
Há homens que constroem empresas. Outros acumulam fortunas. Alguns, muito poucos, conseguem algo infinitamente mais raro: tornam-se parte da memória afetiva de um povo.
João Claudino Fernandes foi um deles.
Durante muitos anos, ao cair da tarde, quando o movimento do Teresina Shopping desacelerava e o café começava a espalhar seu aroma pelos corredores, formava-se, quase sem que ninguém percebesse, uma pequena assembleia da vida. O lugar ganhou um apelido que somente o humor espontâneo do piauiense poderia criar: Senadinho.
Ali não havia atas, nem discursos oficiais, nem cerimônias. Havia apenas uma mesa, algumas cadeiras e um homem que parecia ter descoberto, muito cedo, que ouvir é uma forma superior de inteligência.
Governadores aproximavam-se naturalmente. Magistrados sentavam-se ao lado de comerciantes. Professores dividiam a mesa com operários. Empresários conversavam com aposentados. Velhos amigos chegavam sem anunciar a visita. Jovens pediam licença apenas para cumprimentá-lo. Às vezes, um desconhecido aproximava-se somente para apertar-lhe a mão.
João Claudino recebia todos da mesma maneira.
Nunca fez da simplicidade um espetáculo. Era simplesmente simples.
Enquanto o mundo transformava o sucesso em distância, ele fazia exatamente o contrário. Quanto maior se tornava sua obra, mais próximo permanecia das pessoas.
A poucos metros dali permanecia um único segurança.
Quase invisível.
Observava tudo com a discrição dos homens que sabem que sua presença precisa ser percebida apenas quando necessária.
Na verdade, cumpria uma formalidade.
João Claudino caminhava protegido por um escudo que nenhuma indústria de blindagem seria capaz de fabricar.
Era o respeito.
Conta-se que, certa vez, um funcionário recém-chegado ao grupo, preocupado com a segurança do patrão, sugeriu carros blindados e uma equipe ostensiva de proteção.
João ouviu em silêncio.
Depois olhou para o movimento das lojas, para as famílias caminhando, para os funcionários que o cumprimentavam, para os clientes que sorriam ao encontrá-lo e respondeu com a serenidade de quem conhecia profundamente o coração humano.
Disse que quem vive em paz com sua consciência não precisa esconder-se do povo.
Aquela frase nunca saiu da memória de quem a ouviu.
Porque ela não era apenas uma resposta.
Era um modo de viver.
Hoje fala-se muito em patrimônio.
Patrimônio financeiro.
Patrimônio imobiliário.
Patrimônio empresarial.
João Claudino acumulou outro tipo de riqueza.
Construiu confiança.
E confiança, diferentemente do dinheiro, continua produzindo frutos muito depois que seu dono já não pode administrá-la.
Mas ninguém nasce compreendendo as pessoas.
Essa sabedoria costuma ser ensinada por mestres silenciosos.
No caso de João Claudino, os primeiros mestres foram um homem chamado João Claudino Sobrinho e uma mulher chamada Francisca Fernandes.
O sertão conhecia João Claudino Sobrinho apenas por Joca Claudino.
Era um daqueles homens que pareciam conversar pouco, mas observavam tudo.
Nascera na Fazenda Tamandaré, nas proximidades de Uiraúna, na Paraíba, onde a terra ensinava cedo que a vida dependia menos da força do que da perseverança.
Foi o comércio que o levou até Luís Gomes, já em território potiguar.
Ali conheceu Dona Francisca Fernandes.
Casaram-se.
E, sem imaginar, iniciaram uma história que atravessaria gerações.
Os primeiros filhos nasceram em Luís Gomes.
O quinto recebeu o nome de João.
Era o ano de 1930.
O Brasil ainda tentava compreender a Revolução que levaria Getúlio Vargas ao poder.
No sertão, entretanto, revoluções tinham outro significado.
Era preciso vencer a estiagem.
Era preciso plantar.
Era preciso criar os filhos.
Era preciso sobreviver.
Depois de alguns anos, Joca Claudino decidir descer novamente a serra.
A família voltou para Uiraúna.
Mais tarde seguiria para Cajazeiras.
Cada mudança significava recomeçar.
Recomeçar era quase uma profissão dos nordestinos daquela geração.
A casa crescia sem parar.
Vieram dezesseis filhos.
Dez mulheres.
Seis homens.
Uma família tão numerosa que obrigava todos a aprender, ainda crianças, que ninguém venceria sozinho.
