
“Meu amigo Douglas, estamos vivendo uma situação inusitada nessa eleição do ano de 2026.”
É assim que o comunicador Josafá Torres, o Nêgo do Rosário, começa a mensagem que enviou ao analisar o cenário da sucessão estadual.
E, para ele, o primeiro sinal de que alguma coisa diferente está acontecendo não está necessariamente nos palanques, nas carreatas ou nos discursos dos candidatos.
Está no silêncio.
“O silêncio dos eleitores, vide o altíssimo número de indecisos mostrados nos números divulgados em todas as pesquisas.”
Josafá identifica nesse silêncio um dos fenômenos mais interessantes da eleição deste ano.
O eleitor está ouvindo.
Está observando.
Mas não necessariamente está falando.
E, em política, eleitor calado pode ser um problema para quem está acostumado a fazer conta antes da hora.
A observação de Josafá encontra respaldo em diferentes levantamentos, sobretudo quando se olha para a pesquisa espontânea, aquela em que o entrevistado não recebe uma lista de candidatos.
Em abril, uma pesquisa do Instituto GP1 registrou 65,7% de “não sabe/não respondeu” na espontânea para o Governo do Piauí. Mais recentemente, o Datafolha de setembro apontou 33% de indecisos na espontânea. Ou seja: os percentuais variam bastante conforme o instituto, a metodologia e o momento da coleta.
É justamente nesse eleitor silencioso que Josafá enxerga uma questão central.
Segundo ele, o próprio governador Rafael Fonteles percebeu a dimensão desse contingente e passou a cobrar da militância uma busca mais intensa pelos votos ainda não definidos.
“Fenômeno que levou até pronunciamento do próprio governador em entrevista dizendo que a militância precisa ir atrás desse pedaço enorme do bolo de eleitores indecisos...”
Aí está a ironia da história.
Mandar a militância correr atrás do indeciso é fácil. Difícil é dizer o que o militante vai levar para convencê-lo.
Porque o eleitor que ainda não decidiu não está necessariamente esperando mais um discurso.
Pode estar esperando uma razão.
É justamente nesse ponto que Josafá aperta o parafuso.
Na avaliação dele, falta mostrar ao eleitor uma entrega capaz de transformar promessa em convencimento.
Porque campanha não vive apenas de números.
Vive de realização.
Vive de obra.
Vive de resultado.
Vive daquilo que o eleitor consegue enxergar.
E é aí que a análise de Nêgo do Rosário começa a percorrer o Piauí de norte a sul.
No Norte, ele lembra os grandes projetos que foram apresentados como símbolos de um novo ciclo de desenvolvimento: Porto Piauí, hidrogênio verde, hidrovia, ferrovia e transposição do Rio Parnaíba.
A crítica de Josafá é que boa parte dessas promessas ainda não se transformou, aos olhos do eleitor, em uma realidade proporcional ao tamanho do discurso.
É importante fazer uma ressalva: projeto relacionado ao Porto Piauí continuam em desenvolvimento. Portanto, dizer que “ficou pelo caminho” é a avaliação política sobre a distância entre promessa e entrega, e não a afirmação de que foi abandonado.
Mas a imagem criada por ele é saborosa.
Segundo sua leitura, muita coisa acabou se perdendo “no discurso e em dinheiro levado pela correnteza do Rio Igaraçu”.
E não é difícil entender a metáfora.
O eleitor ouve falar de porto.
Ouve falar de hidrogênio verde.
Ouve falar de ferrovia.
Ouve falar de hidrovia.
Ouve falar de transposição.
Mas aí olha para a própria realidade e pergunta:
“E quando é que isso chega aqui?”
É a velha diferença entre o projeto apresentado no palanque e a obra que aparece na esquina.
Josafá também percebe um fenômeno curioso nas cidades do interior.
Segundo ele, os gestores municipais estão muito mais preocupados em apoiar seus candidatos ao parlamento.
“Nas cidades do interior percebemos o cuidado dos gestores em apoiar as candidaturas de seus respectivos deputados estaduais e federais.”
É a política proporcional fazendo sua própria festa.
Cada prefeito cuida do seu deputado.
Cada liderança cuida do seu grupo.
Cada candidato corre atrás dos seus votos.
E a eleição majoritária?
Bem...
Fica para depois.
Josafá descreve uma campanha quase individual:
“O que se vê é uma campanha praticamente individual numa disputa desabrida dos candidatos a uma vaga para Assembleia Legislativa.”
É como se cada candidato tivesse comprado uma mesa no restaurante eleitoral e estivesse preocupado apenas com o próprio prato.
O problema é que governador também precisa comer.
Outro detalhe observado pelo comunicador é quase prosaico, mas politicamente interessante: a ausência de adesivos.
Carros adesivados?
Poucos.
Motocicletas?
Poucas.
Casas tomadas por cartazes?
Muito menos do que se poderia imaginar.
Josafá diz:
“Outro fato que é notório diz respeito à colocação de adesivos em carros, casas, motocicletas.”
E acrescenta:
“O que se vê é uma campanha praticamente individual...”
