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Nunca estivemos tão conectados – e tão sozinhos

No século da comunicação instantânea, a verdadeira revolução pode ser simplesmente voltar a conversar.

28/03/2026 às 08h00
Por: Campelo Filho
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A coluna abre espaço hoje para o médico Jefferson Campelo, que aborda em seu artigo a sociedade hiperconectada em que vivemos e, ao mesmo tempo, a epidemia de solidão. Boa leitura!

Por Jefferson Campelo - médico

Em qualquer lugar do mundo, basta observar ao redor: pessoas caminhando pelas ruas com os olhos fixos em telas, grupos reunidos em silêncio enquanto cada um percorre seu próprio universo digital, famílias reunidas à mesa, porém separadas por dispositivos. Vivemos a era da hiperconectividade. Paradoxalmente, também vivemos uma epidemia de solidão.

A promessa da tecnologia era simples: aproximar pessoas. Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais foram criados para reduzir distâncias e fortalecer relações. De fato, nunca foi tão fácil falar com alguém do outro lado do planeta. No entanto, essa mesma facilidade parece ter produzido um efeito inesperado: o enfraquecimento das conexões humanas mais profundas.

A lógica das redes sociais privilegia a aparência da conexão, não necessariamente a experiência real dela. Curtidas, comentários rápidos e compartilhamentos criam a sensação de interação constante, mas raramente substituem a complexidade emocional de uma conversa presencial. A amizade passa a ser medida em números: seguidores, visualizações, engajamento. Nesse ambiente, o relacionamento humano corre o risco de se tornar superficial.

Outro fenômeno preocupante é a comparação permanente. Ao navegar pelas redes, somos expostos a versões cuidadosamente editadas da vida alheia: viagens, conquistas, momentos felizes. O que raramente aparece são as inseguranças, frustrações ou dificuldades. O resultado é um sentimento crescente de inadequação. Muitos passam a acreditar que todos vivem melhor, mais felizes ou mais realizados — menos eles.

Essa dinâmica tem consequências diretas para a saúde mental. Estudos recentes apontam o aumento de ansiedade, depressão e sensação de isolamento, especialmente entre jovens. Embora conectados digitalmente a centenas ou milhares de pessoas, muitos relatam não ter com quem conversar de verdade quando enfrentam um problema.

A solidão, portanto, deixou de ser apenas uma experiência individual para se tornar uma questão social. Diversos países já discutem o problema como uma crise de saúde pública. Afinal, o isolamento prolongado está associado a impactos físicos e psicológicos significativos, afetando desde a qualidade do sono até o sistema imunológico.

Isso não significa que a tecnologia seja, por si só, a vilã dessa história. As redes sociais também aproximam famílias distantes, permitem o encontro de comunidades e ampliam o acesso à informação. O problema não está na existência dessas ferramentas, mas na forma como elas passam a substituir — em vez de complementar — as relações humanas.

Talvez o desafio do mundo contemporâneo seja reaprender algo que sempre pareceu óbvio: conexão não é apenas estar online. Conexão exige presença, escuta e tempo. Exige a disposição de olhar nos olhos, compartilhar silêncios e construir vínculos que não dependem de algoritmos.

No século da comunicação instantânea, a verdadeira revolução pode ser simplesmente voltar a conversar.

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Sobre Francisco Soares Campelo Filho é advogado empresarial, professor, escritor e palestrante. É pós-doutor em Direito e Novas Tecnologias pelo Mediterranea International Centre for Human Rights Research, em Reggio Calabria, Itália. Doutor em Direito e Políticas Públicas pela UNICEUB, em Brasília-DF, Brasil, com cursos de extensão em ESG, Inovação e Transformação Tecnológica pela Sorbonne, em Paris, França, e em Proteção de Dados e Inteligência Artificial pela Faculdade de Jurisprudência da Universidade Sapienza, em Roma, Itália. Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, Brasil. É membro consultor da Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da OAB, diretor do Serviço Social do Comércio (SESC), Administração Regional do Estado do Piauí, e conselheiro do Serviço de Apoio às Pequenas e Microempresas (SEBRAE), representando a Federação do Comércio do Estado do Piauí (FECOMERCIO).
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