Ali, antes mesmo de conhecer livros, João aprendeu duas lições que o acompanhariam por toda a vida.
O trabalho não era castigo.
Era dignidade.
E família nunca foi apenas um sobrenome.
Era uma responsabilidade compartilhada.
Dona Francisca exercia uma autoridade silenciosa.
Não aparecia nos negócios.
Não assinava contratos.
Não participava de reuniões.
Mas era ela quem mantinha unida aquela pequena multidão reunida em torno da mesma mesa.
As grandes famílias nordestinas sempre tiveram mulheres assim.
Mulheres que raramente aparecem nas fotografias.
Mas sem as quais nenhuma fotografia teria existido.
Décadas depois, quando perguntavam a João Claudino de onde vinha sua capacidade de enfrentar dificuldades, talvez a resposta estivesse ali, muito antes do primeiro negócio, muito antes da primeira loja.
Estava dentro daquela casa.
João estudou apenas até a quinta série.
A informação costuma aparecer nas biografias como se representasse uma limitação.
Na verdade, talvez tenha sido apenas uma mudança de endereço da escola.
Sua universidade passou a ser a vida.
Ainda muito jovem ajudava o pai.
Cuidou da vacaria da família.
Observava fregueses.
Aprendia a negociar.
Descobria que vender era apenas uma pequena parte do comércio.
Muito mais importante era compreender as pessoas.
Em Cajazeiras abriu uma pequena mercearia.
Chamava-se Guanabara do Sertão.
Vendia de tudo um pouco.
Tecidos.
Ferramentas.
Mantimentos.
Café.
Miudezas.
Mas, acima de tudo, vendia confiança.
Naquele tempo, um comerciante do interior não avaliava um cliente apenas pelo dinheiro que carregava no bolso.
Olhava-lhe os olhos.
Conhecia sua família.
Sabia onde morava.
Sabia se cumpria a palavra.
Foi ali que João Claudino, o João de Joca como ficou conhecido, descobriu que o crédito não nasce do papel.
Nasce da confiança.
Essa lição o acompanharia por toda a existência.
Anos depois, já casado com Dona Socorro, filha do comerciante Vicente Favela, de Lavras da Mangabeira, outra mulher fundamental em sua caminhada passaria a dividir com ele não apenas a vida, mas o peso dos sonhos.
Socorro trocou a tranquilidade da família por uma existência feita de esperas.
Esperava o marido voltar das viagens.
Esperava notícias vindas do Maranhão.
Esperava o nascimento de novos filhos enquanto João de Joca percorria estradas abrindo caminhos para um futuro que ainda não existia.
Não foram poucas as vezes em que permaneceu meses administrando praticamente sozinha a casa e as crianças.
Grandes empresários costumam ser lembrados pelos edifícios que levantam.
Quase nunca pelas mulheres que lhes deram estabilidade para continuar caminhando.
Sem Dona Socorro, talvez a história tivesse sido outra.
Foi então que surgiu o Maranhão.
Primeiro uma concessionária.
Depois uma inquietação.
João percebeu rapidamente que aquele negócio não lhe pertencia de verdade.
Os preços vinham definidos.
As decisões chegavam prontas.
Ele apenas executava.
Aquilo contrariava sua natureza.
Gostava de negociar.
Gostava de comprar bem.
Gostava de convencer.
Gostava de criar oportunidades.
Preferiu abandonar a segurança do negócio pronto para enfrentar o risco da liberdade.
Poucos compreenderam aquela decisão.
O tempo compreenderia por todos.
Ao lado do irmão Valdeci Claudino, cuja inteligência comercial complementava perfeitamente a sua, abriu uma pequena loja em Bacabal.
Chamou-a, inicialmente, de Nações Unidas.
O nome parecia moderno.
O povo, porém, tinha outra lógica.
Ninguém dizia que iria à Nações Unidas.
Todos falavam apenas da loja do paraibano.
Foi o povo quem rebatizou o empreendimento.
Nascia, quase sem cerimônia, o Armazém Paraíba.
E, como acontece com as grandes histórias, ninguém imaginava que aquele pequeno balcão, cercado de sonhos e incertezas, seria o embrião de um dos maiores grupos empresariais do Brasil.
O crescimento veio sem alarde.
Não havia consultorias internacionais, planejamentos estratégicos impressos em papel couché nem expressões sofisticadas importadas das escolas de administração. Havia estradas poeirentas, caminhões carregados, cadernos de anotações, olhos atentos e uma disposição incomum para trabalhar.
