentou compromissos em várias áreas, mas nem todos foram acompanhados de detalhamento suficiente para avaliar custos, fontes de financiamento, prazos ou mecanismos de execução.

Economia e emprego

  • Flávio Bolsonaro: reajuste do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação, redução de desperdícios e renegociação de dívidas.

  • Lula: continuidade das políticas de valorização do salário mínimo, programas de renegociação e investimentos em infraestrutura.

 

Infraestrutura e transporte

  • Flávio Bolsonaro: conclusão de obras paradas e pedágio gratuito para motocicletas em novas rodovias.

  • Lula: conclusão de projetos como a transposição do São Francisco e a Ferrovia Transnordestina, além de investimentos em estradas, portos e aeroportos.

 

Saúde e proteção social

  • Flávio Bolsonaro: revisão da gestão dos recursos do SUS, combate a desperdícios e manutenção do Bolsa Família.

  • Lula: defesa do SUS, continuidade dos programas sociais e ampliação das iniciativas de renegociação de dívidas.

 

Segurança pública

  • Flávio Bolsonaro: retomada de territórios dominados por facções e endurecimento da política contra o crime organizado.

  • Lula: defesa de sua atuação na segurança e contestação das posições do adversário, em especial no caso Ana Clara.

Esses compromissos são os pontos centrais registrados na cobertura do debate. Para uma comparação completa dos programas, seria necessário confrontá-los com os documentos oficiais das candidaturas, incluindo metas, custos e cronogramas.

Síntese final: propostas no início, confronto no encerramento

O último debate da Globo teve uma estrutura relativamente clara: economia, infraestrutura e custo de vida abriram espaço para discussões sobre saúde, políticas sociais e segurança pública. No bloco final, as acusações pessoais ganharam protagonismo e reduziram o espaço para a apresentação de novas propostas.

Lula recorreu à defesa dos resultados de seu governo e à contestação das posições de Flávio. O senador insistiu no endividamento, no custo de vida, na segurança pública e na necessidade de reduzir desperdícios. Ambos alternaram exposição de propostas e ataques ao adversário.

O balanço factual é que houve compromissos de governo, mas também promessas que ainda exigem explicações sobre viabilidade e execução. A intensidade dos confrontos não substitui essa análise: o eleitor precisa distinguir o que cada candidato prometeu, o que já foi realizado por seus governos ou grupos políticos e o que depende de decisões futuras.

O debate terminou sem uma conclusão objetiva sobre quem apresentou o melhor desempenho. Essa avaliação envolve critérios distintos e percepções individuais. O que pode ser examinado de maneira verificável são as propostas, as respostas dadas, as contradições identificáveis e a sustentação documental das acusações feitas durante o programa.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários