
A internet, sem dúvida, é um divisor de águas não apenas na comunicação social, mas também na forma como as pessoas se relacionam com o mundo. Sabe aquele ditado que diz que “o tempo apaga tudo”? Mentira. Na internet, nas redes sociais, ele não vale. Sabe por quê? Por conta do que já está sendo chamado de “N.S. do Print”. Caiu na rede, caiu no mundo. E não adianta apagar o post.
Foi o que aconteceu com Roberta Luchsinger. Depois da repercussão das declarações de Lula no “Jornal Nacional”, a empresária e lobista desativou seu perfil nas redes sociais neste sábado (29), justamente onde estavam publicadas fotografias suas ao lado do presidente. Horas depois, após reportagem do Metrópoles, a conta foi reativada, mas com os comentários bloqueados.
A pergunta que fica é: por que apagar? A justificativa apresentada pela defesa foi a avalanche de mensagens ofensivas recebidas após a repercussão do caso. O advogado Roberto Podval afirmou que a medida ocorreu por causa de “inúmeras mensagens ofensivas” e disse ter comunicado o caso a um ministro do STF. Mas o estrago já estava feito. As imagens haviam sido vistas, reproduzidas e, principalmente, printadas.
É aí que entra a força do “N.S. do Print”. Na internet, apagar uma publicação não significa necessariamente fazê-la desaparecer. Uma fotografia publicada, compartilhada e capturada por milhares de pessoas pode sobreviver indefinidamente. A postagem pode sumir do perfil, mas o registro permanece circulando. E, nesse caso, as imagens ganharam vida própria.
O episódio ganhou ainda mais repercussão porque Lula afirmou, em entrevista ao “Jornal Nacional”, que “nunca” havia conversado com Roberta Luchsinger e que ela “nunca esteve próxima” dele. A campanha petista também afirmou que o presidente não mantém qualquer relação pessoal, profissional ou política com a empresária.
Mas as fotografias existem. E foram publicadas pela própria Roberta em suas redes sociais, algumas delas registradas em 2023. Não cabe à imagem provar sozinha qual era a natureza da relação entre as pessoas fotografadas, mas ela certamente alimenta a discussão sobre a afirmação de que ela “nunca esteve próxima” do presidente.
E Lula foi além. Na entrevista, classificou como “imbecilidade” a possibilidade de Roberta afirmar que teria recebido dele promessas de cargos importantes e completou: “Malandro é igual em qualquer lugar”. Foram palavras duras, que aumentaram ainda mais a temperatura de um episódio que já havia provocado forte repercussão política.
Roberta, portanto, caiu na tentação de apagar as postagens para fugir da tempestade. Mas talvez tenha descoberto uma das regras mais elementares da internet: apagar não significa desaparecer. E, dependendo do contexto, o gesto pode produzir ainda mais perguntas. Foi apenas uma tentativa de preservar a privacidade diante dos ataques, como sustenta sua defesa, ou uma reação à repercussão das imagens? A resposta cabe a ela.
Uma coisa, porém, é impossível apagar: a proximidade registrada nas fotografias. O Brasil viu. E viu cuidadosamente. Cada post, cada foto, cada flash. Se duvidar, essas imagens de Lula com Luchsinger estão entre as fotografias políticas mais comentadas e compartilhadas na internet nos últimos dias.
A história ganhou um capítulo regional depois que o Metrópoles revelou registros de Roberta Luchsinger em campanha ao lado do governador Rafael Fonteles, em 2022. Em um vídeo daquele período, os dois aparecem próximos, dançando durante um ato político ao som do refrão “É treze, é treze, é treze”, número do então candidato.
Fonteles afirmou que não sabia que Roberta havia feito campanha para ele, embora tenha admitido: “Acho que ela pode ter apoiado. Em campanha, a gente não dispensa apoio.” Depois, declarou: “Nenhum vínculo, nenhuma proximidade com ela. Obviamente, meu governo não tem relação com ela.”
O secretário de Comunicação do Piauí, Marcelo Nolleto, também negou qualquer relação do Governo do Estado com Roberta, afirmando que não houve tratativa com ela, com empresas ou pessoas ligadas à empresária. Mais uma vez, as imagens permanecem como parte do registro público do episódio, independentemente das interpretações políticas que possam surgir a partir delas.
No fim das contas, a velha máxima ganhou uma atualização para os tempos digitais: “o tempo apaga tudo”, menos o print. Roberta pode apagar o perfil, Lula pode negar proximidade, Rafael pode negar vínculo. Mas aquilo que foi publicado, fotografado, compartilhado e preservado pela internet já não pertence somente a quem apertou o botão de publicar. Caiu na rede, caiu no mundo.
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