
Bateu o desespero no Supremo Tribunal Federal. Pelo menos em parte dele. E quando ministros de uma Suprema Corte começam a disputar, às vésperas de uma sessão decisiva, o acesso ao conteúdo de um celular apreendido pela Polícia Federal, alguma coisa muito séria está acontecendo.
Não se trata de um aparelho qualquer. É o celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, personagem central de uma investigação que alcançou o sistema financeiro, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e, agora, o próprio Supremo.
O aparelho transformou-se numa espécie de caixa-preta de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. E a pergunta que paira sobre Brasília é inevitável: o que há exatamente dentro desse telefone capaz de provocar tamanha movimentação entre ministros da mais alta Corte brasileira?
Cristiano Zanin e Gilmar Mendes pediram à Polícia Federal acesso à íntegra dos dados extraídos do aparelho. André Mendonça, relator do caso, havia resistido à divulgação do material antes do julgamento. Alexandre de Moraes, por sua vez, também pediu acesso integral aos dados e questionou a existência de elementos que considera essenciais para a análise do caso.
A cena é, no mínimo, extraordinária.
Imagine uma caixa com poucos centímetros de altura, largura e espessura contendo informações capazes de mexer simultaneamente com ministros do STF, com a Polícia Federal e com personagens de enorme peso na República. Não é difícil compreender por que o celular de Vorcaro se transformou no objeto mais disputado da telefonia brasileira.
Mas é preciso cautela. Até aqui, o conteúdo conhecido não autoriza afirmar que o aparelho contenha “crimes dos homens da toga”, nem que revele, por si só, uma conspiração envolvendo ministros, procuradores, parlamentares ou integrantes do Executivo. Isso seria transformar suspeita em sentença.
O que existe é algo igualmente grave: a possibilidade de que os dados contenham informações relevantes para esclarecer relações, contatos, pedidos e circunstâncias que chegaram ao conhecimento da Polícia Federal.
E é justamente por isso que o acesso integral passou a ser tão importante.
O caso ganha ainda mais temperatura porque o material já divulgado pela PF revelou mensagens atribuídas a Vorcaro dirigidas a Alexandre de Moraes. Em uma delas, o banqueiro manifesta uma gratidão extraordinária ao ministro e à família dele. Em outras, segundo as informações divulgadas, busca auxílio para contatos com autoridades como o diretor-geral da PF e o procurador-geral da República.
Aqui está o ponto central: o que Vorcaro pediu é uma coisa; o que eventualmente recebeu é outra.
As mensagens conhecidas mostram, sobretudo, o lado de Vorcaro. A existência de uma solicitação não prova que tenha havido atendimento, interferência ou favorecimento. E essa distinção precisa ser preservada por qualquer jornalismo sério.
Mas também não se pode ignorar a pergunta inversa: se o conteúdo é relevante para a apuração, por que haveria qualquer resistência ao acesso dos próprios ministros que terão de decidir sobre o caso?
É justamente essa contradição que alimenta a crise.
O Supremo precisa decidir sobre um material que envolve um de seus próprios integrantes. E, nesse cenário, transparência deixa de ser um detalhe burocrático. Torna-se uma exigência institucional.
Há ainda outro elemento que torna o episódio particularmente sensível: a existência de um contrato de elevado valor entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. O fato, por si só, não prova irregularidade. Mas cria uma questão objetiva sobre eventual conflito de interesses que precisa ser esclarecida dentro dos parâmetros legais.
E aqui surge a pergunta que talvez seja a mais importante de todas: onde termina a relação profissional legítima e onde começaria eventual conflito de interesse?
Não é uma pergunta contra o STF. É uma pergunta a favor da credibilidade do STF.
O presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu uma posição central diante do incêndio institucional. Ao concentrar decisões e processos relacionados ao caso, tenta impedir que o conflito entre ministros se transforme em algo ainda maior.
Mas há um risco nessa estratégia: quanto mais decisões são concentradas no comando da própria Corte, maior precisa ser a transparência sobre os critérios utilizados.
Porque a República não pode funcionar à base de confiança pessoal entre autoridades. Ela funciona por regras, procedimentos, controles e publicidade.
E o celular de Vorcaro tornou-se exatamente o símbolo dessa crise.
Não sabemos tudo o que existe dentro dele. Não sabemos quais mensagens poderão ser confirmadas, quais contextos poderão ser esclarecidos e quais suspeitas eventualmente perderão força quando os dados forem examinados integralmente.
Mas sabemos que existe uma disputa pelo acesso ao conteúdo.
E isso, por si só, já é notícia.
A expressão “caixa de Pandora” talvez seja forte demais para descrever um aparelho cuja totalidade dos dados ainda não foi publicamente conhecida. Mas a metáfora ajuda a compreender o momento: todos querem saber o que existe dentro da caixa.
Zanin quer acesso. Gilmar quer acesso. Moraes quer acesso. Mendonça tem cópia do material que recebeu. A PF mantém os dados originais sob sua custódia. Fachin precisa administrar o conflito. E a sociedade observa.
A pergunta agora não deveria ser quem tem medo do celular de Vorcaro?
Deveria ser outra, muito mais republicana: por que um conteúdo considerado relevante para o julgamento não estaria integralmente disponível aos ministros que terão de julgá-lo?
Se não há nada capaz de comprometer ninguém, a transparência tende a produzir exatamente o efeito contrário ao medo: elimina suspeitas.
Se há algo relevante, melhor que apareça dentro de um procedimento regular, com contraditório, defesa e devido processo legal, do que continuar alimentando versões, vazamentos e especulações.
Até amanhã, 15 de setembro, muita coisa pode acontecer.
Inclusive nada.
Mas uma coisa já aconteceu: o celular de Daniel Vorcaro deixou de ser apenas uma peça de investigação. Tornou-se um teste para o próprio Supremo.
E, diante de uma crise dessa dimensão, esconder a caixa não parece ser o caminho para recuperar a confiança.
O Brasil precisa saber o que há dentro dela. Mas precisa saber dentro da lei.
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