
O que você faria para fugir, literalmente, do "inferno" na Terra? Pergunta difícil de responder. Mas milhares de cubanos parecem já ter encontrado a resposta. Eles estão dispostos a vender tudo o que possuem, enfrentar fome, atravessar rios durante a madrugada, caminhar quilômetros no meio do mato e colocar a própria vida nas mãos de coiotes para escapar do regime regime socialista implantado por Fidel Castro e seu bando há mais de seis décadas na ilha. Muitos dos que conseguem sair descrevem Cuba como uma enorme prisão a céu aberto, onde falta liberdade, comida, combustível, energia elétrica e, principalmente, esperança.
E agora, com as portas dos Estados Unidos cada vez mais fechadas, o destino de muitos deles passou a ser o Brasil.
A rota começa em Havana, segue de avião até a Guiana e termina na fronteira entre Lethem e Bonfim, em Roraima. É justamente nesse trecho que entram em cena os chamados coiotes, criminosos especializados em explorar o desespero de quem busca uma vida melhor.
Segundo os próprios migrantes, os coiotes espalham informações falsas para convencer os cubanos de que entrar legalmente no Brasil é impossível. Dizem que eles serão presos ou deportados caso procurem diretamente a Polícia Federal. Com medo e sem conhecer a legislação brasileira, muitos acabam pagando verdadeiras fortunas por uma travessia clandestina.
A maioria é presa fácil para os criminosos.
Foi exatamente isso que aconteceu com Evelio Vázquez, de 45 anos. Hoje ele ajuda outros cubanos que chegam a Boa Vista, mas nunca esqueceu o drama vivido durante a viagem. Ele afirma que essa foi "a pior experiência da sua vida". Viajando com a esposa e três filhos, sendo um deles epiléptico e dois autistas, viu a própria família ser separada pelos coiotes durante o trajeto.
Outro cubano, Ávila Basulto, de apenas 28 anos, contou que precisou pagar cerca de US$ 300 apenas para percorrer um pequeno trecho da fronteira. Depois de cruzar o Rio Tacutu durante a madrugada, ele e outros migrantes foram abandonados pelos motoristas e obrigados a caminhar entre 15 e 20 quilômetros até conseguirem socorro.
Thomas Joel Franco relata que passou cinco dias praticamente sem comer e sem dormir. Sobreviveu bebendo pouca água e comendo bolachas enquanto atravessava rios, lama e longos trechos de mata fechada.
Quando esses migrantes são encontrados pela Polícia Rodoviária Federal, muitos apresentam sinais de desnutrição, desidratação, doenças respiratórias e profundo abalo psicológico.
Todos os relatos colhidos têm um ponto em comum: a dificuldade de viver em Cuba. O médico Rodolfo Canet conta que o salário que recebia era equivalente ao preço de apenas um litro de gasolina. Hoje vive em Curitiba e trabalha como repositor de mercadorias.
Para financiar a fuga, muitas famílias vendem tudo o que construíram durante décadas. Os pais de Evelio, por exemplo, venderam a casa da família por apenas uma pequena fração do valor real para custear a viagem do filho.
Os valores cobrados pelos coiotes impressionam. Existem pacotes que chegam a custar US$ 10 mil, incluindo passagens, transporte clandestino e deslocamento até cidades brasileiras como Boa Vista, Curitiba e Florianópolis.
O que muitos só descobrem depois de enfrentar toda essa via-crúcis é que poderiam solicitar refúgio gratuitamente às autoridades brasileiras, sem precisar recorrer às organizações criminosas que lucram com a desinformação.
Enquanto isso, o número de cubanos pedindo refúgio no Brasil continua crescendo. Mais do que uma mudança de país, muitos afirmam estar buscando algo que consideram básico: liberdade para reconstruir a própria vida, trabalhar, sustentar a família e viver com dignidade.
É o capitalismo socorrendo os refugiados do socialismo.
Independentemente das diferentes visões políticas sobre Cuba, uma realidade é difícil de ignorar: quando milhares de pessoas vendem tudo o que possuem, enfrentam fome, atravessam fronteiras clandestinas e colocam a própria vida em risco para deixar um país, isso revela o tamanho do desespero de quem acredita que qualquer futuro, por mais incerto que seja, ainda pode ser melhor do que permanecer onde está.
E viva a liberdade!
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