
O 7 de outubro entrou definitivamente para o calendário das grandes tragédias contemporâneas. Há três anos, o Hamas liderou um ataque contra comunidades israelenses e um festival de música no sul de Israel que matou cerca de 1.200 pessoas e levou 251 reféns para Gaza. Entre as vítimas estavam crianças, jovens, mulheres, idosos e famílias inteiras.
Não foi uma batalha convencional. Foi um ataque deliberado contra civis, marcado por assassinatos, sequestros e violência. Por isso, independentemente das posições políticas sobre o conflito que veio depois, o massacre de 7 de outubro não pode ser relativizado, justificado ou apagado da memória histórica.
E é justamente a memória que está em jogo.
O mundo pode - e deve - discutir as mortes de palestinos, a destruição de Gaza, as decisões do governo israelense e a necessidade de uma solução política para o conflito. Uma vida palestina vale tanto quanto uma vida israelense. Mas reconhecer o sofrimento palestino não exige apagar o sofrimento israelense. Condenar ações do governo de Israel não exige relativizar os crimes cometidos pelo Hamas.
É preciso, portanto, separar as coisas.
No Brasil, essa discussão ganhou contornos políticos especialmente delicados por causa das declarações e posições do governo Lula. Há um fato que precisa ser registrado com precisão: em outubro de 2023, Lula afirmou que o Brasil não classificava o Hamas como organização terrorista porque seguia a classificação do Conselho de Segurança da ONU, mas disse expressamente que o ataque de 7 de outubro havia sido um ato terrorista.
Também é fato que dirigentes do Hamas elogiaram publicamente Lula em diferentes momentos. Em março de 2024, Basem Naim, chefe de relações políticas e internacionais do grupo, afirmou estar “honrado” pelas declarações do presidente brasileiro e agradeceu sua posição em defesa da causa palestina e pelo cessar-fogo.
Mas há um episódio que não pode ser omitido quando se analisa a relação política desse discurso com o Hamas. Em fevereiro de 2024, Lula comparou a ofensiva israelense em Gaza ao extermínio promovido por Adolf Hitler contra os judeus durante o Holocausto. A declaração provocou uma crise diplomática com Israel, que classificou a fala como antissemita e declarou Lula persona non grata até que houvesse uma retratação. O Hamas, por sua vez, elogiou publicamente a declaração do presidente brasileiro, considerando positiva sua comparação entre a ação de Israel e os crimes nazistas.
É justamente esse episódio que, desde então, passou a ser interpretado por críticos de Lula como uma demonstração de simpatia política pelo Hamas e, em setores mais duros da oposição, até como apoio à organização terrorista. Essa interpretação, porém, não deve ser transformada em fato sem a devida ressalva: Lula não declarou apoio aos ataques de 7 de outubro e, em diferentes ocasiões, classificou os atos do Hamas contra civis como terroristas. O que é incontestável é que a comparação com o Holocausto foi celebrada pelo próprio Hamas — e isso tornou a declaração especialmente controversa.
Em setembro de 2026, depois do discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, Khaled Qaddoumi, representante político do Hamas no Irã, voltou a elogiar o presidente brasileiro e disse que ele havia escolhido estar “do lado certo da história”. O próprio discurso de Lula, entretanto, também mencionou os atos terroristas cometidos pelo Hamas contra civis israelenses.
Essa distinção é fundamental para o jornalismo. O fato de o Hamas elogiar Lula não significa que Lula tenha declarado apoio ao Hamas ou aos ataques de 7 de outubro. São coisas diferentes. Mas os elogios públicos do grupo às posições do presidente brasileiro são um fato político que merece ser registrado e debatido.
O que não pode acontecer é a inversão moral pela qual o terrorismo passa a ser explicado, relativizado ou apresentado como simples consequência inevitável de um conflito. Terrorismo contra civis é terrorismo. Assassinato de crianças é assassinato. Sequestro de inocentes é sequestro. E nenhuma causa política transforma um crime contra seres humanos em ato aceitável.
O 7 de outubro também nos lembra de algo ainda mais incômodo: o antissemitismo não desapareceu. Ele pode aparecer disfarçado de discurso político, de radicalismo ideológico ou de suposta defesa de uma causa. Quando judeus são responsabilizados coletivamente pelas ações de um governo, quando a existência de Israel é tratada como justificativa para violência contra civis ou quando terroristas são transformados em símbolos de resistência sem qualquer crítica aos seus crimes, a fronteira entre crítica política e ódio começa a desaparecer.
Memória não significa escolher algumas vítimas e esquecer outras.
É perfeitamente possível lembrar os mortos israelenses de 7 de outubro e, ao mesmo tempo, lamentar profundamente as milhares de vidas palestinas perdidas na guerra que se seguiu. Uma tragédia não anula a outra. Uma vítima não precisa ser esquecida para que outra seja lembrada.
Mas existe uma linha que não deveria admitir negociação: terrorismo contra civis jamais pode ser celebrado como resistência.
Três anos depois, o 7 de outubro continua sendo uma ferida aberta. E lembrar seus mortos não é tomar partido de uma guerra. É, antes de tudo, reafirmar um princípio básico de humanidade: nenhuma causa, nenhuma ideologia, nenhuma religião e nenhum projeto político pode transformar inocentes em alvos legítimos.
Esquecer o 7 de outubro seria permitir que o terrorismo também vencesse pela memória.
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