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O Brasil depois das urnas: a conta que o próximo presidente não poderá evitar

Campanha termina, mas os problemas continuam. Entre o desequilíbrio fiscal, a falta de propostas consistentes e o empobrecimento do debate público, o Brasil chega à eleição diante de questões que nenhum discurso será capaz de apagar

23/10/2026 às 09h15
Por: Douglas Ferreira
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Capa de Crusoé - Foto: Reprodução
Capa de Crusoé - Foto: Reprodução

A reportagem de capa da revista Crusoé, intitulada O que restou do Brasil, publicada em 23 de outubro de 2026, lança uma pergunta incômoda sobre o futuro do país: o que sobrará depois que a disputa eleitoral terminar e a propaganda der lugar à realidade?

O texto parte de uma constatação contundente: “O Brasil tem, a partir da noite de 25 de outubro, um compromisso com os seus problemas.”

É uma frase curta, mas que resume o tamanho do desafio. Durante semanas, o país acompanhou ataques, promessas, acusações e tentativas de conquistar votos. Enquanto isso, questões estruturais permaneceram em segundo plano. A campanha ocupou o palco. Os problemas ficaram nos bastidores, à espera de quem terá de enfrentá-los.

A conta pública não desaparece com a eleição

Ao analisar o governo Lula, a Crusoé afirma que o presidente passou os últimos dois meses deteriorando ainda mais as contas públicas com benefícios eleitorais, na esperança de permanecer no poder.

A expressão “benesses eleitoreiras” é forte e traduz a crítica central da reportagem: a possibilidade de decisões tomadas para produzir dividendos políticos imediatos cobrarem um preço econômico posteriormente.

A questão merece atenção porque dinheiro público não surge por mágica. Gastos precisam ser financiados, receitas precisam sustentá-los e dívidas precisam ser pagas. Quando a política fiscal perde credibilidade, os efeitos podem alcançar os juros, o investimento, o crescimento econômico e o orçamento das próprias famílias.

Isso não significa que toda política social seja irresponsável, nem que todo aumento de despesa seja necessariamente prejudicial. O ponto é outro: benefícios precisam ter financiamento, objetivos claros e sustentabilidade. Usar a máquina pública para conquistar popularidade sem enfrentar as consequências fiscais é trocar um problema de hoje por uma conta potencialmente maior amanhã.

E a conta não respeita calendário eleitoral. Ela chega depois da votação, independentemente de quem comemore a vitória.

Flávio Bolsonaro também precisa responder

A reportagem não poupa o senador Flávio Bolsonaro. Segundo o trecho publicado, enquanto Lula apostava em medidas de apelo eleitoral, o candidato adversário concentrou parte de sua energia em se defender das acusações do petista, especialmente das críticas relacionadas aos programas sociais, em vez de apresentar caminhos para melhorar a economia.

É uma observação que merece ser levada a sério.

Uma candidatura de oposição não pode se limitar a denunciar os erros do governo. Precisa demonstrar como pretende fazer diferente. Criticar o adversário pode render manchetes e mobilizar apoiadores, mas não substitui um programa econômico consistente.

Como reduzir o peso da dívida pública? Como elevar a produtividade? Como estimular investimentos, ampliar empregos formais e melhorar a renda? Como garantir políticas sociais sem comprometer o equilíbrio das contas públicas?

Essas são perguntas que exigem respostas concretas, não apenas frases de efeito.

A crítica, porém, precisa ser dimensionada: o fato de a reportagem apontar a ausência de propostas no debate eleitoral não prova, por si só, que não existam propostas nas candidaturas. O que revela é um problema de comunicação e prioridade política: se as alternativas econômicas não chegam com clareza ao eleitor, o debate perde qualidade e a população fica sem elementos suficientes para comparar projetos.

A morte do debate e a política do espetáculo

A edição da Crusoé amplia essa reflexão com outra reportagem, intitulada A morte do debate, de Wilson Lima. O texto observa que Lula e Flávio Bolsonaro passaram boa parte da eleição evitando dividir o mesmo palco.