João Claudino nunca teve vergonha de dizer que aprendera mais nas feiras do sertão do que aprenderia em muitas salas de aula.
Sua ciência era observar.
Observava as pessoas.
Observava o movimento das cidades.
Observava o inverno e a seca.
Observava o preço do algodão, da mamona, do arroz, do feijão.
Sabia que uma boa safra significava casas mais cheias, mesas mais fartas e comércio aquecido. Da mesma forma, compreendia que um ano ruim exigia compreensão, criatividade e paciência.
Talvez por isso jamais tenha visto o cliente apenas como alguém que comprava.
Via um pai de família.
Via um agricultor.
Via um pequeno comerciante.
Via uma costureira.
Via uma dona de casa tentando montar, peça por peça, o patrimônio da família.
Seu negócio nunca foi vender móveis ou eletrodomésticos.
Seu verdadeiro negócio era vender futuro.
Enquanto João percorria o Maranhão abrindo novas lojas, Valdeci instalava-se primeiro em Recife e depois em São Paulo, próximo à efervescente Rua 25 de Março e, mais tarde, ao Brás. Os dois irmãos compreenderam cedo que uma empresa se constrói em duas frentes. Alguém precisava estar onde o povo comprava. Alguém precisava estar onde os fabricantes produziam.
Era uma parceria sustentada por um bem que hoje parece escasso.
Confiança absoluta.
Jamais precisaram transformar a fraternidade em contrato.
A palavra bastava.
E talvez seja justamente por isso que prosperaram.
Há quem imagine que grandes empresários vencem porque sabem mandar.
João Claudino demonstrava exatamente o contrário.
Vencia porque sabia convencer.
Sua liderança não era imposta.
Era conquistada.
Os antigos gerentes contam que ele chegava às lojas sem anunciar a visita. Percorria os corredores lentamente. Cumprimentava vendedores pelo nome. Perguntava pela esposa, pelos filhos, pela saúde da mãe adoentada ou pelo rapaz que estava servindo o Exército.
A memória era quase inacreditável.
Décadas depois ainda recordava nomes, histórias e pequenos acontecimentos que a maioria das pessoas esqueceria no dia seguinte.
Não fazia isso por técnica.
Fazia porque gostava de gente.
Os modernos especialistas chamariam esse comportamento de gestão humanizada.
João provavelmente acharia o nome complicado demais.
Para ele era apenas educação.
Foi também dessa forma que resolveu um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória empresarial.
Numa cidade do interior do Maranhão, o gerente apresentou um problema que parecia não ter solução.
A inadimplência entre os sanfoneiros da região aumentava rapidamente.
Muitos haviam comprado seus instrumentos no carnê do Armazém Paraíba, mas a entressafra diminuíra as festas, os contratos escassearam e o dinheiro desapareceu.
Alguns defendiam endurecer a cobrança.
Outros sugeriam recolher as sanfonas.
Era o procedimento habitual.
João permaneceu em silêncio.
Quem o conhecia sabia que aquele silêncio significava que estava pensando.
Dias depois surgiu uma ideia que nenhum manual de administração ousaria ensinar.
Mandou organizar um grande festival de sanfoneiros.
A cidade inteira seria envolvida.
Haveria palco, premiação generosa e divulgação.
Mas havia uma única condição para participar.
O músico precisava apresentar o carnê rigorosamente em dia.
A notícia correu o sertão.
Os sanfoneiros fizeram o impossível para quitar as prestações.
Uns tocaram em mais festas.
Outros venderam animais.
Alguns recorreram à ajuda da família.
O importante era voltar a ter o nome limpo e subir ao palco.
Quando o festival começou, a cidade viveu dias de alegria.
A música venceu.
Os clientes recuperaram o crédito.
As vendas aumentaram.
A inadimplência praticamente desapareceu.
João nunca comemorou aquele resultado como uma vitória financeira.
Preferia dizer que ninguém deveria perder uma sanfona apenas porque atravessava um período difícil.
No fundo, compreendia algo extremamente simples.
Quem tira de um nordestino o instrumento com que ele trabalha está retirando também sua esperança.
Naquele dia, ele não cobrou dívidas.
Restituiu dignidade.
Era exatamente essa maneira de enxergar as pessoas que transformava clientes em amigos e funcionários em parceiros de uma vida inteira.
Não surpreendia, portanto, que as inaugurações do Armazém Paraíba fossem tratadas como verdadeiras festas populares.
João não acreditava que uma loja devesse apenas vender.
Precisava integrar-se à cidade.
