
A vitória eleitoral do grupo político que domina o Piauí oferece uma lição amarga sobre o uso impiedoso da máquina pública. O cenário revalida a triste realidade de que é substancialmente mais fácil subjugar um povo mantido sob a tutela da necessidade do que conscientizar uma sociedade anestesiada por benesses de curto prazo. Quando a miséria e a dependência econômica são transformadas em estratégia de perpetuação no poder, a democracia deixa de ser um exercício de soberania popular e passa a ser um balcão de negócios.
Superado o pleito, a mecânica da vitória revela-se sem disfarces. Quem guarda o mínimo de independência intelectual e se libertou da dependência dos auxílios estatais testemunhou a engrenagem em sua plenitude: uma cooptação financeira ostensiva e implacável. Políticos com e sem mandato, lideranças comunitárias e intermediários de votos foram sistematicamente cooptados por uma infantaria armada com recursos vultosos. Dinheiro que deveria edificar hospitais, estruturar estradas, atrair indústrias e gerar empregos dignos foi pulverizado na compra da consciência popular. Trata-se de uma perversidade econômica e social: o próprio cidadão, ao pagar impostos extorsivos sobre o pão e o café no mercado do bairro, financia sem saber a corrente que o agrilhoa.
Contudo, se a máquina administrativa garantiu os números na urna, o palanque pós-eleitoral tratou de despir o governante de qualquer ilusão de grandeza moral. Em um espetáculo estarrecedor e descontrolado, o governador reeleito desceu aos porões da baixaria política. Tomado por uma soberba desmedida ou por eflúvios de um descontrole que dispensa diagnósticos, o chefe do Executivo estadual lançou mão de um linguajar vulgar e destrambelhado para atacar a honra do senador Ciro Nogueira, mandando-o publicamente para a "puta que o pariu" e alcunhando-o de "vagabundo".
Ao agredir moralmente o adversário e desacatar a figura de sua mãe em praça pública, o governador não atingiu apenas um opositor político: atingiu e profanou a honra de todas as mães e famílias piauienses que optaram por não se curvar ao seu projeto de poder. O homem investido do cargo mais alto do Estado, cuja obrigação precípua seria zelar pela liturgia, pelo exemplo e pela unidade do povo, preferiu nivelar o debate público pela sarjeta. Revelou-se, sob a casca do gestor técnico, a estatura apequenada de um homenzinho sem compostura e sem escrúpulos.
Esse descontrole vulgar não é inédito na história da humanidade; é o sintoma clássico da embriaguez do poder. Na Roma Antiga, o imperador Calígula (Caio César) iniciou seu mandato sob o aplauso das massas, ostentando uma falsa aura de moderação. Bastou-lhe, porém, a consolidação do poder absoluto para que a máscara caísse ruidosamente. Calígula foi tomado por uma arrogância delirante. Passou a desprezar as instituições, ridicularizou o Senado, profanou a honra das famílias nobres e usou a praça pública não para governar como missão, mas como palco de suas excentricidades, ofensas vulgares e desatinos pessoais. Ele acreditava que a púrpura imperial o tornara soberano absoluto, imune às leis, à moral e à civilidade. Calígula desceu ao lugar comum dos tiranetes insignificantes: entrou para a história não como um estadista, mas como uma triste e grotesca caricatura do despotismo.
O governador do Piauí ensaia passos idênticos aos do tiranete romano. Acredita que a caneta pesada e a fartura do orçamento lhe conferem licença para o descalabro, para a insolência e para a profanação da honra alheia. Pedidos de desculpas balbuciados a posteriori, movidos por mero cálculo de danos, não apagam a mancha de quem demonstrou total incapacidade de honrar a liturgia do cargo que ocupa. A agressão desferida em praça pública permanece registrada como a prova inequívoca de um caráter moldado pela vaidade e pelo desprezo aos governados.
Restam àqueles que ainda preservam a dignidade e a memória de suas famílias o repúdio veemente a essa postura vil. E restam aos familiares do próprio governante as preces sinceras para que o Sagrado lhe conceda um pingo de humildade e lucidez. Pois a história é implacável: o poder temporário passa, as estruturas da cooptação ruem, mas a deshonra e a pequenez moral de quem usou o mandato para insultar mães e achincalhar o povo ficam gravadas para sempre na memória de um Estado.
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