
Toda vez que assisto a um discurso recente do deputado Lindbergh Farias, a impressão que fica é a de que a coerência deixou de ser um requisito básico da política. O problema não é apenas o tom inflamado ou a retórica agressiva. É a aparente incapacidade de aplicar aos próprios aliados os mesmos critérios morais e jurídicos que exige dos adversários.
Essa seletividade não parece ser um fenômeno isolado. Para muitos brasileiros, ela se tornou uma característica recorrente de parte da militância ideológica. O que é tratado como escândalo quando praticado pela direita passa a ser relativizado ou simplesmente ignorado quando envolve a esquerda.
Essa percepção dialoga com uma tese defendida pelo psiquiatra forense americano Dr. Lyle H. Rossiter, formado pela Universidade de Chicago. Em seu livro "The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness" ("A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Política"), Rossiter sustenta que determinados padrões de pensamento presentes em setores da esquerda moderna favorecem uma visão emocional e ideológica da realidade, na qual a identidade do agente importa mais do que os fatos. Trata-se de uma tese do autor, que é controversa e não representa consenso na comunidade científica, mas que continua sendo frequentemente debatida por críticos do progressismo.
Independentemente de se concordar ou não com Rossiter, é difícil ignorar situações que alimentam essa percepção.
Lula, durante sua prisão, recebeu inúmeras visitas de políticos - fala-se em 572 -, manteve articulações partidárias e enviou diversas cartas públicas - cerca de 22 missivas. Tudo isso ocorreu com autorização judicial. Hoje, Jair Bolsonaro enfrenta restrições significativamente maiores, inclusive quanto ao contato com familiares em determinadas circunstâncias, após a divulgação de uma carta lida por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro.
Os defensores dessas decisões afirmam que os processos são distintos e justificam tratamentos diferentes. Já os críticos enxergam uma evidente assimetria na aplicação das medidas judiciais.
É justamente dessa percepção que nasce o discurso de perseguição política. Não porque todos concordem com Bolsonaro, mas porque muitos passam a questionar se a régua utilizada pelo sistema é realmente a mesma para todos.
O problema da política brasileira talvez não seja apenas a radicalização. É a perda da coerência. Quando a ideologia passa a determinar o que é certo ou errado conforme o autor do ato, a lógica cede lugar à conveniência.
Nesse ambiente, a objetividade desaparece. O adversário nunca tem razão, o aliado nunca erra, e os mesmos fatos recebem interpretações completamente opostas conforme a cor partidária de quem os pratica.
Essa talvez seja a maior doença da política contemporânea: não uma enfermidade clínica, mas uma incapacidade de aplicar princípios universais de forma consistente. E quando a coerência deixa de ser um valor, a democracia perde uma de suas bases mais importantes.
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