A impressão deixada por ele é de uma campanha que ainda não tomou as ruas com a força que tradicionalmente marca uma eleição majoritária.
E aí aparece uma dúvida quase engraçada:
os candidatos economizaram no material de campanha ou o eleitor está economizando até no entusiasmo?
Talvez seja um pouco das duas coisas.
E Josafá tem uma espécie de posto de observação eleitoral.
A Lanchonete do Sales, em Água Branca.
Segundo ele, para quem passa pelo Médio Parnaíba, a parada obrigatória também oferece uma curiosa exposição da política piauiense.
Ali ainda aparecem cartazes de candidatos desta eleição e de eleições passadas.
É quase um Museu do Santinho Eleitoral.
Tem candidato novo.
Tem candidato velho.
Tem candidato que já foi candidato tantas vezes que o cartaz parece ter criado raízes.
Enquanto isso, nas ruas, a campanha parece tímida.
E a pergunta continua:
o eleitor está desinteressado ou os candidatos estão economizando?
Josafá chega então à oposição.
“Com isso o nome do Joel vem caindo no gosto do povo.”
É a percepção dele sobre o ambiente eleitoral.
Os números das pesquisas, contudo, precisam ser separados dessa avaliação. O Datafolha divulgado em 17 de setembro mostra Rafael Fonteles com 55% e Joel Rodrigues com 25% na pesquisa estimulada; na espontânea, Rafael aparece com 40% e Joel com 16%.
Portanto, Rafael lidera as pesquisas recentes.
Isso é fato.
Outra coisa é dizer que a eleição já está decidida.
Isso, as pesquisas não permitem afirmar como fato.
E é justamente nessa brecha entre liderança e eleição definida que Josafá coloca sua provocação.
Na avaliação de Nêgo do Rosário, Rafael Fonteles teria apostado suas fichas em uma vitória já no primeiro turno.
“Sabemos que para o governador pensar em reeleição ele jogou e apostou todas as suas fichas numa vitória no primeiro turno”.
É uma interpretação política de Josafá.
E a própria postura de uma campanha que continua mobilizando a militância e procurando eleitores indecisos mostra que, independentemente dos números favoráveis, ainda existe uma disputa a ser feita.
Porque pesquisa não vota.
Prefeito não vota.
Deputado não vota.
Militante não vota pelo eleitor.
Quem vota é o eleitor.
E o eleitor silencioso ainda precisa decidir.
A mensagem de Josafá poderia terminar aí.
Mas ele não seria Nêgo do Rosário se não colocasse uma pitada de humor.
E dispara:
“Governador, acorda. Tá JESUS.”
A frase é deliberadamente irreverente.
Mas vem acompanhada de um recado político bastante claro: não confunda vantagem nas pesquisas com eleição encerrada.
Porque o eleitor ainda está olhando.
E talvez esteja esperando justamente aquilo que Josafá considera estar faltando: entrega.
Não basta dizer que vai acontecer.
É preciso mostrar o que aconteceu.
Mas é no final que Josafá encontra sua melhor imagem.
Ele recorre ao velho ditado do vaqueiro:
“Como dizia o vaqueiro: OLHA O CACHORRO NA CARNE”.
É impossível não sorrir.
Mas a expressão tem uma lógica política quase perfeita.
Cachorro não quer saber da promessa de que haverá carne amanhã.
Quando sente o cheiro, ele olha para a carne.
O eleitor também.
Pode ouvir falar de Porto Piauí.
De hidrogênio verde.
De ferrovia.
De hidrovia.
De transposição.
De bilhões em investimentos.
De grandes projetos.
Mas, no fim, ele quer saber daquilo que está diante dos olhos.
A estrada foi feita?
A água chegou?
O hospital funciona?
O emprego apareceu?
A segurança melhorou?
A obra saiu?
O dinheiro chegou onde precisava chegar?
É aí que a frase de Josafá deixa de ser apenas uma brincadeira.
Ela vira uma síntese da eleição.
Porque política é também uma disputa entre expectativa e entrega.
E o eleitor pode até aplaudir o discurso.
Mas, na hora de escolher, costuma procurar a carne.
A análise de Nêgo do Rosário não significa que Rafael esteja atrás nas pesquisas. Não está. Os levantamentos recentes mostram o governador na liderança.
Também não significa que Joel já tenha ultrapassado Rafael. Os números disponíveis não sustentam essa afirmação.
O que Josafá está dizendo é outra coisa.
Que existe um eleitor silencioso.
Que existe uma parcela da população ainda sem declaração firme de voto, especialmente na pesquisa espontânea.
Que a campanha proporcional parece ocupar espaço considerável nas cidades do interior.
Que os adesivos não tomaram as ruas como em outras eleições.
E que, diante disso tudo, talvez seja cedo demais para tratar a eleição como uma partida encerrada.
No futebol, ninguém comemora o título no primeiro tempo.
Na política, muito menos.
E, como diria Nêgo do Rosário, antes de começar a festa é melhor prestar atenção no curral:
“Olha o cachorro na carne, governador!”
Porque o eleitor pode até não estar falando.
Mas está olhando.
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