O dado simbólico é preocupante. O confronto público de ideias não é um detalhe protocolar da democracia. É uma oportunidade para o eleitor avaliar argumentos, identificar contradições e cobrar explicações diretamente de quem deseja governar.

Quando o debate é substituído por vídeos editados, frases de impacto, ataques nas redes sociais e discursos dirigidos exclusivamente à própria militância, a política corre o risco de virar uma disputa de narrativas. Cada lado fala para os seus, enquanto as questões que afetam a vida de todos ficam sem resposta.

A campanha moderna exige comunicação eficiente. Isso é inegável. Mas comunicar não é o mesmo que explicar, assim como viralizar não significa apresentar uma solução.

Uma democracia não se fortalece quando os candidatos conseguem evitar perguntas difíceis. Fortalece-se quando são obrigados a respondê-las.

A fumaça que contradiz o discurso ambiental

Outra reportagem da edição, Fumaça do amor, de Wal Lima, coloca em evidência o contraste entre a promoção internacional da agenda ambiental do governo Lula e a persistência de problemas concretos de poluição em Manaus.

O tema remete a uma contradição que precisa ser enfrentada por qualquer governo: anunciar compromissos ambientais no exterior não basta quando a população continua exposta a problemas ambientais dentro do próprio país.

A defesa da Amazônia exige mais do que cerimônias, conferências e discursos. Exige políticas públicas efetivas, fiscalização, planejamento e capacidade de transformar compromissos em resultados verificáveis.

O mesmo princípio vale para todas as áreas da administração pública. Não basta anunciar desenvolvimento, é necessário produzi-lo. Não basta prometer saúde, é preciso garantir atendimento. Não basta falar em responsabilidade fiscal, é preciso demonstrá-la nas contas. E não basta defender o meio ambiente, é necessário enfrentar a degradação onde ela acontece.

O problema que atravessa os dois candidatos

A edição também apresenta a análise Contra toda esperança, de Roberto Ellery, com uma crítica mais ampla: nem Lula nem Flávio Bolsonaro estariam apresentando propostas suficientes para elevar a produtividade do país.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para além da disputa eleitoral.

O Brasil precisa crescer de maneira sustentável, produzir mais e melhor, melhorar a educação, qualificar trabalhadores, ampliar a infraestrutura e criar condições para que empresas invistam e gerem empregos. Sem ganhos de produtividade, o crescimento tende a encontrar limites, e a promessa de melhorar a renda da população se torna mais difícil de cumprir.

Não se trata de uma questão ideológica. Países não enriquecem apenas porque seus governantes anunciam boas intenções. Enriquecem quando conseguem criar condições para produzir riqueza, distribuí-la com responsabilidade e ampliar oportunidades.

Por isso, o próximo presidente terá de responder a uma cobrança que vai além do resultado das urnas: qual é o plano para fazer o Brasil avançar?

A eleição acaba. A realidade permanece.

A contribuição mais relevante da edição da Crusoé está em deslocar o olhar da disputa imediata para os problemas que continuarão existindo depois da apuração.

Lula terá de responder pelos rumos das contas públicas e pelos resultados de seu governo. Flávio Bolsonaro, caso eleito, precisará demonstrar que a crítica ao adversário pode ser transformada em propostas viáveis e execução competente. Nenhum dos dois poderá governar indefinidamente como se a responsabilidade pelos problemas pertencesse apenas ao outro.

O Brasil precisa de equilíbrio fiscal sem irresponsabilidade social, crescimento econômico sem promessas vazias, proteção ambiental sem propaganda e uma política capaz de discutir soluções em vez de viver permanentemente em campanha.

O eleitor escolhe o presidente, mas não escolhe quais problemas o país terá de enfrentar. Esses problemas já estão postos. A diferença estará na capacidade de reconhecê-los, estabelecer prioridades e apresentar resultados.

No fim, a pergunta não é apenas quem vencerá a eleição. É o que o vencedor fará com o país que receberá.

Porque ganhar uma disputa eleitoral é conquistar o poder. Governar é assumir a responsabilidade pela realidade.

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