
O ex-senador Mão Santa costumava chamar os petistas de "abilolados". Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a classificar parte da militância mais exaltada como "aloprada". Diante disso, fica a pergunta: o que ambos diriam hoje sobre o deputado federal Flávio Nogueira?
Médico e político, Flávio Nogueira voltou ao centro do debate após um pronunciamento no plenário da Câmara dos Deputados. Antes, já havia sido alvo de críticas por comentários considerados preconceituosos contra um trabalhador, filho de carroceiro. Agora, o motivo da repercussão é outro.
"O governador é um visionário de senso realista", diz Flávio Nogueira
Em discurso que viralizou nas redes sociais e ganhou destaque na imprensa local, o parlamentar afirmou que o Piauí já dispõe de um porto marítimo em operação e que o Porto Piauí teria realizado sua primeira exportação de minério de ferro para a China.
A origem dessa informação é desconhecida. O fato é que a declaração levou muitas pessoas a acreditar que o Estado já possui um porto comercial plenamente operacional e que exporta minério de ferro diretamente para a China. A essa altura, brasileiros de todas as regiões podem estar convencidos de que o menor litoral do país já conta com um terminal portuário funcionando em sua plenitude, quando essa não é a realidade.
Mão Santa, um parnaibano apaixonado por sua terra e que jamais escondeu sua oposição ao PT, certamente não teria recebido com entusiasmo uma afirmação dessa natureza. Afinal, quando se trata de um empreendimento estratégico para o desenvolvimento do Estado, a precisão das informações deveria prevalecer sobre qualquer narrativa política.
O episódio levanta questionamentos inevitáveis. Flávio Nogueira fez a afirmação de forma deliberada? Foi induzido a erro por informações equivocadas? Estava mal assessorado? Ou simplesmente acreditou, de boa-fé, na narrativa apresentada pelo governo estadual sobre o estágio de implantação do Porto Piauí?
Flávio Nogueira é médico, um profissional respeitado e, até onde se sabe, um cidadão honrado. Justamente por sua formação científica e por exercer um mandato parlamentar, espera-se dele rigor na apuração dos fatos e compromisso com a verdade. Um homem graduado em Medicina não pode perder o "tato-contato" com a realidade, substituindo fatos concretos por versões convenientes ou narrativas políticas. A sociedade espera de seus representantes discernimento, responsabilidade e respeito à inteligência da população.
Mais do que um equívoco político, divulgar como fato algo que não corresponde à realidade pode produzir consequências graves. Quando uma informação falsa é levada à tribuna da Câmara dos Deputados, ela ganha credibilidade institucional, repercute na imprensa, espalha-se pelas redes sociais e acaba sendo tomada como verdadeira por milhares de brasileiros. A tribuna do Parlamento existe para informar, fiscalizar e legislar, não para servir de palco à desinformação.
Embora o Código Penal brasileiro não tipifique um crime específico denominado "fake news", a divulgação de informações sabidamente falsas pode gerar responsabilização civil e criminal, dependendo do conteúdo, da intenção e dos danos causados. Em determinadas circunstâncias, a propagação de notícias falsas pode configurar crimes como calúnia, difamação, falsa comunicação de crime, estelionato, crimes eleitorais ou improbidade administrativa, além de ensejar reparação por danos morais e materiais.
O Piauí e os piauienses merecem respeito. O compromisso de um representante eleito deve ser, antes de tudo, com a verdade. Obras públicas não se concluem por decreto, discursos não substituem a realidade e desenvolvimento não se constrói com propaganda.
A credibilidade de um parlamentar é um patrimônio construído ao longo de uma vida pública, mas que pode ser comprometido por um único pronunciamento desconectado dos fatos. Em uma democracia séria, a verdade não deveria ser uma opção política, mas uma obrigação moral, institucional e republicana.
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