
A expressão "o rei vai nu" tem origem no conto O Rei Nu, de Hans Christian Andersen, publicado em 1837. A história é uma crítica impiedosa à vaidade dos poderosos e à covardia dos que preferem fingir que enxergam o óbvio. Dois espertalhões convencem um rei de que confeccionariam uma roupa invisível, que só poderia ser vista pelos inteligentes. Com medo de parecer incompetente, ninguém tem coragem de dizer a verdade. Até que uma criança rompe o silêncio e grita: "O rei está nu!"
A moral da história atravessou os séculos porque continua atual. Ela fala da manipulação da verdade, da construção de narrativas e da dificuldade que o poder tem de admitir os próprios erros.
Pois bem. Diante da sucessão de denúncias feitas pelo deputado federal André Fernandes sobre a operação na fazenda de maconha, no interior do Ceará, talvez não seja exagero dizer que, politicamente, o governador Elmano de Freitas, do PT, está nu. E não apenas nu. Está nu e com as mãos nos bolsos. Literalmente.
O governador Elmano, o secretário da Segurança Pública, Roberto Sá, e o delegado-geral da Polícia Civil, Márcio Gutiérrez, devem explicações não apenas ao povo cearense, mas ao Brasil inteiro.
Explicações sérias e convincentes. Não lorota.
Primeiro, o deputado mostrou que a operação parecia ter sido conduzida muito mais para produzir imagens do que para encerrar completamente a ação policial. Depois revelou que ficaram para trás a plantação, a droga já colhida, celulares, cadernos de anotações e outros materiais que deveriam estar sob absoluto controle da investigação.
A área sequer foi isolada. E não havia proteção policial com tanta droga no local.
Como se isso não bastasse, após uma segunda visita do próprio governador Elmano de Freitas e de sua equipe ao local, o deputado retornou à fazenda da maconha e, cavando com uma chibanca e uma pá, encontrou mais maconha enterrada.
Tudo documentado. Gravado em vídeo.
Ora, a legislação prevê procedimentos específicos para esse tipo de apreensão. Daí surge a pergunta que até agora continua sem resposta convincente: por que o material não foi integralmente incinerado?
É exatamente essa sequência de fatos que fez a narrativa oficial começar a ruir.
Não governador... algo de errado não está certo nessa história.
E talvez o maior erro do governo petista do Ceará tenha sido justamente este: entregar de bandeja à oposição um discurso poderoso. As falhas foram tantas, os desencontros foram tantos e as explicações até aqui apresentadas convenceram tão pouco que passaram a alimentar toda espécie de especulação.
Especulações e suspeitas.
É daí que nasce a tese levantada pelos adversários políticos de uma eventual conivência. Não porque isso esteja comprovado, mas porque a sucessão de trapalhadas abriu espaço para esse tipo de interpretação. Em política, aparência também pesa. E quando os fatos parecem desmentir a narrativa oficial, a desconfiança cresce naturalmente.
E nisso que dá governador Elmano, desafiar um adversário inticante. Alguém que vara a noite descobrindo as falhas da sua equipe.
Se não houve qualquer irregularidade, cabe ao governo agora, demonstrar isso de forma clara, técnica e transparente. Com ações concretas, documentadas.
E não esqueça governador, a lei é clara. A droga deve ser incinerada. Em português claro: queimada.
Porque, até agora, a impressão que fica é de uma gestão desastrada. Como diria o ex-governador Mão Santa, um verdadeiro festival de "abilolados". Ou, no linguajar popular, um bando de "zé mané" administrando uma situação que exigia profissionalismo absoluto.
E, convenhamos, não dá para falar em profissionalismo diante de tudo que foi mostrado, não é?
E as perguntas continuam ecoando. Fortes e vibrantes.
Governador, por que a maconha foi enterrada?
Por que não foi imediatamente destruída, como determina a legislação?
Sua equipe desconhecia os procedimentos?
Porque, convenhamos, enterrando maconha só existem dois caminhos possíveis: ou as sementes germinam e nasce outra roça de cannabis, ou o entorpecente permanece preservado até que alguém volte para buscá-lo.
É tão difícil assim entender uma providência elementar?
Enquanto essas perguntas permanecerem sem resposta, quem perde é a credibilidade do próprio governo.
E, como ensina Andersen, chega uma hora em que não adianta insistir na fantasia.
Porque quando os fatos falam mais alto que a narrativa...
o rei vai nu.
PRESUNÇÃO INOCÊNCIA Flávio Bolsonaro defendeu um assassino ou um acusado? O que os autos revelam sobre o caso Ana Clara
HEDONISTA DE LUXO Lulinha, o “bom vivant” que levanta perguntas incômodas sobre luxo, dinheiro e influência
DIREITO TRIBUTÁRIO Hugo de Brito Machado: o filho de Piracuruca que se tornou um dos maiores nomes do Direito Tributário brasileiro
DELEGADA DO CRIME Brasil em crise: quando a criminalidade se infiltra nas instituições da República
SENSAÇÃO ESTRANHA “Sei não, mas sei lá, viu?”: quando os números das pesquisas deixam uma pulga atrás da orelha
PREÇOS DISPARAM Café dispara 61%, gasolina sobe 32% e carne fica 20% mais cara durante o governo Lula
A FORÇA DO MEME Bolsonaro Hipotético: o humor como arma contra o Exército de Lula
FABRICA DE FAKES? Janones e a fábrica de alarmismo eleitoral: aposentadoria, Farmácia Popular e Petrobras no centro das acusações contra Flávio Bolsonaro
TRATAMENTO CÂNCER Prefeito Bruno Neto enfrenta recaída de leucemia e depende do plano de saúde para tratamento de R$ 3 milhões
Mín. 26° Máx. 42°