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Política IMPEACHMENT?

Nikolas Ferreira endurece o discurso contra Moraes e expõe uma linha que já ultrapassa sua atuação pessoal

A frase “sem anistia, imperdoável” não foi dirigida aos condenados do 8 de Janeiro, mas ao próprio Alexandre de Moraes. O discurso revela uma disposição de confronto que encontra respaldo em setores importantes do PL e ganha peso diante da nova composição do Senado

07/10/2026 às 15h10
Por: Douglas Ferreira
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Nikolas Ferreira diz que com Moraes não tem negociação, mas responsabilização - Foto: Reprodução
Nikolas Ferreira diz que com Moraes não tem negociação, mas responsabilização - Foto: Reprodução

A declaração de Nikolas Ferreira (PL-MG) ao Metrópoles tem um significado político mais específico do que pode parecer à primeira leitura. Quando afirma “sem anistia, sem anistia”, ele não está falando de anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro. O alvo é Alexandre de Moraes. O deputado está dizendo que, na hipótese de uma mudança de cenário político com eventual vitória de Flávio Bolsonaro, não haveria acordo para preservar o ministro de responsabilização política ou judicial. O próprio Nikolas explicita a consequência que defende: impeachment e prisão.

A expressão “imperdoável”, portanto, funciona como uma declaração de ruptura. O recado é dirigido primeiro a Moraes, mas também a qualquer interlocutor que imagine ser possível uma composição entre o STF e o grupo político bolsonarista depois da eleição. Nikolas chega a ironizar uma eventual aproximação do ministro com o bolsonarismo e afirma que não haverá “aceno” para ele. É uma maneira de dizer que, pelo menos para essa corrente política, eventual tentativa de reconciliação não apagaria o conflito produzido pelos processos relacionados ao 8 de Janeiro.

É apenas Nikolas?

Os fatos indicam que não se trata de um pensamento isolado, embora seja necessário fazer uma distinção importante: não se pode atribuir a todos os integrantes do PL exatamente o mesmo discurso de Nikolas, especialmente quando ele fala em “cadeia” para Moraes. O que existe, porém, é uma convergência documentada de setores relevantes do partido em duas questões: anistia para os condenados do 8 de Janeiro e responsabilização de ministros do STF.

Em abril, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), defendeu publicamente a anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e criticou o que classificou como severidade das penas e condenações em massa.

No Senado, Carlos Portinho (PL-RJ) já havia participado de manifestação contra eventual acordo entre Congresso e STF para produzir uma solução alternativa ao projeto de anistia. A nota, assinada também por Rogério Marinho, sustentava que um entendimento dessa natureza poderia ferir a separação dos Poderes.

E há um dado ainda mais significativo: uma representação de impeachment contra Alexandre de Moraes apresentada em setembro reuniu entre seus signatários Magno Malta, Wilder Morais, Astronauta Marcos Pontes e Jaime Bagattoli, todos do PL, além de outros parlamentares de partidos aliados. Em março, outra representação havia sido subscrita por uma extensa relação de deputados do PL, entre eles Carlos Jordy, Caroline de Toni, Gustavo Gayer, Sanderson e outros.

Portanto, Nikolas não inventou sozinho essa linha de enfrentamento. Ele dá a ela uma formulação particularmente dura e explícita. O discurso de “não haverá acordo” é dele; a contestação ao tratamento dado pelo STF aos processos do 8 de Janeiro e a defesa de mecanismos de responsabilização de ministros encontram respaldo em uma parcela expressiva do PL.

E o novo Senado?

É aqui que a declaração ganha uma dimensão maior.

Nas eleições de 4 de outubro, o PL elegeu 19 dos 54 novos senadores, passando a somar 28 cadeiras no Senado a partir de 2027, a maior bancada da Casa.

Entre os novos senadores do partido estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, no Distrito Federal; Carlos Bolsonaro, em Santa Catarina; Carlos Portinho e Carlos Jordy, no Rio de Janeiro; Gustavo Gayer, em Goiás; Filipe Barros, no Paraná; Sanderson, no Rio Grande do Sul; Carol de Toni, em Santa Catarina; Zé Medeiros, em Mato Grosso; além de outros nomes identificados com o campo bolsonarista ou com a oposição ao governo Lula.

Isso não significa que os 28 senadores do PL necessariamente votarão da mesma maneira em um eventual processo contra Moraes. Uma bancada partidária não é um bloco juridicamente obrigado a votar em conjunto, e posicionamentos individuais ainda precisarão ser conhecidos. Mas o resultado eleitoral criou um ambiente parlamentar no qual temas como impeachment de ministros do STF, anistia e revisão das decisões relacionadas ao 8 de Janeiro terão, potencialmente, muito mais espaço político.

O Senado, aliás, possui papel constitucional central nesse assunto: cabe à Casa processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. E já em setembro de 2026 havia senadores defendendo publicamente a abertura de procedimentos contra Moraes.

O que a frase de Nikolas realmente anuncia

A declaração pode ser lida, portanto, como um aviso político antecipado: caso o grupo de Flávio Bolsonaro chegue ao Palácio do Planalto, Nikolas sinaliza que não considera desejável uma política de conciliação com Alexandre de Moraes. E mais: ele defende que os episódios envolvendo o ministro sejam tratados como matéria de responsabilização, não de negociação.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre o discurso político e o resultado jurídico. Impeachment depende do procedimento constitucional e da atuação do Senado; prisão depende de processo e decisão judicial competente. Uma declaração de um deputado, por mais expressiva que seja, não produz nenhuma dessas consequências automaticamente.

O que mudou, entretanto, foi o peso parlamentar potencial desse discurso. Em 4 de outubro, o eleitorado renovou dois terços do Senado. O PL conquistou 19 dessas 54 cadeiras e passou a ser a maior bancada.

Assim, “sem anistia, imperdoável” é mais do que uma frase de Nikolas Ferreira. É uma expressão radical de uma corrente política que já possui representantes relevantes no Congresso e que agora terá uma bancada numericamente muito maior no Senado. O que ainda não está definido é até onde essa disposição de confronto chegará quando sair do palanque e entrar no processo institucional.

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