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Política ELEIÇÕES 2026

Brasil, país do futuro?

A tarefa de promover uma verdadeira reforma política em um país como o Brasil é hercúlea. Mas é preciso começar. E começar de maneira firme e decidida.

29/08/2026 às 08h00
Por: Campelo Filho
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Brasil, País do Futuro (Brasilien: Ein Land der Zukunft) é o título da obra do escritor judeu-austríaco Stefan Zweig, que, fugindo do nazismo, chegou ao Brasil em 1941. A expressão se difundiu e não há brasileiro que não a tenha ouvido ao menos uma vez. Especialmente em períodos eleitorais, alguns políticos recorrem a ela para exaltar um patriotismo que, muitas vezes, pouco ultrapassa o discurso. Afinal, quantos discursos políticos a frase de Zweig não sustentou ao longo da nossa história?

Há, porém, uma pergunta simples capaz de desmitificar o sentido que essa expressão adquiriu: até quando o Brasil continuará sendo um país do futuro? Mais de 80 anos depois da publicação da obra de Zweig, que projetava para o Brasil um futuro de autonomia e de capacidade para bastar-se a si mesmo, já não teria transcorrido tempo suficiente para que esse vaticínio se concretizasse? Se o futuro nunca chega, de que futuro estamos falando?

Em vez de continuar recorrendo à frase de Zweig como uma espécie de promessa permanente, os políticos deveriam apresentar propostas claras e viáveis para que o Brasil deixe de ser apenas uma expectativa de futuro e passe a construir, no presente, o país que pretende ser.

Uma das tarefas mais importantes para isso seria fazer uma reforma política. Mas o que significa, de fato, uma reforma política em um país que pretende ser do futuro?

Antes de qualquer mudança institucional, é preciso que exista disposição genuína para realizá-la. E esse querer não pode ser falacioso, desonesto ou movido por interesses particulares. Deve ser um querer profundo, acompanhado do desejo efetivo de fazer a coisa certa e de construir um país melhor. É nesse sentido que me vem à lembrança a paixão a que Max Weber se refere em Escritos Políticos (2014), ao tratar das qualidades que devem orientar o homem político: a paixão pelo país, pela pátria, pelos brasileiros.

A primeira premissa, portanto, é o querer. Mas não um querer mesquinho ou egoísta. Um querer que coloque o interesse público acima da conveniência pessoal e que reconheça a política como instrumento de transformação da sociedade. A segunda premissa é a vontade. Não uma vontade circunstancial, mas a vontade de decidir, de estabelecer objetivos e de persegui-los com determinação. É essa vontade que permite planejar, construir um projeto e estabelecer um caminho de longo prazo, sem abandoná-lo a cada dificuldade ou conveniência do momento.

Sem essas duas premissas, querer e vontade, qualquer reforma corre o risco de se transformar apenas em mais um discurso.

Sei que a tarefa de promover uma verdadeira reforma política em um país como o Brasil é hercúlea. Mas é preciso começar. E começar de maneira firme e decidida, reconhecendo que mudanças efetivas podem significar perda de espaço e de poder para aqueles que vivem da política ou que colocam interesses pessoais acima dos interesses do país e da sociedade. É justamente aí que está uma das maiores dificuldades: quem tem poder para reformar o sistema é, em grande medida, parte do próprio sistema que precisa ser reformado.

Ainda assim, a pergunta permanece: por que uma reforma política é tão necessária?

Porque a política não é um fim em si mesma. Suas escolhas produzem consequências concretas na vida das pessoas. São milhões de desempregados diante das dificuldades produzidas pela má condução da política e pela corrupção; milhares de pessoas que morrem à míngua nos hospitais públicos por falta de atendimento adequado, enquanto recursos destinados à saúde são mal geridos ou desviados; milhões de brasileiros sem acesso a uma educação capaz de lhes permitir compreender seus direitos e disputar oportunidades no mercado de trabalho.

Esses são apenas alguns exemplos de problemas que ultrapassam o campo do discurso e chegam à vida cotidiana. Por isso, a discussão sobre reforma política não pode ser reduzida a uma disputa sobre regras eleitorais, cargos ou espaços de poder. Ela precisa partir de uma questão maior: que tipo de país queremos construir e que tipo de política é necessária para torná-lo possível?

Se queremos, de fato, que o Brasil seja um país do futuro, precisamos começar a construí-lo no presente. Uma reforma política exige coragem para rever práticas, estruturas e interesses. Exige paixão pelo país e vontade de transformá-lo. Exige, sobretudo, que aqueles que exercem o poder estejam dispostos a reconhecer que a política deve servir à sociedade, e não o contrário.

Talvez essa seja a verdadeira provocação deixada pela frase de Zweig: não esperar indefinidamente pelo futuro, mas ter a coragem de construí-lo.

Qual é, afinal, o problema em fazer uma reforma política para construir o país do futuro?

Com a palavra, os políticos.

 

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Sobre Francisco Soares Campelo Filho é advogado empresarial, professor, escritor e palestrante. É pós-doutor em Direito e Novas Tecnologias pelo Mediterranea International Centre for Human Rights Research, em Reggio Calabria, Itália. Doutor em Direito e Políticas Públicas pela UNICEUB, em Brasília-DF, Brasil, com cursos de extensão em ESG, Inovação e Transformação Tecnológica pela Sorbonne, em Paris, França, e em Proteção de Dados e Inteligência Artificial pela Faculdade de Jurisprudência da Universidade Sapienza, em Roma, Itália. Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, Brasil. É membro consultor da Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da OAB, diretor do Serviço Social do Comércio (SESC), Administração Regional do Estado do Piauí, e conselheiro do Serviço de Apoio às Pequenas e Microempresas (SEBRAE), representando a Federação do Comércio do Estado do Piauí (FECOMERCIO).
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