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Comportamento BETS

Entre o entretenimento e a indução ao consumo: quando o discurso dos influenciadores transforma as bets em promessa de sucesso

As apostas esportivas on-line, popularmente conhecidas como bets, tornaram-se um dos mercados de maior crescimento no Brasil.

18/07/2026 às 08h05
Por: Campelo Filho
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Arquivo Pessoal
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Por: Lennara de Oliveira Aragão Sérgio - Mestranda em Políticas Públicas/UFPI

"Gente, olha isso!", "vou te mostrar", "corre e aproveita", "já ganhei". À primeira vista, essas expressões parecem apenas fazer parte da linguagem espontânea das redes sociais. Entretanto, quando utilizadas por influenciadores digitais para promover plataformas de apostas, transformam-se em sofisticadas estratégias de persuasão capazes de converter confiança em consumo e seguidores em potenciais apostadores. Mais do que vender um serviço, esses discursos constroem a ideia de que apostar é uma forma legítima de entretenimento, uma oportunidade acessível de ascensão financeira e um caminho possível para o sucesso.

As apostas esportivas on-line, popularmente conhecidas como bets, tornaram-se um dos mercados de maior crescimento no Brasil. A atividade foi reconhecida juridicamente pela Lei nº 13.756/2018 e regulamentada pela Lei nº 14.790/2023, com a promessa de disciplinar um setor que já movimentava bilhões de reais e ampliar a arrecadação pública. Contudo, a velocidade da expansão das plataformas digitais e das estratégias de marketing superou a capacidade do Estado de acompanhar um fenômeno que passou a ocupar espaço privilegiado nas redes sociais e no cotidiano de milhões de brasileiros.

Nesse novo cenário, os influenciadores digitais deixaram de ser apenas produtores de conteúdo para se tornarem mediadores simbólicos entre as plataformas de apostas e os consumidores. Diferentemente da publicidade tradicional, eles compartilham a própria rotina, estabelecem relações de proximidade, cultivam credibilidade e transformam recomendações em experiências aparentemente autênticas. Assim, a confiança construída ao longo dos anos passa a legitimar também o produto anunciado.

A análise das publicações de Virginia Fonseca e Carlinhos Maia evidencia esse processo. Juntos, eles alcançam dezenas de milhões de seguidores e utilizam estratégias discursivas marcadas por linguagem coloquial, demonstrações de ganhos financeiros, incentivo à experimentação e senso de urgência. Expressões como "gente, olha isso", "vou te mostrar", "corre e aproveita", "já ganhei" e "vai lá tentar" aproximam o público das plataformas e produzem uma narrativa em que o jogo aparece associado ao lazer, à oportunidade e ao sucesso financeiro. Os ganhos recebem ampla visibilidade; os riscos permanecem quase sempre invisíveis.

É justamente essa invisibilidade que transforma as bets em um desafio para as políticas públicas. O crescimento acelerado do setor passou a ser acompanhado pelo aumento do endividamento das famílias, do comprometimento da renda, da ludopatia e de outros impactos sobre a saúde mental. Em 2026, o Ministério da Saúde publicou a cartilha "Tudo o que você precisa saber sobre ludopatia", reconhecendo o transtorno do jogo como um problema de saúde pública e alertando que o uso compulsivo das apostas pode estar associado à ansiedade, depressão, isolamento social, conflitos familiares, uso de álcool e outras drogas, risco de suicídio e sobrecarga dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). O documento representa um importante reconhecimento institucional de que os efeitos das bets extrapolam a esfera individual e exigem respostas articuladas entre saúde, educação, proteção do consumidor e regulação da publicidade.

O debate também chegou ao Congresso Nacional. Em audiência pública realizada no Senado Federal, especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares defenderam restrições mais rigorosas à publicidade das bets, especialmente quando realizada por influenciadores digitais, atletas e clubes esportivos. Os argumentos convergem para uma preocupação comum: a ampla divulgação dessas plataformas pode intensificar a exposição de crianças, adolescentes e outros grupos vulneráveis a práticas de consumo potencialmente prejudiciais, favorecendo recaídas de pessoas em tratamento e ampliando problemas relacionados ao jogo compulsivo.

Nesse contexto, o papel dos influenciadores precisa ser compreendido para além da publicidade. Eles ocupam uma posição estratégica em um triângulo formado por plataformas digitais, influenciadores e consumidores, no qual a confiança se converte em ativo econômico. Ao aproximarem as bets da rotina cotidiana e revestirem as apostas de espontaneidade, produzem efeitos simbólicos que contribuem para sua legitimação social e desafiam a efetividade das políticas públicas de proteção ao consumidor.

Mais do que discutir a legalidade das bets, torna-se necessário refletir sobre os limites éticos da influência digital e sobre a capacidade do Estado de acompanhar novas formas de persuasão construídas na economia das plataformas. O desafio contemporâneo não consiste apenas em regulamentar empresa de apostas, mas em compreender que, na sociedade conectada, o produto mais valioso já não é o jogo em si, é a confiança de milhões de pessoas, transformada em estratégia de mercado e capaz de redefinir comportamentos, escolhas de consumo e, sobretudo, os limites da responsabilidade social na era digital.

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Sobre Francisco Soares Campelo Filho é advogado empresarial, professor, escritor e palestrante. É pós-doutor em Direito e Novas Tecnologias pelo Mediterranea International Centre for Human Rights Research, em Reggio Calabria, Itália. Doutor em Direito e Políticas Públicas pela UNICEUB, em Brasília-DF, Brasil, com cursos de extensão em ESG, Inovação e Transformação Tecnológica pela Sorbonne, em Paris, França, e em Proteção de Dados e Inteligência Artificial pela Faculdade de Jurisprudência da Universidade Sapienza, em Roma, Itália. Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, Brasil. É membro consultor da Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da OAB, diretor do Serviço Social do Comércio (SESC), Administração Regional do Estado do Piauí, e conselheiro do Serviço de Apoio às Pequenas e Microempresas (SEBRAE), representando a Federação do Comércio do Estado do Piauí (FECOMERCIO).
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