Nos aniversários do Armazém havia concursos culturais, bandas de música, sorteios, apresentações artísticas e até sessões gratuitas nos antigos cinemas de rua.
O aniversário da empresa tornava-se, de certo modo, o aniversário da própria cidade.
Era uma forma inteligente de agradecer à comunidade aquilo que ela lhe oferecia diariamente.
Muito antes de existir o marketing de relacionamento, João Claudino já praticava o marketing do afeto.
Mas talvez nem ele soubesse disso.
Apenas seguia aquilo que aprendera no sertão.
Ninguém prospera sozinho.
Em 1968, depois de refletir longamente sobre mapas, distâncias e estradas, tomou outra decisão que mudaria a história do grupo.
Mudou-se para Teresina.
Muitos imaginaram que fosse apenas uma transferência administrativa.
Era muito mais do que isso.
Via na capital piauiense aquilo que o Conselheiro Saraiva enxergara quase um século antes.
Um centro.
Um ponto de convergência.
Um lugar de onde seria possível alcançar todo o Nordeste.
Mais uma vez sua intuição revelou-se correta.
A partir dali o crescimento ganhou novo ritmo.
Vieram novas lojas.
Vieram fábricas.
Vieram centros de distribuição.
Vieram milhares de empregos.
Vieram empresas que ultrapassaram as fronteiras do Piauí e do Maranhão.
Mas curiosamente, enquanto o grupo crescia, João permanecia o mesmo comerciante de Cajazeiras.
Nunca perdeu o gosto por uma conversa demorada.
Nunca abandonou o hábito de escutar.
Nunca permitiu que o sucesso o afastasse das pessoas comuns.
Talvez por isso o velho Senadinho tenha se tornado uma espécie de extensão de sua própria casa.
Ali discutia-se tudo.
A política e a chuva.
O preço do arroz e o futuro da economia.
O futebol de domingo e os rumos do Piauí.
Ali não existiam autoridades.
Existiam pessoas.
Era comum ver um desembargador esperando pacientemente que um antigo funcionário terminasse a conversa.
Ou um empresário dividindo espaço com um aposentado.
Naquela mesa todos eram apenas cidadãos.
João gostava disso.
Sabia que o verdadeiro poder não precisa demonstrar importância.
Basta inspirar respeito.
Hoje o Senadinho já não existe.
As mesas desapareceram.
O café fechou as portas.
O rumor das conversas cedeu lugar ao silêncio inevitável que o tempo costuma deixar quando transforma os lugares que marcaram uma geração.
Houve quem sugerisse que naquele espaço fosse instalada uma estátua de bronze de João Claudino, sentado em sua cadeira preferida, junto ao majestoso pilar que testemunhara tantas conversas, tantos conselhos e tantas amizades.
Seria uma bela homenagem.
Mas talvez desnecessária.
Há homens que pertencem menos ao bronze do que à lembrança.
Os monumentos envelhecem.
A gratidão não.
As empresas continuarão crescendo.
Os prédios continuarão de pé.
As marcas permanecerão conhecidas.
Mas nenhuma dessas obras explica, sozinha, quem foi João Claudino.
Seu maior legado jamais coube em um balanço patrimonial.
Ele está espalhado na memória de milhares de nordestinos que receberam um voto de confiança quando mais precisavam.
Está no antigo funcionário que ainda fala do patrão com respeito.
Está no comerciante que aprendeu que lucro e humanidade podem caminhar juntos.
Está no sanfoneiro que jamais esqueceu aquele festival que alegrou toda a cidade.
Está no jovem empreendedor que descobre, todos os dias, que empresas podem crescer sem perder a alma.
Hoje compreendo que o maior patrimônio construído por João Claudino nunca foi o Grupo Claudino.
Foi algo infinitamente mais difícil de edificar.
Foi uma reputação.
Foi uma palavra que valia um contrato.
Foi uma confiança que sobrevivia ao tempo.
Foi um nome que dispensava apresentações.
Talvez seja por isso que sua cadeira permaneça ocupada, mesmo vazia.
Porque há ausências que se transformam em presença.
Há homens que erguem edifícios.
Há homens que fundam empresas.
E há aqueles, muito raros, que conseguem construir um lugar definitivo na memória de um povo.
João Claudino Fernandes pertence para sempre a essa última categoria.
E talvez seja exatamente por isso que ele nunca tenha precisado de um escudo de aço.
Durante toda a vida caminhou protegido pela única blindagem que nem o tempo consegue corroer.
O afeto de um povo.
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