
Há homens que passam pelo Direito deixando decisões. Outros deixam doutrinas. Antônio Evaristo de Moraes Filho deixou algo ainda mais precioso: um exemplo de advocacia comprometida com a liberdade, a dignidade humana e o Estado de Direito. Em uma carreira que atravessou alguns dos momentos mais delicados da história brasileira, tornou-se um dos maiores criminalistas do País, respeitado pela cultura jurídica, pela firmeza de princípios e pela coragem de assumir causas que muitos recusavam. Sua trajetória permanece como referência para gerações de advogados e magistrados que enxergam na advocacia criminal uma das mais nobres expressões da Justiça.
Nascido no Rio de Janeiro, em 9 de abril de 1933, Antônio Evaristo parecia destinado ao Direito. Era filho de Evaristo de Moraes, um dos maiores advogados criminalistas da história brasileira, defensor de trabalhadores, intelectuais e personagens centrais da vida nacional. Cresceu cercado por livros, debates jurídicos e pelo ambiente do tradicional escritório fundado pelo pai em 1894. Ali aprendeu que o advogado não existe para agradar maiorias, mas para garantir que a lei alcance todos, inclusive aqueles que a sociedade prefere condenar antes do julgamento.
A herança familiar, entretanto, jamais lhe serviu como atalho. Construiu seu próprio nome pela dedicação ao estudo, pela sólida formação acadêmica e pela excelência técnica. Professor de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tornou-se um jurista admirado pela profundidade das análises e pela rara capacidade de transformar conceitos complexos em argumentos claros e convincentes. Na advocacia, era conhecido pela serenidade, pela discrição e pela absoluta preparação para cada processo que assumia.
Entre os colegas, desfrutava de um prestígio raro. Era visto como um advogado de elegância intelectual incomum, dono de sólida cultura humanística e de profundo respeito às instituições. Nunca fez da tribuna um palco para vaidades. Sua força estava na consistência jurídica, na precisão da linguagem e na convicção de que o advogado deve servir à Justiça antes de servir aos interesses circunstanciais de seus clientes. O respeito que conquistou entre magistrados, membros do Ministério Público e da advocacia nasceu justamente dessa combinação entre firmeza, equilíbrio e ética profissional.
Sua concepção do Direito Criminal era profundamente humanista. Antônio Evaristo costumava afirmar que o papel do advogado não era absolver culpados nem condenar inocentes, mas assegurar que nenhuma pessoa fosse privada de seus direitos sem a observância rigorosa da Constituição. Defendia que a grandeza de um sistema democrático é medida pela forma como trata aqueles que enfrentam maior rejeição social. Para ele, o direito de defesa não era um privilégio, mas uma garantia indispensável da civilização jurídica.
Essa compreensão tornou-se ainda mais relevante durante a Ditadura Militar. Enquanto muitos silenciavam diante da repressão, Antônio Evaristo colocou sua capacidade jurídica a serviço da defesa das liberdades públicas. Atuou na defesa de perseguidos políticos como os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, além de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Arthur da Távola, Fernando Gabeira e diversas outras personalidades atingidas pelo regime de exceção. Em uma época de restrições às garantias constitucionais, sua atuação tornou-se símbolo de resistência jurídica e de fidelidade ao Estado Democrático de Direito.
Ao longo da carreira, participou de processos que marcaram a história do Brasil. Atuou no rumoroso caso da Rua Tonelero, no processo decorrente da tragédia do Elevado Paulo de Frontin, na extradição do criminoso nazista Franz Stangl, no desastre do Bateau Mouche, na defesa do bispo Edir Macedo e do ex-presidente Fernando Collor de Mello durante o processo de impeachment. Também esteve ligado ao histórico episódio conhecido como Roubo do Cofre de Adhemar de Barros, processo que permanece objeto de debates políticos e históricos em razão das ações da resistência armada ao regime militar.
Embora jamais buscasse notoriedade, compreendia que justamente os processos de maior repercussão exigiam dos operadores do Direito serenidade ainda maior. Defendia que a opinião pública não poderia substituir as provas nem a emoção coletiva ocupar o lugar da Constituição. Para ele, o advogado criminalista tinha o dever de impedir que o clamor popular comprometesse o devido processo legal, posição que o aproximava da tradição garantista representada por mestres como Sobral Pinto, Heleno Cláudio Fragoso e Evandro Lins e Silva, todos defensores da supremacia das garantias fundamentais.
Sua contribuição ultrapassou as salas dos tribunais. Exerceu funções de destaque como membro do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, integrante do Instituto dos Advogados Brasileiros, ex-presidente do Conselho Estadual de Política Criminal e Penitenciária e Auditor do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da CBF. Também participou da fundação e do diretório nacional do Partido Socialista Brasileiro, demonstrando que sua preocupação com a Justiça extrapolava os limites da advocacia e alcançava a própria construção institucional do País.
Na vida privada, era um homem reservado. Casado com Marlene Kieffer de Moraes, constituiu uma família com três filhos e manteve até mesmo sua doença longe dos holofotes. Durante cerca de dez anos conviveu silenciosamente com um câncer, ocultando o diagnóstico dos próprios familiares para poupá-los do sofrimento. A discrição que demonstrava na intimidade era a mesma que caracterizava sua atuação pública: jamais precisou de gestos grandiosos para conquistar respeito.
Seu maior legado talvez não esteja nos processos históricos que patrocinou, nem nos cargos relevantes que ocupou. Está na concepção de advocacia que ajudou a consolidar no Brasil. Antônio Evaristo ensinou que o advogado criminalista não defende crimes, mas direitos; não protege culpados, mas garantias; não combate pessoas, mas arbitrariedades. Sua atuação reafirmou que a liberdade somente permanece viva quando existe uma advocacia independente, técnica e corajosa para protegê-la.
Ao homenagear Antônio Evaristo de Moraes Filho na série Gigantes do Direito do Passado e do Presente, reverencia-se um dos homens que melhor compreenderam o verdadeiro significado da advocacia criminal. Seu nome permanece entre aqueles que elevaram a profissão à condição de missão pública, demonstrando que a Justiça não se fortalece pela força das acusações, mas pelo equilíbrio entre acusação e defesa, pela fidelidade à Constituição e pela coragem de nunca abandonar os princípios, mesmo diante das causas mais difíceis. Essa é a marca reservada aos verdadeiros gigantes do Direito brasileiro.
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