
Aqui pelas bandas do Nordeste, quando alguém está blefando, enrolando ou faltando com a verdade, costuma-se dizer que está tentando aplicar uma “chave três oitavo de anel”. Pois bem, é justamente esse o sentimento que a proposta de Lula de abrir os sigilos dos dois candidatos parece despertar entre seus críticos. Afinal, desafiar o adversário a revelar informações não é o mesmo que demonstrar disposição para uma transparência efetiva.
Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancário e telefônico. Depois, protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) uma petição para pedir a divulgação dos dados bancários, fiscais e telefônicos dos dois presidenciáveis. A pergunta que fica é simples: estamos diante de um compromisso real com a transparência ou de uma jogada política calculada para produzir manchetes na reta final da eleição?
O histórico de sigilos impostos pelo governo Lula alimenta a desconfiança de seus adversários. Informações sobre despesas de Janja e registros relacionados a viagens em aeronaves privadas, por exemplo, já foram objeto de controvérsias públicas. Para os críticos do petista, soa contraditório defender a abertura de dados dos candidatos enquanto o próprio governo acumula mais de 3 mil episódios de restrição de acesso a informações de interesse público.
Também é preciso separar patrimônio declarado de movimentações financeiras. Os bens formalmente registrados pelos candidatos foram informados à Justiça Eleitoral, conforme as regras aplicáveis. Isso, porém, não responde automaticamente a todas as perguntas sobre origem de recursos, operações financeiras ou eventuais relações econômicas. Da mesma forma, suspeitas e insinuações não constituem prova de irregularidade.
É nesse cenário que Flávio Bolsonaro resolveu dobrar a aposta. Nesta quarta-feira (21), durante agenda em Guarulhos, ao lado do governador Tarcísio de Freitas, o senador afirmou que aceita abrir seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, desde que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, faça o mesmo.
Com isso, o senador da um nó na proposta de Lula da Silva.
Para a oposição, Flávio deu um "xeque mate".
No xadrez, xeque-mate é o lance que encerra a partida porque o rei está ameaçado e não existe nenhuma jogada legal capaz de salvá-lo. Quem aplica o xeque-mate vence a partida.
A condição muda o eixo do debate. Em vez de simplesmente aceitar o desafio lançado pelo presidente, Flávio amplia a cobrança e inclui alguém que integrou a estrutura do Palácio do Planalto. A pergunta agora é se Lula também aceitaria submeter pessoas de seu entorno político ao mesmo padrão de transparência que exige do adversário.
Marcola é citado no debate político em meio a questionamentos sobre relações com personagens investigados e suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e Roberta Luchsinger. É fundamental, contudo, distinguir relações mencionadas, suspeitas investigadas e responsabilidades comprovadas. A existência de questionamentos não autoriza concluir, sem provas, que alguém participou de um esquema criminoso.
Embora Marcola apareça em mensagens no celular de Vorcaro como "pombo correio" de Vorcaro em mensagens a Lula.
Há ainda outro ponto que merece atenção: a abertura de sigilos não pode ser tratada como espetáculo eleitoral. Dados bancários, fiscais e telefônicos são protegidos por regras legais, e sua divulgação precisa observar os limites jurídicos aplicáveis. Transparência não significa exposição indiscriminada, mas esclarecimento legítimo, com critérios iguais e procedimentos legais.
No fim das contas, o eleitor tem motivos para desconfiar de desafios lançados em plena campanha. Lula quer que Flávio abra seus sigilos; Flávio responde que abre os próprios se Marcola também abrir os dele. Agora, a discussão deixa de ser apenas uma disputa de frases e passa a exigir respostas concretas.
Se a proposta de Lula é mesmo demonstrar quem tem algo a esconder, o caminho é apresentar critérios claros, aceitar o mesmo padrão de escrutínio e explicar por que a transparência deve valer para uns e não para outros. Caso contrário, para os críticos, tudo não passará de um factóide, um "traque político", ou, na linguagem popular nordestina, mais uma tentativa de aplicar a famosa “chave três oitavo de anel”.
Não necessariamente no adversário, mas no eleitor.
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